COLETIVO

04/08/2020 - E o impeachment de Bolsonaro, para onde foi?

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E o Impeachment de Bolsonaro, para onde foi?


 

Há menos de dois meses, uma articulação de forças que ia do Supremo Tribunal Federal ao PSOL, passando por figuras como Fernando Henrique, Boulos, Marina Silva e o PT, não perdia oportunidade para apontar Bolsonaro e apoiadores como inimigos mortais da democracia. Não foram poucas forças e organizações que se dizem de esquerda julgaram por bem aderir a esta articulação. Lembremos das manifestações de rua pró e contra Bolsonaro e seu governo, as declarações ameaçadoras da área militar, as bravatas não menos impressionantes dos filhos de Bolsonaro, o confronto aberto com Bolsonaro de Doria e Witzel (governadores de São Paulo e Rio de Janeiro). Lembremos ainda da saída espetaculosa de Moro do governo, as denúncias de interferência de Bolsonaro na Política Federal. Por fim, lembremos ainda os manifestos que recolheram amplamente assinaturas, todos em defesa da democracia e todos denunciando os métodos e medidas fascistas do governo federal. Figuras como Paula Lavigne e Caetano Veloso vieram a público denunciar o governo. Articulistas de origem na esquerda, como Marco Aurélio Nogueira e Sergio Henriques, pregaram a defesa intransigente dos valores e práticas “republicanas” e “democráticas”. Estava na hora, diziam, de se colocar as divergências de lado e cerrar fileiras contra o “fascismo”. As investigações todas levavam a uma única conclusão: a proximidade, se não cumplicidade, dos Bolsonaros com os assassinatos de Marielle e do Capitão Adriano, a corrupta simbiose entre as milícias, o clã Bolsonaro e a corrupção. Tudo colocava no horizonte o impeachment de Bolsonaro.

Pois bem, passadas pouco mais de quatro semanas, o que restou desta defesa da democracia pelos democratas? Praticamente nada. As investigações estão em banho-maria, o processo de impeachment sequer foi instalado no Congresso. Nossos artistas e figuras como Fernando Henrique, Marina Silva e Rodrigo Maia estão calados. Os manifestos pela democracia? Com seus milhares de assinaturas? Onde estão eles? Witzel está encalacrado, lutando pela sua própria sobrevivência depois das denúncias de corrupção no seu governo e Doria, de ponta de lança entre os governadores no embate com Bolsonaro, colocou a viola no saco – ainda mais agora que Serra e Alckmin começam a ser alcançados pela Lava Jato.

O que ocorreu? Deixou Bolsonaro de ser um fascista que precisa ser extirpado do cenário político? Ou os democratas não eram os defensores da democracia que diziam ser?


 

O que aconteceu?


 

Na superfície mais superficial, aquela que as notícias dos jornais reportam, dois foram os principais movimentos que esvaziaram o impulso democrático anti-Bolsonaro.

O primeiro foi a prisão de Fabrício Queiroz, numa casa em Atibaia pertencente a Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro e com conexões com as milícias cariocas. A prisão de Queiroz e o mandato de prisão de sua esposa colocaram as hostes bolsonaristas em pânico. As conexões entre o crime organizado, as milícias e os Bolsonaros foram operadas por Queiroz e uma delação premiada poderia tornar inevitável o impeachment.

A prisão de Queiroz também parece ter afastado o núcleo militar do “núcleo ideológico” do governo. Até a prisão, os militares estavam “fechados” com Bolsonaro e viam na imprensa e no Supremo as causas principais da crise. Lembremos do artigo de Mourão no jornal o Estado de São Paulo de 15 de maio de 2020. Lá podemos ler que a “usurpação das prerrogativas do Poder Executivo” pelo Congresso e pelo Judiciário, somada a uma imprensa tendenciosa, eram as causas principais da crise. Essa postura foi abandonada. Os eventos narrados pela imprensa levam a crer que os militares passaram a fazer pressão que Bolsonaro recuasse.

O segundo movimento importante é que os bolsonarista passaram à defensiva. As preparativas para uma tentativa de golpe foram (aparentemente) interrompidas. As manifestações de rua em Brasília todo final de semana contra o Congresso e o Supremo, como que por mágica, desapareceram. Emissários foram enviados ao Congresso e ao Supremo. Bolsonaro não mais os atacaria se, em troca, o impeachment não prosseguisse e as investigações envolvendo a “família imperial” (como FHC caracterizou o clã Bolsonaro já no início do governo) não fossem adiante.

Como parte deste acordo, uma parte do governo deve ser entregue ao Centrão, o núcleo mais corrupto da corrupção no Congresso. A justificativa é que o governo necessita de uma base no Congresso para governar. A realidade é que Bolsonaro precisa de 172 votos no Congresso para evitar um impeachment. Carlos Bolsonaro, o principal cavaleiro do apocalipse encarregado da ofensiva cibernética dos bolsonarista, torna pública a possibilidade de sair da linha de frente e um “olavista” é afastado da presidência do Banco do Brasil.


 

Ou seja...


 

Os democratas fecharam um acordo com Bolsonaro.

Bolsonaro abandona as “ideias malucas” de um golpe de Estado e os democratas concordam que ele conclua o governo. Todos também concordam em disputar suas divergências nas urnas, tanto nas eleições deste ano quanto nas eleições para a Presidência em 2022. Não há mais necessidade da defesa da democracia contra Bolsonaro: Caetano, Paula Lavigne, Maitê Proença podem voltar para seus afazeres. Os manifestos podem ser engavetados. As investigações dos crimes cometidos pela “família imperial” podem ser colocadas em banho-maria. Queiróz ganha prisão domiciliar, junto com sua esposa; Frederick Wassef, o advogado, que dizia saber bastante e ter muito a contar, saiu de cena; FHC sai do noticiário e o impeachment parece que nunca foi levado a sério.

O próximo passo na implementação deste acordo está ocorrendo agora, nos nossos dias: a desmontagem da Lava Jato. Moro lamenta ter sido usado pelos bolsonaristas. De fato, para os ingênuos não há lugar na política.

Lembremos quem forma o Centrão, composto por uma série de pequenos e médios partidos, entre eles o MDB e o DEM. A liderança principal era o Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) e, secundariamente, Artur Lyra (do PP) e Davi Alcolumbre (presidente do Senado). A marca desde bloco heterogêneo é o que os analistas burgueses denominam de “fisiologismo”, isto é, a prática de vender seus votos em troca de propinas. É o que há de mais corrupto e bandido no Congresso, se é que há lá alguma figura que não seja ao menos conivente com a corrupção e com a bandidagem. No governo Dilma, foi este mesmo Centrão que vendeu caro seu apoio ao PT para, quando a situação se tornava insustentável, virar a casaca e promover uma nova rodada de venda de seus votos, agora pró-impeachment. Logo depois, foi a vez de Temer pagar muito dinheiro ao Centrão para que seu impeachment não fosse adiante, quando do escândalo da JBS.

Pois bem, é esse mesmo Centrão que se torna o aliado principal de Bolsonaro. Corruptos tradicionais e de estirpe declaram seu apoio ao governo e ganham cargos no governo federal. A BBC noticiou que os cargos em negociação controlam mais de 10 bilhões em verbas ainda não comprometidas no orçamento federal [1]. A luta contra a corrupção, uma das principais bandeiras de Bolsonaro, tem que ser enrolada e colocada no porão da casa, com a esperança de que seja esquecida.

O acordo com o Centrão possibilita também acabar com a Lava Jato, de preferência acabando também com a possibilidade de Moro se lançar candidato à Presidência em 2022 (no Supremo fala-se em uma lei que o tornaria inelegível por 8 anos). Nesta ofensiva contra a Lava Jato, o Centrão, os bolsonaristas e o Supremo contam também com o apoio da “esquerda”, desde do site Intercept, passando pelo PSOL (Ivan Valente está na linha de frente) e incluindo o PT.

Feito o acordo, mantida a possibilidade de Bolsonaro, desde que se comporte, terminar o seu mandado e se candidatar em 2022, a defesa “intransigente” dos valores e preceitos democráticos pode ser transigida e deixada de lado.


 

Que morram mais alguns milhares!


 

Esse newsletter está se convertendo em um rosário de recordações! Mas não há como escapar, quando o passado é fundamental para esclarecer o presente.

Lembram-se como, não há muito, alegava-se que uma das principais razões do impeachment era o descalabro promovido por Bolsonaro na luta contra a pandemia? De lá para cá, as mortes diminuíram? A estratégia do governo mudou? Passamos a contar com uma atuação efetiva e de qualidade por parte do governo federal? Evidentemente que não.

Na verdade, os democratas afirmavam, corretamente, que Bolsonaro nos custa milhares de vidas; mas apenas para fortalecer o movimento pelo impeachment e não para salvar vidas. Agora que não é mais preciso tirar Bolsonaro do Planalto, também deixou de ser necessário o impeachment para salvar vidas. Que morram mais alguns milhares!


 

Por que os democratas são ... democratas?


 

No newsletter de 1 de julho, um mês atrás, apontávamos a responsabilidade dos setores democráticos na sobrevivência do núcleo repressivo da Ditadura Militar no seio do Estado. Narramos como, desde a Constituição de 1988, passando pelos governos FHC, Lula e Dilma, os democratas sempre atuaram na proteção e auxiliaram a sobrevivência do aparato de repressão desenvolvido sob a Ditatura. O acordo, jamais o confronto, é o que marca a relação entre os democratas e figuras como Bolsonaro e Mourão. Fernando Henrique, Lula e os democratas todos, apenas utilizaram das boas intenções de figuras como Caetano e Maitê Proença, da ingenuidade e estreiteza de horizonte de forças que se querem de esquerda, como o PCB, parcelas do PSOL, torcidas organizadas etc. para pressionar a “família imperial” a um acordo. Bolsonaro é um fascista a ser derrubado até que faça um acordo com a democracia! Feito o acordo, pode-se esquecer o “fascismo” de Bolsonaro.


 

Nem tudo são flores...


 

Nem tudo são flores para os bolsonaristas, contudo.

A crise econômica só piora e a pandemia, com avanços e recuos, não deixa de matar cada vez mais brasileiros. O desemprego abarca mais de 50% da força de trabalho. Todas as estatísticas mostram uma assustadora queda do nível de vida dos assalariados...

Uma parte importante, ainda que minoritária do Centrão, o MDB e o DEM, decidiu não compor a base do governo e rachou. Os mais capacitados estrategistas do Centrão, como Rodrigo Maia e Antônio Carlos Magalhães Neto saíram do acordo. Talvez por avaliarem que o governo está numa crise da qual não terá escapatória e melhor seria manter uma posição de independência. Talvez também por articulações envolvendo a eleição do novo presidente da Câmara em janeiro do ano que vem. Onde isso irá dar? Difícil dizer, há que se aguardar ao menos algumas semanas.

Mas, desde já, podemos tirar uma lição destas últimas semanas: quando se trata do confronto com o governo Bolsonaro, os primeiros traidores são os democratas. São eles os primeiros dispostos a abandonar a luta e fazer um acordo com a direita. Vêm fazendo isso desde a Constituição de 1988. Estão fazendo agora, novamente, na nossa cara.

Na luta pela liberdade, nós não devemos contar com a aliança com os democratas; quem conta com uma aliança com os democratas é a extrema direita. Bolsonaro “usou” Moro, assim como os democratas “usaram” aqueles que, acreditando estarem lutando contra Bolsonaro, se colocaram incondicionalmente ao lado de FHC, Ciro Gomes, Lula, Marina e Boulos.


 

Isso não é tudo...


 

Há, ainda, o mais importante a ser explicado: por que nossos democratas são tão propensos a acordos com a direita, mesmo a mais extremada? Por que forças reformistas tradicionais como o PC do B, o PCB, o PSOL, o PT e outras organizações menores tratam os democratas como aliados em potencial e, a esquerda revolucionária, como inimiga de classe? Trataremos disso no primeiro newsletter de setembro.


 

Referências externas

[1] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52466624

 

 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro "Estado, política social e controle do capital", escrito por Milena Santos.

 

Sobre a autora: Bacharel em Serviço Social (UFAL), Mestra em Serviço Social (UFAL) e doutoranda em Serviço Social, no Programa de pós-graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

Resumo: O livro aborda o Estado e a Política Social e tem como objetivo apresentar como a política social pode ser considerada uma das formas de controle do sistema sociometabólico do capital através da atuação do Estado. Para tanto, baseia-se na análise marxiana dos fundamentos ontológicos do Estado (natureza, desenvolvimento e função social). Analisa a ordem de reprodução do capital e o Estado, como uma estrutura de comando político direcionada a defender os interesses do capital, complementando-o de forma essencial na manutenção da ordem do capital. Trata ainda da “questão social” e as origens das políticas sociais, captando seus fundamentos ontológicos, analisando o processo de consolidação durante o período monopolista do capitalismo. Também apresenta as formas de enfrentamento da crise estrutural do capital pelo Estado e, principalmente, quais as decorrências dos ajustes estruturais para a política social.

 

Edições:

2016, impressa - ESGOTADA

2020: E-book - ficará disponível no site até outubro

Reafirmamos que nossa finalidade não é obter lucros com as vendas das produções. Os custos da produção dos materiais são bancados pelos próprios proponentes, sem recursos do Estado, de sindicatos ou outras instituições para-estatais. O objetivo é contribuir com a disseminação do conhecimento numa orientação revolucionária. O COLETIVO VEREDAS não visa lucro, por isso seus livros são baratos. Em nosso site, todos os livros são vendidos a preço de custo acrescidos de frete e podem ser baixados gratuitamente em PDF.

 

 

 

 

20/07/2020 - Pandemia, por quê? Por que agora?

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Pandemia, por quê? Por que agora?

 

Comecemos pelo início: o que é uma pandemia?

Tomemos como exemplo a nossa atual epidemia, causada por um vírus, o SARS-COV-2.

O vírus é um dos menores seres vivos, uma esfera de gordura e proteína que contém no seu interior uma molécula de RNA (um ácido que contém o código genético do vírus). O vírus se reproduz dissolvendo uma molécula que faz parte da membrana externa de uma célula e nela inserindo o seu RNA. O RNA começa então a se “alimentar” da célula que foi invadida e reproduz milhares de cópias de si mesmo. Novos vírus, milhares deles, vão sendo formados no interior da célula até que esta explode, liberando os novos vírus para infectarem outras células e assim por diante.

O vírus é muitas vezes menor do que uma célula. Muitos vírus costumam atacar uma mesma célula ao mesmo tempo e por isso é comum que o RNA de um vírus se misture com o de outro vírus e que eles troquem material genético. Então, se um vírus possui uma variação que melhora sua reprodução, esta variação tende a ir predominando e ela é repassada aos outros vírus que estão se formando junto com ele. É assim que boa parte das mutações dos vírus acontecem. Mutações são as variações no código genético que ocorrem quando um ser vivo se reproduz.

Como existe uma enorme quantidade de vírus no ambiente, com frequência ocorre de uma mesma célula ser invadida por vírus diferentes (por exemplo, um vírus que normalmente se reproduz no morcego ataca a célula de um porco no mesmo momento em que esta célula está sendo invadida por um vírus da gripe suína). Surge assim a possibilidade de o vírus da gripe suína “receber” parte do material genético do vírus do morcego e, vice-versa, do vírus do morcego receber “informações” genéticas do vírus da gripe suína. Surge um vírus novo, meio suíno, meio morcego.

Por isso, ao examinarmos o RNA de um vírus é possível descobrir sua evolução. Esses “pedaços” de RNA de diferentes vírus, ao se associarem, vão “escrevendo” a história do vírus. Começou em tal planta ou animal, “pegou” este pedaço de RNA desta outra planta ou animal, depois infectou este outro ser vivo e pegou um terceiro “pedaço”. É isso que nos dá a certeza, por exemplo, de que o SARS-COV-2 não foi produzido em um laboratório, que ele não é um plano da China para destruir a civilização ocidental, como querem alguns bolsonarista. É muito mais do que isso, como veremos logo abaixo.

Como esta troca de material genético ocorre ao acaso, nem sempre elas são favoráveis. Algumas vezes, contudo, dão origem a vírus com características novas, por exemplo, com a capacidade de atacar células humanas e, então, na primeira oportunidade, um vírus que só existia nos suínos e nos morcegos passa aos seres humanos. Foi isso o que ocorreu, tudo indica (há pesquisas em andamento), com o SARS-COV-2, que provoca a COVID-19.

Os vírus se transformam cotidianamente, novos vírus surgem com frequência, entre os humanos, entre as plantas e entre os animais. Como existe uma fantástica quantidade de vírus no planeta, novos vírus estão surgindo a cada minuto em todos os lugares.

Um vírus, contudo, não faz uma pandemia!


 

Do vírus à pandemia


 

Caso um ser humano seja infectado, mas não tenha contato com outros seres humanos ou tenha contato com poucos seres humanos, o vírus se propaga apenas neste grupo e a doença pode matar a todos, ou o grupo pode desenvolver resistência a ela, ou ainda ela pode ficar endêmica, isto é, passa a fazer parte da vida daquela população. Mas não vai além disso.

Para que uma pandemia (uma epidemia em escala mundial) aconteça, é preciso que haja condições para que o vírus (pode ser também uma bactéria, mas isso não vem aqui ao caso) se propague para um número muito grande de indivíduos em todo o planeta. Para que isso ocorra, algumas condições precisam ser atendidas.

Primeiro, é preciso que haja uma grande uniformidade genética. Por exemplo, quando plantamos milhões de quilômetros quadrados com a mesma soja, geneticamente idêntica, estamos criando as condições ideais para que um vírus surja e rapidamente infeccione toda a soja. Isto acontece todos os anos e, por isso, os grandes vendedores de sementes do mundo vivem o tempo todo buscando criar variações genéticas que deem origem a plantas que sejam resistentes às novas “pragas”.

A China possuía, neste começo de ano, 310 milhões de porcos, a União Europeia outros 148 milhões, os EUA mais 78 milhões e assim por diante [1]. Todos confinados ou semiconfinados, com raças muito assemelhadas, isto é, com uma considerável homogeneidade genética. Tal como com a soja, isto também é um cenário ideal para um novo vírus contar com uma rápida difusão. Com as galinhas, os números são ainda maiores: estima-se em 19 bilhões a quantidade de galinhas no plante, China, EUA e Brasil sendo os maiores criadores [2].

Ao mesmo tempo, destruímos florestas, poluímos os oceanos e a atmosfera, eliminamos do planeta um número incontável de espécies: a natural diversidade genética vai sendo destruída pelo modo como o capitalismo trata a natureza. Criamos um mundo que apresenta uma homogeneidade genética que nunca existiu antes e isto atende à primeira condição para que um vírus se transforme em uma pandemia.


 

O capitalismo e a pandemia


 

O desenvolvimento da capacidade produtiva do capital atende às outras condições para que um vírus se converta em uma pandemia.

O capitalismo forçou uma humanidade que era essencialmente agrícola a se tornar urbana. Hoje, mais da metade da população do planeta vive em centros urbanos. Além disso, o desenvolvimento do capital também promoveu uma gigantesca concentração da riqueza, de tal modo que a pobreza da maioria e a riqueza de uma ínfima minoria não param de crescer. Uma é irmã siamesa da outra. Hoje somos 7,7 bilhões de humanos, 57% habitando as cidades, com 1% de população possuindo 44% e 57% possuindo menos de 2% da riqueza mundial [3]. Uma enorme concentração de humanos, em áreas pequenas e com as piores condições de saúde, de alimentação e de higiene.

Ao mesmo tempo, o capital gerou uma malha de transporte e comunicações que faz com que um vírus desse a volta ao redor do planeta (antes da pandemia deste ano, claro) em poucos dias.

Sopa no mel para uma rápida propagação de doenças: bilhões de humanos aglomerados em áreas pequenas nas piores condições de vida, com a biodiversidade originária do planeta sendo substituído pela homogeneidade genética que conhecemos e com meios de transporte que conectam cada localidade ao planeta como um todo e – o que mais um vírus necessita para se converter em uma epidemia?

Nada, de fato nada.

Esta é uma velha história. Nenhuma uma novidade. Por exemplo, Laura Garret, em 1994, em seu livro A praga por vir, demonstrou em detalhes como a questão não era se viveríamos uma pandemia, mas apenas o quando ela viria. “Os sinais eram claros.”, comenta o site “netnature”. Tivemos as epidemias do “Hendra em 1994, do Nipah em 1998, do Sars em 2003, do Mers em 2012 e do Ebola em 2014; todas essas grandes epidemias humanas foram causadas por vírus que se originaram em hospedeiros de animais e passaram para humanos. O COVID-19 é causado por uma nova variante do mesmo coronavírus que causou o Sars” [4].

Com a sua sanha por lucros, o capitalismo invade a natureza, destrói a diversidade e a substitui pela homogeneidade genética; concentra humanos miseráveis aos bilhões e cria todas as condições necessárias para que pandemias venham a fazer parte do cotidiano da humanidade daqui para a frente.

O vírus da CODIV-19, por si só, não mataria tanta gente. Sem a ajuda do capitalismo, nenhum vírus teria este poder!

A pandemia, por isso, é muito mais uma criação humana do que um evento da natureza. De fato, precisamente, é uma criação do capital.


 

Por que agora?


 

Estamos ocupados com a COVID-19. Mas há muito mais ocorrendo no mundo.

Uma epidemia mata cavalos na Ásia e outra mata suínos na África; temos uma praga de gafanhotos na África e na América do Sul; o degelo nunca foi maior tanto no Polo Norte quanto no Sul, a Sibéria registrou temperaturas de 38 graus e o degelo do solo está fazendo construções e o oleoduto que transporta o petróleo de lá para a Europa, desabarem; um fungo está tornando este ano a neve dos Alpes cor de rosa, o que deve aumentara a temperatura e o degelo na região; a chikungunya, a dengue, a zika, a tuberculose, a febre amarela, a esquistossomose e a leishmaniose voltam a se expandir. A mais forte epidemia de Ebola acabou de ser controlada na África. Passarinhos morrem como nunca na Europa e abelhas estão morrendo em quantidade sem precedente na Europa e nos EUA. Eliminamos do planeta milhares de seres vivos a cada ano, muitos dos quais nem chegamos a conhecer direito. Os bancos de corais, os manguezais, as correntes marítimas, a concentração de gás carbônico nos oceanos... tudo está sendo afetado pelo modo como o capital trata o planeta. Até mesmo a varíola, que se julgava erradicada do planeta, volta a emergir na África e na Ásia. É mais do que provável que novas pandemias surjam e num espaço de tempo não muito longo.

Por que agora? O que está acontecendo?

Estamos provavelmente vivendo o que Engels denominava de salto qualitativo e que Lukács, com maior precisão, chamou de salto ontológico. Alterações que vão se acumulando terminam resultando em uma alteração da qualidade, uma alteração ontológica, da totalidade. Ao destruir o planeta e concentrar os seres humanos do modo como o fez, ao produzir uma miséria crescente e forçar os humanos a viverem nas cidades que cobrem o planeta, ao substituir a diversidade por uma homogeneidade genética insana – ao fazer tudo isso e muito mais, o capitalismo colocou toda a humanidade em uma situação histórica absurda. Temos o conhecimento e a riqueza para vivermos todos muito bem, mantendo o planeta em condições habitáveis aos humanos e, contudo, fazemos exatamente o inverso: promovemos a miséria e uma meio ambiente crescentemente hostil aos humanos.

É bem possível que estejamos vivendo o ocaso da humanidade capitalista. Um processo que pode ser mais longo ou mais breve, impossível se predizer. Contudo, a cada dia fica mais claro que a humanidade tem que optar entre sua sobrevivência e o capital.

Lembram quando, em 1844, um sujeito disse que ao destruir a natureza, os seres humanos destruíam a si mesmos, porque, afinal de contas, também somos parte da natureza? Pois bem, ele estava certo. Seu nome? Karl Marx.

 

Referências externas

[1] https://www.statista.com/statistics/263964/number-of-pigs-in-selected-countries/

[2] https://www.worldatlas.com/articles/how-many-chickens-are-there-in-the-world.html

[3] https://data.worldbank.org/indicator/SP.URB.TOTL.IN.ZS. https://inequality.org/facts/global-inequality/#global-wealth-inequality

[4] https://netnature.wordpress.com/2020/05/01/o-coronavirus-e-a-maior-falha-de-politica-cientifica-global-em-uma-geracao/

 

 

 

 

01/07/2020 - FHC, Lula, Dilma... Bolsonaro

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FHC, Lula, Dilma... Bolsonaro


 

Como se tornou possível um fenômeno como Bolsonaro? Não falo da onda conservadora, que é um fenômeno muito mais complexo do que Bolsonaro. Certamente, sem o conservadorismo em ascensão, dificilmente ele sequer seria imaginável. Contudo, sem eliminar essa relação, há uma autonomia entre estes dois fenômenos. A expressão do conservadorismo no Brasil não precisaria ter necessariamente a coloração bolsonarista, pois há conservadores mais capazes e competentes para dirigir o país em nome do capital.

Por que, então, Bolsonaro? Curso e grosso: por que os democratas o protegeram!


 

O início de tudo


 

O fim da Ditadura Militar assistiu ao surgimento de uma nova geração de militantes de esquerda, separada da antiga esquerda pela repressão política dos anos de 1968-76.

Com uma origem tão descentralizada quanto os movimentos populares e com um desenvolvimento tão local as lutas por escolas, creches, asfalto, saúde etc., talvez a sua marca ideológica mais significativa tenha sido um arraigado ecletismo e uma ignorância profunda. Foi uma geração para a qual a literatura revolucionária clássica permaneceu em larguíssima medida desconhecida, o conhecimento da história não ia além do mais básico, quando muito, e para a qual o conhecimento da filosofia se limitava a manuais como Os princípios fundamentais da filosofia, de G. Politzer.

Tal confusa e eclética concepção de mundo serviu de base a uma estratégia política que se queria revolucionária, mas era de fato conservadora. Ignorantes e ecléticos, o que poderiam os revolucionários sonhar em converter o capitalismo em socialismo pela mediação do Estado? Dois foram os autores decisivos, ainda nos anos de 1970: Regis Debray e Mao-Tse-Tung. O primeiro postulou que as classes dominantes latino-americanas tinham que implantar ditaduras porque não suportavam a democracia. Portanto, como a democracia seria incompatível com o poder das classes dominantes latino-americanas, conquistar a democracia seria, dialeticamente, a conquista do socialismo. Mao-Tse-Tung contribui com o texto “A nova democracia”. Seu argumento: a democracia em países coloniais era a antessala do socialismo, pois a miséria provocada pelo capitalismo era tão grande que as massas, ao entrarem na política pela democracia, expulsariam do poder os capitalistas e instalariam o socialismo. Debray somado a Mao dava a direção estratégia da nova geração de militantes: a conquista da democracia seria, de fato, a conquista do socialismo. Pela democratização do Estado chegaríamos ao socialismo!


 

Gramsci, Lefort e Boaventura de Souza Santos


 

Vieram os anos de 1978-1979. No primeiro semestre de 1978, o Movimento do Custo de Vida promoveu uma manifestação contra a carestia com mais de 5 mil pessoas na Praça da Sé, em São Paulo. 1975 já havia assistido à Missa Ecumênica pelo assassinato de Vladimir Herzog e, em 1976, o assassinado do operário Manoel Fiel Filho provocara outra significativa manifestação contra a Ditadura. O movimento estudantil se rearticulava. Mas foram as greves de 1978 e 1979, seguidas pela organização do PT e dos novos sindicatos que se reuniram na CUT, que alteraram a correlação de forças e colocaram os militares na defensiva. A transição para a democracia se tornou o problema central: a esquerda deveria ou não apoiar a Assembleia Nacional Constituinte, a qual se tornava a cada dia mais inevitável?

Foi neste processo que, da Universidade, veio a contribuição teórica que faltava para elevar a um padrão acadêmico o ecletismo e a ignorância da concepção de mundo que já vigorava na nova geração de militantes. Sinteticamente: Claude Lefort (com a contribuição da Marilena Chauí), em A invenção democrática (1983), contribuiu com a fantasia de que democracia seria conquista dos trabalhadores e que se caracterizaria por ser um regime em constante aperfeiçoamento, uma obra inacabada, enquanto o totalitarismo seria a paralisia histórica. Gramsci, trazido ao Brasil pela sua leitura reformista principalmente por Carlos Nelson Coutinho, conferiu um ar de esquerda às teses de que se deveria conquistar os altos postos de comando do Estado para se transitar ao socialismo. Apenas por uma “reforma revolucionária” das instituições, reforma que tivesse a “democracia como valor universal” (Carlos Nelson Coutinho, 1979), poder-se-ia transitar ao socialismo. Boaventura de Souza Santos colocou a cereja nesta torta ideológica: a via civilizatória só poderia ser um constante “democratizar da democracia” (2002).

“Iluminada” pelas luzes acadêmicas, a ampla maioria da esquerda terminou por confluir com a oposição burguesa e mesmo conservadora, oposição esta que já estava em amplas negociações com os ditadores. O acordo seria selado com a Constituição de 1988: o país passaria a ter uma democracia com a condição de que os grandes interesses econômicos e o aparato político-repressivo não fossem atingidos. Assim foi feito: transitamos para a democracia sob os auspícios dos ditadores.


 

5 mandatos presidenciais... e nada!


 

Passamos por Collor-Itamar, dois mandatos de Fernando Henrique, dois mandatos de Lula, um mandato de Dilma: 5 mandatos, deixando Collor-Itamar de fora! Em todos eles se manteve o acordo para se preservar o aparelho repressivo, os assassinos e torturadores e os arquivos secretos! Nada foi tocado! Todos os 5 presidentes foram perseguidos políticos. Dilma foi barbaramente torturada por Ustra. Não se tocou no aparelho repressivo, os criminosos contra a humanidade não foram sequer levados a julgamento!

Contudo, seria profunda injustiça afirmar que esses 5 presidentes nada fizeram. FHC criou uma indenização de 100 mil reais para os perseguidos, presos e torturados. Ao se aceitar a indenização monetária, renuncia-se ao direito de processar o Estado ou os membros dos órgãos de repressão. Lula ampliou a concessão do benefício, Dilma o generalizou ainda mais. Em poucas palavras, comprou-se, àqueles dispostos a vender, a renúncia ao direito de processar o Estado e seus torturadores e assassinos. A preservação do aparelho repressivo foi ativamente perseguida pelos governos democráticos. Com o apoio das forças mais significativas da “esquerda”, convém que seja lembrado, do PT ao PC do B, do PCB ao PSOL. Para não deixar dúvidas: a legislação repressiva mais dura depois da Ditadura foi obra... do governo Dilma, depois aprimorada por Temer!

“Democratizar a democracia” e reformar revolucionariamente o país pela conquista de elevados postos de comando do Estado não em deu em outra coisa: Bolsonaro no Planalto. Não desmontar o aparelho repressivo, não levar os torturadores à justiça, não processar os criminosos contra a humanidade apenas preservou figuras como o General Heleno (assessor do General Silvio Frota), o General Mourão e Bolsonaro para ocuparem o Planalto. “Democratizar a democracia” serviu, realmente e de fato, para manter no Estado os partidários da Ditadura.

Agora eles estão no Planalto.


 

As lições da história

A estratégia democrático-popular (que concebe o socialismo como resultado de uma transição por meio do Estado, pela democratização constante da sociedade) apenas resulta na vitória da reação. Em todos os lugares do mundo. Nos países imperialistas, a estratégia democrática que predominou sob o Estado de Bem-estar deu lugar ao neoliberalismo de Reagan, Thatcher e Trump. No Chile de Allende, deu em Pinochet. No Brasil, resultou em Bolsonaro. A lista poderia prosseguir. Desnecessário. Basta assinalar que nunca resultou nem em uma democracia mais profunda, nem sequer em uma distribuição de renda – para não falar na superação do capital.

Agora, essas mesmas forças que ativamente preservaram o aparelho repressivo do Estado querem que nos juntemos a elas para, numa nova frente democrática, nos opormos a Bolsonaro. Mas a qual preço? A primeira e maior finalidade desta frente é desmontar o aparelho repressivo do Estado, agora acrescido das milícias? Ou visa apenas colocar no Planalto um outro político para novamente negociar a sobrevivência do núcleo repressivo do Estado?

Bolsonaro só se tornou a expressão do conservadorismo porque os democratas o protegeram da justiça e o mantiveram como força política viva no interior do Estado. Tenhamos esta lição na mente, no confronto com o governo Bolsonaro. Temos que saber quem são nossos aliados e quais as forças que são aliadas dos nossos inimigos!

Uma questão fundamental, como dizemos, ficou sem ser tocada: quais as causas dessa onda conservadora na qual surfa Bolsonaro? Isso é uma questão para uma Newsletter futura.

 

 

 

 

20/06/2020 - O golpe de Estado de Bolsonaro

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O golpe de Estado de Bolsonaro


 

Restam poucas dúvidas, se alguma, de que no Planalto se prepara um golpe de Estado. Não bastassem a infiltração bolsonarista nas PMs estaduais e na Polícia Federal, nesta última inclusive com a colocação de pessoas de confiança do governo em centenas de postos de comando, tivemos também a publicação do manifesto do golpe, pela pena do General Mourão, no Estado de São Paulo do dia 15 de maio passado. É também indicativo desta possibilidade a mudança de tom dos comentaristas e noticiários da mídia burguesa, em que há cada vez mais frequentes alertas sobre o perigo do golpe, sobre a “ameaça que paira sobre a democracia” e sobre o perigo de manifestações violentas darem aos golpistas o pretexto que necessitam para uma “ruptura institucional”.

O núcleo militar do Planalto, que nos primeiros meses do governo parecia cumprir o papel de moderador dos arroubos de Bolsonaro e seus filhos, está hoje unificado ao redor do Presidente. Mudança de posição que não é difícil de se compreender se levarmos em consideração que entre Maia, que representa também a corrupção estatal institucionalizada, e as loucuras de Bolsonaro, o menos pior aos olhos de Mourão, de Heleno e outros pareça ser a trincheira do bolsonarismo. “Bolsonaro tem exacerbado a divisão interna do Exército, cuja disciplina e hierarquia vêm se desgastando. Muitos oficiais de escalão inferior apoiam Bolsonaro nas redes sociais. Quatro generais com cargos no governo, dois no serviço ativo, têm mais poder do que o comandante das forças armadas, seu superior.... Bolsonaro não parece forte o bastante para desencadear um golpe... mas [os democratas] estão certos em ficar alarmados.” (The Economist, no Estadão de 13 de junho)

Some-se a isto a situação imediata em que nos encontramos sob a pandemia. A falta de coordenação nacional torna a estratégia do afastamento social (a única que pode mitigar os efeitos do coronavírus) pouco eficiente, o que fornece ainda mais argumentos para o pequeno e médio empresariado (cuja sobrevivência depende da abertura da economia) contra os governos estaduais e municipais que perseguem a estratégia do isolamento. Esta circunstância colabora para que uma porção minoritária, porém não desprezível, da pequena burguesia se alie (ou ao menos tenha simpatias) pela abertura imediata da economia proposta por Bolsonaro. Ainda, um enorme contingente de trabalhadores, que depende da renda diária para sobreviver, não apenas não pode seguir o isolamento, como ainda depende cada vez mais da ajuda do governo federal para as despesas mais básicas. As esmolas federais, nesse momento, aumentam o apoio destes setores a Bolsonaro, um efeito similar ao que Lula conseguiu com o Bolsa Família.

Internacionalmente, ainda que o New York Times (o que significa em alguma medida o governo Trump) e o Financial Times tenham recentemente lamentado o perigo que corre a democracia no Brasil, o The Economist se coloca a favor de uma estratégia de enfrentamento da pandemia que preserve as economias imperialistas mesmo que ao custo de centenas de milhares de mortes nos países periféricos. Para financiar a crise das economias centrais é imprescindível a produção de mais-valia em países como o Brasil. Para nosso país, dessa perspectiva, o recomendável seria ativar a economia e manter o isolamento para os setores das classes dominantes. Que morram quantos trabalhadores for necessário para manter o sistema mundial do capital. Como diz o The Economist de 4 de abril, na pg.7, é preciso colocar um valor em dólar na vida humana! Na mesma direção apontam os artigos de Roberto Macedo, no Estadão, dos dias 7 e 21 de maio.

As debilidades da oposição são também um fator favorável ao golpe.


 

A oposição


 

Além das posições do Financial Times e do New York Times, acima mencionadas, nas últimas semanas uma aparentemente poderosa oposição se levantou contra o golpe, mais especificamente em defesa da democracia. Há de tudo. Desde o manifesto dos juristas que tem como epígrafe palavras de ninguém menos do que Karl Popper, até o manifesto dos 70% que propõe que todas as diferenças sejam colocadas em segundo plano pela unidade na luta contra o golpe de Bolsonaro. Ciro Gomes, Marina e Fernando Henrique Cardoso se manifestaram no mesmo sentido. Todos os grandes órgãos de imprensa, desde o Estadão até a Rede Globo, formam uma frente unida contra o golpe. Significativo, pois entre outras coisas tem um impacto sobre o preço que Bolsonaro deverá pagar aos deputados e senadores para conter o impeachment, a popularidade de Bolsonaro não para de cair, ainda que mantenha um núcleo de 25 a 30% da opinião pública a seu favor. Mas os outros 70%, cada vez mais nitidamente, viram suas costas ao governo. Ainda, nesta semana tivemos o início de uma coluna de Luis Trabuco, do Bradesco, no Estadão. Fosse ele favorável ao golpe, não assinaria uma coluna no Estadão. Talvez isto sinalize uma oposição ao golpe de setores decisivos do grande capital.

Esta situação parece indicar que, se o golpe vier e tomar o poder, no dia seguinte contará com uma vasta oposição, capaz de fazer estragos em um governo ditatorial, como o final da Ditadura Militar a partir de 1978-9 demonstrou. Contudo, tal oposição não é forte o suficiente para evitar o golpe. Por duas razões fundamentais. A primeira é que uma oposição apenas e tão somente aos aspectos político-culturais (o autoritarismo, o abandono das bandeiras ecológicas, a perseguição aos “minoritários” e, no caso de um golpe, some-se a isso a censura à imprensa, a perseguição política, as prisões etc.). E ela não pode ir além disso. Se a plataforma desta oposição se estender para incluir o que interessa de fato aos trabalhadores e operários (uma efetiva distribuição de renda, com uma também efetiva melhoria das condições de vida e de trabalho da maioria da população brasileira e assim por diante), corre-se o risco de todo o capital junto com seus órgãos de imprensa descobrirem “virtudes até então desconhecidas” de Bolsonaro e se aliarem aos golpistas. Uma plataforma democrática muito modesta que, digamos, proponha, a expropriação de 80% da riqueza dos 0,01% dos brasileiros mais ricos para financiar as típicas política públicas democráticas e burguesas, romperia a frente democrática. Por uma razão muito simples: coloca em questão a concentração de renda no país... e não é necessário que se diga mais nada!

Novamente a história recente pode nos dar uma lição: quando a oposição à Ditadura Militar deixou de ser administrável pelos generais? Quando as máquinas pararam e os operários entraram em cena, com as greves de 1978-9. Sem a participação dos operários, a frente contra Bolsonaro é frágil. Basta iniciarem as melhorias na economia para a grande burguesia e a pequena burguesia migrarem para o lado da ditadura, bem como parcela importante dos trabalhadores que passa a contar com mais empregos etc. De novo, o passado pode ser de alguma serventia: não foi durante a repressão mais forte e o conservadorismo mais arraigado que a Ditadura Militar teve sua maior popularidade?

Em segundo lugar, porque essa oposição carece de qualquer dispositivo militar que possa se contrapor ao golpe. Como é muito pouco provável que, uma vez dissolvidos o Congresso e o Supremo, a porção legalista das Forças Armadas venha a pegar em armas contra seus “irmãos” bolsonaristas, basta de fato um jipe com três soldados e um cabo para fechar o Supremo e um pouco mais para fechar o Congresso. Lembremos que há pouco, no dia 11 de maio, Maia explicitou sua posição: não é a democracia que está ameaçada, mas apenas a “democracia representativa”. O quer isso dizer senão que Bolsonaro é um democrata, apenas não um democrata “representativo”. A ditadura também não se afirmava como democrática?

Há, ainda, um terceiro fator a ser considerado.

Desde que tomou posse, jamais o governo Bolsonaro contou com a unidade interna que hoje possui. Dos militares da reserva e da ativa, até os ministros civis (a exceção parece ser a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina) finalmente a unidade de comando foi alcançada por Bolsonaro, ainda que a um preço elevado (Bebianno, Gen. Santos Cruz, Moro, Mandetta... até Regina Duarte). Sua aproximação ao que de mais pobre e corrupto possui o Centrão neutralizou no Congresso as iniciativas por seu impeachment e parece dotar o governo, pela primeira vez, de uma base parlamentar. E é a ala militar do governo que conduz esse “toma-lá-dá-cá”, Ao mesmo tempo, o aprofundamento das consequências da pandemia e da crise econômica tendem a diminuir a popularidade do governo. Terá também algum efeito sobre a população a revelação das investigações em andamento, o envolvimento de Bolsonaro desde com a produção das Fake News até com as milícias. Esta situação parece indicar que o tempo corre contra os golpistas, já que a popularidade do governo mostra uma tendência declinante. Por isso, se o golpe for vier, não deve tardar muito.


 

Se o golpe vier, como será?


 

Muito difícil se saber. Nem sequer os golpistas, que em alguma medida controlam o início do golpe, conseguem saber as suas consequências. Os golpes de Estado possuem sempre um elemento de aventureirismo e de imprevisibilidade. Ressalva feita, alguns indícios talvez possam ser apontados.

Quando um golpe de Estado rompe a hierarquia do poder institucionalizado, há um momento de caos. Mesmo entre os golpistas e de seus apoiadores organizados, muitas vezes não se sabe a qual autoridade obedecer. A falta de uma coordenação claramente estabelecida e a adrenalina que corre solta resultam, não raramente, em que as organizações locais ajam com grande liberdade e iniciativa. Os agrupamentos bolsonaristas, a maior parte deles armados e com munição de sobra (graças ao aumento dos limites de munição que podem comprar legalmente) provavelmente tomarão a inciativa local e a perseguição aos “comunistas” terá início. Em diversos locais, deve se esperar o envolvimento de milícias nesta perseguição. Não seria nenhuma surpresa se as listas dos “comunistas” elaboradas antecipadamente pelos agrupamentos locais sirvam para a perseguição, prisão e, no limite, mesmo execução de democratas, de feministas, de líderes dos ditos movimentos minoritários, de professores, jornalistas, militantes de todas as ordens etc. Como o bolsonarismo considera comunista os ministros do Supremo Tribunal Federal, os Mesquitas (do Estado de São Paulo), as principais lideranças católicas e judaicas, os petistas e psolistas e até mesmo os Marinhos da Rede Globo, não é difícil de imaginar a amplitude do arco político dos perseguidos.

Portanto, o que pode ser antevisto é uma pequena porção das Forças Armadas dissolvendo o Congresso e fechando o STF, bandos de bolsonaristas percorrendo as ruas em perseguição aos “comunistas” e unidades de censores ocupando as redações dos principais meios de comunicação. A seguir, a paralisia do restante das Forças Armadas que, se não concordam com o golpe, também não irão pegar em armas contra seus “irmãos” golpistas em defesa desta democracia —de fato e realmente -- podre de corrupta.

Algumas semanas após, o golpe entrará em uma nova fase. Frente à gigantesca oposição, alguns preferirão uma estratégia mais moderada, de modo a atrair os setores oposicionistas “menos radicais”. Outros defenderão uma repressão até às últimas consequências. As forças golpistas se dividirão e sua parte preponderante tenderá a sufocar a outra. Isto, em alguma medida importante, determinará a estratégia da ditadura nos seus primeiros meses de vida.

O que virá a seguir, depende de tantos fatores que é impossível qualquer previsão que não seja o mais puro exercício de adivinhação. Como sempre, o momento predominante desta evolução deverá ser o desenrolar da crise econômica. Junte-se a ela a pandemia, a crise ambiental, o aprofundamento da crise estrutural mundial do capital etc. e todos os eventos imprevisíveis que trarão...


 

Os revolucionários


 

Contudo, apesar destas incertezas, a experiência da luta revolucionária tem algo a dizer no enfrentamento de situações deste tipo.

A esquerda em geral está profundamente exposta e será muito rapidamente desbaratada,

Seu descompromisso para com as questões de segurança a conduziu a uma situação de extrema fragilidade. Forjou uma geração de militantes de comportamento liberal e que tratam a internet como se fosse um espaço seguro para troca de informações. Até as fotografias das reuniões são divulgadas e o Facebook se encarrega de rastrear as relações sociais para a repressão. As regras mínimas de segurança são desconhecidas da ampla maioria dos militantes. O livro do Cid Benjamin, lançado no ano passado, O Estado policial e como sobreviver a ele é, neste contexto, da maior importância, bem como os relatos da repressão como A casa da vovó, de Marcelo Godoy (tem no site da Library Genesis) e a biografia do torturador Sergio Paranhos Fleury, por Percival de Sousa (Autópsia do Medo). Conhecer a história dos golpes também ajuda (por exemplo, os primeiros dois volumes de As ilusões armadas (também na Library Genesis), por Elio Gaspari, ou a Pequena História da Ditadura Militar, de José Paulo Netto).

Três passos básicos são a cada dia mais urgentes:

  1. Ter a certeza de que as organizações estão infiltradas e que os endereços de e-mails estão todos comprometidos. Adotar um esquema de compartimentação das informações e montar um esquema de comunicação seguro, a partir do emprego de VPN, com o navegador Tor e com e-mails critptografados (Tutanota, Protonmail etc.) é o primeiro passo. Os celulares são a todo momento rastreados, não pelo chip mas pelo número do imei. Deve se ter isto em vista quando se articula uma rede segura de comunicação.

  2. O militante que se encontrar exposto precisa construir sua ponte de retirada. Deve ter um lugar para se abrigar, ao menos por alguns dias, e ter algum dinheiro consigo. Cartão de crédito e caixa automáticas serão impossíveis de serem empregados. Cada caso é um caso, claro. Difícil uma regra geral. Mas o bom senso é sempre importante.

  3. Facebook, Instagram, Whatsapp, Gmail, Hotmail, Yahoomail etc. são fontes de informação preciosas para a repressão. Sempre que conduzam à identificação de militantes, as contas devem ser o quanto antes apagadas, os e-mails cancelados, os perfis no Facebook, Instagran devem ser deletados etc. Tendo em vista que, mesmo depois de deletados, os dados permanecessem por meses nos servidores, esta medida deveria ser tomada o mais rapidamente possível.

  4. Por fim, tal como “salada e canja de galinha não fazem mal a ninguém”, quando se trata de segurança política, o exagero é prudência... Não há exagero quando se trata de segurança!

Lembremos o início deste artigo: o mais provável é que os golpistas não tenham força para tomar o poder. O mais provável, ainda, é que não tenhamos um golpe de Estado que seja capaz de sobreviver por muito tempo. Mas o perigo nunca foi maior e se proteger é algo sensato. Como diz o The Economist, os democratas “estão certos em ficar alarmados” e os revolucionários precisam se preservar.

 

 

 

 

03/06/2020 - Bolsonaro: a racionalidade da insanidade

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Bolsonaro: a racionalidade da insanidade


 

Estamos assistindo a mudanças significativas no Brasil. A qualidade destas mudanças não é ainda inteiramente clara, mas há vários indícios de que, se o processo de impeachment de Bolsonaro está ao menos momentaneamente paralisado, a organização de um “auto-golpe” está em pleno andamento. Hoje, suas possibilidades de sucesso são pequenas, contudo são bem maiores que há uma ou duas semanas atrás.

São conhecidas as manifestações de Bolsonaro, da “família imperial” e dos bolsonaristas a favor de uma ditadura. Não há necessidade em repassá-las aqui. Quatro fatos, contudo, merecem ser salientados.

O primeiro é a afirmação de Dias Toffoli, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, de que não é a democracia que está em questão, mas a “democracia representativa” (o que seria uma democracia não representativa? Não era assim que alguns partidários da Ditadura Militar definiam o regime?). O segundo fato é a subida de tom de Bolsonaro. Na reunião ministerial do dia 22 de abril, véspera da queda de Moro, Bolsonaro postulou que “o barco está afundando”, que não vai permitir que as investigações que comprometem a ele e seus filhos prossigam. Na mesma reunião são acolhidas as teses de que a pandemia é uma estratégia chinesa para dominar o mundo, de que a cloroquina é “o” remédio e de que o Supremo não passa de um bando de salafrários. Cai Ministro, cai ministro, cai ministro... cai Regina Duarte!!... Bolsonaro ataca os governadores e conclama os empresários a atacarem Dória (seu mais sério adversário em 2024).

O terceiro fato é Fernando Henrique Cardoso anunciando o perigo de os militares no governo gostarem do poder e, dias depois, o General Mourão em longo artigo no Estadão apoia Bolsonaro – que já havia declarado “o Exército está conosco”. As razões da crise, segundo Mourão, estariam no desrespeito à autoridade (pelo Supremo, pelo Congresso, pela imprensa, pelas “personalidades”) ao Presidente eleito. A insanidade de Bolsonaro não é problema... e, de fato, talvez não seja mesmo, como argumentaremos.

O quarto fato é o clamoroso silêncio do grande capital: a Folha e o Estadão, dia sim dia não, solicitam que o “PIB nacional” entre na luta contra Bolsonaro. A resposta veio em um longo artigo de Roberto Macedo (A pandemia e a saúde da economia) no Estadão de 21 de maio defendendo uma posição muito próxima a Bolsonaro, qual seja, a abertura da economia apesar do coronavírus. A estratégia proposta parece ser a de preservar os melhores leitos nos melhores hospitais para as classes dominantes, para as quais vale também a política de isolamento. Para os trabalhadores (Bolsonaro: “lamentamos”), abertura da economia e que morram quantos tiverem que morrer.

Enquanto houver democracia representativa, nem a “mão de Deus” será capaz de ajeitar o país, parece ser uma boa súmula do que estamos assistindo. Nossos ditadores – e também Pinochet! – não se diziam democratas? É “guerra”, Bolsonaro avisa. Os militares no governo se alinham a ele. O grande capital se cala. Os trabalhadores não se mexem. O “autogolpe” de Mourão está no ar...


 

Nero e Bolsonaro


 

Por vezes personalidades fronteiriças com a loucura se mostraram as mais adequadas. Nero, na antiga Roma, é o caso mais conhecido. Bolsonaro pode vir a se tornar mais um exemplo clássico.

O Presidente está convencido de que, pelas mãos de Deus, colocará o país “nos trilhos”. Ainda pelas mãos de Deus, serão esquecidos tanto suas ligações com as milícias, os investimentos de seus filhos em prédios clandestinos construídos em áreas controladas pelas milícias, a evolução do seu patrimônio pessoal, sua proximidade de vizinho com Ricardo Lessa que tinha mais de uma centena de fuzis na residência e está envolvido no assassinado da Marielle. Também espera que será esquecido do “toma-lá-dá-cá” com o que há de mais corrupto no Centrão.

A insanidade de Bolsonaro está custando e irá custar milhares de vidas. Economicamente, para não falar da saúde pública, teremos um desastre. Tomemos como exemplos Toledo, no Paraná (frigoríficos), a Baixada Santista (polo petroquímico), Toritama, em Pernambuco (confecções). Basta o vírus chegar para paralisar estes centros produtivos. Quando as mortes começarem a se acumular, quantas famílias buscarão refúgio em lugares menos infectados, levando para lá o vírus? Quem será louco de ir trabalhar quando os colegas caírem doentes e morrerem sem assistência médica? Quantos terão que ser substituídos por trabalhadores que ainda precisarão serem treinados? Quantas linhas de produção ficarão sem seus insumos básicos? O estrago nas plataformas da Petrobrás é bom indicativo. Quantas delas já estão paralisadas? Se não fosse a queda da demanda, o impacto econômico seria ainda mais grave.

Ao invés de centros de apoio, da assistência financeira direta e imediata, cestas de alimentação distribuídas gratuitamente de porta em porta para ajudar as famílias a permanecerem em casas nos bairros mais pobres, mobilização das Forças Armadas e dos meios de comunicação para uma ampla campanha pelo isolamento, -- ao invés destas medidas que poderiam salvar vidas, o que Bolsonaro organiza são manifestações semanais pelo fechamento do Congresso e do Supremo e incita ao desrespeito ao isolamento social e ao emprego da cloroquina. Num cálculo por baixo, vingando a estratégia de Bolsonaro, teremos cerca de 5 milhões de pessoas solicitando assistência médica, os mortos serão entre 120 e 250 mil.

Bolsonaro não tem apenas uma Roma, tem um país inteiro, para destruir.


 

Viva o mito!


 

Países como o Brasil são fundamentais na estrutura do capital mundial. Primeiro, pela natureza ainda virgem que pode ser transformada imediatamente em mais-valia. Segundo, pela força de trabalho barata, domesticada e dócil ao capital. Terceiro, por contar com uma classe dominante inteiramente integrada e subordinada ao sistema do capital mundial e, ainda, por termos um Estado (que, hoje, inclui também os sindicatos) que mantém sob rígido controle os trabalhadores e operários. Para que a Europa, os EUA, a China etc. possam minorar a crise econômica e os seus mortos, é imprescindível que se mantenha a produção em países como o Brasil.

Um país como a Alemanha adota este critério: quantos precisamos salvar da morte para que a economia se rearticule o mais rapidamente possível? Este número é determinado em função da economia, não da saúde das pessoas, bem entendido. Ainda assim, é claro que quanto maior a mortandade, maior o tempo para a economia se recuperar.

Como nossas classes dominantes são essencialmente sócias minoritárias do capital internacional, suas sobrevivências dependem da eficiência com que servem os países capitalistas centrais. Com a indústria automobilística, por exemplo, produzindo 99% a menos durante o mês de março, a “utilidade” das nossas classes dominantes para com o imperialismo é duramente colocada em questão. Por isso o critério no Brasil precisa ser um tanto diferente do critério adotado, digamos, na Alemanha: quanto precisamos produzir para não perder nossa privilegiada (somos a décima economia mundial etc.) posição de subalternidade no sistema do capital? Em função disso (“lamentamos”, diz Bolsonaro), quantos precisarão morrer?

Esta lógica não é apenas a lógica do governo, é também a lógica do capital (e, portanto, é também a vontade dos grandes capitalistas) instalado no Brasil. Bolsonaro, portanto, tem razão! Neste andar da carruagem, é provável que os capitais abandonem o Brasil! O que ocorreu na Argentina nas últimas décadas do século passado é um fato aterrador! É preciso (“lamentamos!”) reativar a economia, custe o que custar. Para as classes dominante, a morte de centenas de milhares de trabalhadores é tão lamentável quando inevitável! Daí a força de Bolsonaro, daí o silêncio dos grandes empresários (do PIB nacional, dizia um articulista do Estadão) quando se trata do impeachment, daí a posição de Mourão pró Bolsonaro, daí o artigo do Roberto Macedo no Estadão de 21 de maio, daí o predomínio da insanidade de Brasília sobre o país.

Contudo, nunca antes a reprodução do capital requereu o sacrifício de tantas vidas. Por que isso e por que agora?


 

O insano se torna racional


 

No século passado, assistimos à produção de uma enorme abundância gerada pela não menor expansão do capital (tanto sob sua forma clássica, quanto sob sua forma “soviética”, “pós-revolucionária” - Mészáros) a todos os cantos do planeta. Como resultado, ainda hoje a capacidade produtiva aumenta mais do que o consumo. Isto inviabiliza o mercado. A oferta estruturalmente maior do que a procura derruba os preços, a produção se inviabiliza e a crise se instala. Chegamos ao “absurdo” de bancos pagarem para quem deles empresta, as petroleiras pagarem para quem comprar delas petróleo...

Para “deslocar” essa contradição, impõem-se o imperativo: ampliar o consumo a qualquer custo. O que implica inescapavelmente em:

1) rebaixar o valor da força de trabalho, principalmente com tecnologias que aumentam a sua produtividade. Com isso cresce o desemprego, compromete-se a capacidade de consumo e a contradição se aprofunda;

2) ampliar o consumo destrutivo, quer pelo aperfeiçoamento da obsolescência planejada, quer pelo desenvolvimento do complexo industrial-militar (e das guerras) e do complexo médico-hospitalar (não apenas laboratórios, planos de saúde etc., como também pela criação de doenças com suas terapias). Temos assim o aumento dos gastos militares dos gastos com saúde, gerando enormes lucros, mas também, multiplicando as dívidas públicas. Aqui também a contradição se aprofunda com o tempo;

3) “eficientemente” transformar a natureza (a “mãe de toda riqueza”, Marx) em mais-valia. A destruição do planeta é em um impulso crescente e incontrolável. Resultado: várias epidemias e crises ecológicas. Além do Coronavírus, Ebola, H1N1, HIV etc.; a epidemia que está matando como nunca cavalos na Ásia, uma praga de gafanhotos no Kenya, uma mortandade nunca vista de abelhas na Europa e nos EUA, um desmatamento que se acelera na Amazônia, o mês de março mais quente da história, o degelo recorde nos dois polos, um aumento da fome que deve matar 265 milhões de pessoas até o final de 2020, incêndios gigantescos na Austrália, na Califórnia e em Portugal que devem se repetir neste ano impulsionados pelo aquecimento global... A lista poderia prosseguir! O planeta está no limite de se tornar inabitável por humanos.

O problema da atual pandemia não está em que as pessoas consomem animais silvestres. Se matarmos todos os animais silvestres, as pandemias se tornarão ainda mais frequentes e intensas. A forma como o capital se apropria da natureza, gera, por exemplo, uma concentração de animais e plantas geneticamente idênticos. Tal concentração é tudo o que uma mutação biológica necessita para gerar novos vírus que terminarão contaminando os humanos. O modo de produção capitalista se tornou essencialmente (ou seja, não pode ser outra coisa) um criadouro de vírus e de epidemias. Para não falar de câncer, doença de Alzheimer, demência, obesidade e diabetes, depressões, doenças profissionais de todos os tipos e assim por diante.

O que é necessário para manter o capital se reproduzindo? Atacar todos os sintomas e deixar a causa intocada. Não é isso o que a melhor ciência faz, hoje? Estudam a pandemia para controlá-la. Raramente, se alguma vez, os cientistas se perguntam pela causa da pandemia. Se os chineses deixarem de comer os animais silvestres, as pandemias terminariam? Evidentemente, não: a causa é a produção destrutiva de humanos e da natureza (ou, o que é o mesmo, da natureza e dos humanos), a causa é o capital. Todas as soluções propostas pelos governos significam que a causa da pandemia permanecerá intocada. Para os capitalistas, decidido está nosso futuro: mais do mesmo! Morram quantos forem preciso!


 

Bolsonaro: a alternativa!


 

Para permanecer tudo no mesmo, um país subordinado como o nosso deve produzir a todo custo. É assim que a insanidade de Bolsonaro expressa a necessidade essencial do capital na particularidade do Brasil. Poderia se ter no governo uma pessoa menos insana? Provável que sim. Contudo, Maia (ou Mourão), Lula ou Ciro Gomes, com uma menor insanidade aparente, fariam essencialmente o mesmo cálculo: quantos precisamos matar para que nossas classes dirigentes mantenham seu lugar de subordinação na ordem mundial? Ou, como dizem, “o capital internacional não abandonar o país”?

É isto que explica porque Mourão apoia Bolsonaro, porque a guarda pretoriana cerrou fileiras com a “família imperial”. É isto que explica o silêncio do grande capital e o sustentável apoio de 30% da população a um governante claramente maluco. “É uma guerra!”, anunciou o Nero em Brasília. Tem ele razão. Tem também razão em avaliar que o “barco está afundando”! Não é hora de vacilar! Cresceu a possibilidade de uma “ruptura institucional”. Que morram quantos devam morrer pela Pátria!

A Pátria não somos nós (nunca fomos). A Pátria é o Deus capital.

A insanidade de Bolsonaro, hoje, não é só problema, é também uma possível solução. Um golpe de Estado não está fora do horizonte, desde que seja a melhor solução para a equação: quantos mataremos para manter o sistema girando? Daí a resiliência de Bolsonaro, daí o apoio que recebe dos militares, daí o silêncio dos empresários, dos sindicatos, do PT e o acovardamento dos nossos intelectuais acadêmicos.

Algumas pessoas têm me procurado para esclarecer o que seria a crise estrutural, segundo Mészáros. Um ótimo exemplo são esses dias de abril-maio no Brasil. A insanidade de Bolsonaro tem razão de ser e é ela, justamente ela, o fundamento da sua permanência em Brasília. Bolsonaro fica no poder porque é insano, não o contrário! Crise estrutural? Esta é uma de suas manifestações: o racional é a irracionalidade absoluta! Na produção e no mundo das ideias.

Saída? Só há uma, superar o capital.

Mészáros estava coberto de razão, já em 1983!

 

 

 

 

16/05/2020 - Que futuro estão nos preparando?

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Que futuro estão nos prepara?

 
Alguns aspectos da crise estão se tornando mais evidentes com o passar das primeiras semanas. O primeiro deles é que está se revelando completamente falha a expectativa de que ela seria uma crise de alguns meses e que logo voltaríamos ao que o mundo era em dezembro do ano passado. Mesmo que tenhamos, em uma hipótese otimista, uma vacina ou remédio que funcionem, ainda assim a desigualdade de riqueza e desenvolvimento no planeta tornará impossível a eliminação do vírus em alguns anos. Teremos, por isso, seguidas ondas, com clusters que explodirão mesmo nos países mais desenvolvidos. O futuro da pandemia parece ser uma sucessão de ondas, estamos vivendo apenas a primeira.

O segundo aspecto é que a doença é mais grave do que se calculava. Indícios se acumulam de que ataca o fígado, os rins, o sistema circulatório de crianças, resulta em AVCs nos mais jovens. E nada indica que a imunização seja completa ou prolongada após a infecção. Pode ser como a gripe, ou a dengue, que se pode pegar seguidas vezes. Se isto se confirmar, a amplitude das ondas será ainda maior.

O terceiro aspecto é que a crise do setor financeiro e produtivo será prolongada e profunda. Mesmo que (otimismo nas nuvens) as economias centrais, Europa, Estados Unidos, China e Japão, voltem a produzir em um ritmo razoável no segundo semestre, a paralisia da produção no restante do planeta impedirá uma recessão global. O que os governos estão fazendo, Brasil inclusive, é gastar o que não têm, gerando um crescimento assombroso das dívidas públicas. O futuro é um desequilíbrio fiscal que deverá ser coberto, a curto prazo, por emissão de moedas. A médio e longo prazos, não se tem ideia de como o sistema poderá se equilibrar sem uma catástrofe financeira que feche os bancos e as bolsas de valores mundo afora. A edição europeia do
The Economist de 9 de maio faz um alerta neste sentido.

O quarto aspecto é que as desigualdades tenderão a aumentar, em um mundo que já é o mais desigual de toda a história da humanidade. O complexo farmacêutico-hospitalar nada de braçadas na crise. Remédios cujas produções custam 5 dólares são vendidos a mais de 18 mil dólares, o preço dos equipamentos hospitalares aumenta toda semana, a busca de uma vacina, com pesquisas sempre financiadas pelo Estado ou por instituições públicas, já é uma concorrência entre diversos capitais e países e promete uma elevadíssima lucratividade. Com a crise de setores importantes da economia (petróleo, automóveis e autopeças, confecção, vidro, papel e celulose, serviços em geral etc.), há uma concentração de capital em outros setores. O crescimento da Amazon está fazendo história.

 
Para onde iremos?

Há já alguns anos, principalmente desde as denúncias de Julian Assange e Edward Snowden, não é mais segredo que os Estados estão desenvolvendo mecanismos de controle dos indivíduos através de sofisticados softwares e do desenvolvimento da informática e da internet. O Estado chinês, neste aspecto, está na dianteira. Seu sistema de controle das pessoas, dos hábitos, costumes e deslocamentos, tem se mostrado eficiente controle não politicamente, mas também no plano econômico.

A estabilidade do atual sistema econômico é, agora, inserida como parte da segurança nacional e, nesta medida, tanto os hábitos de consumo quanto as opiniões acerca do governo são, igualmente, questão de segurança nacional. Recentemente o site ExpressVPN noticiou que o governo chinês estava investigando pessoas que tinham o hábito de deixar a casa pela porta dos fundos, pois possui opiniões negativas do governo proporcionalmente uma parte maior destes indivíduos do que a população em geral. Essa vigilância é feita em todas as casas, em todos os quarteirões, por câmeras de segurança, drones e coisas do estilo. Muitas vezes, com a colaboração da população, que instala câmaras e redes de segurança conectadas à internet para segurança familiar ou da propriedade. Grande parte destas tecnologias são desenvolvidas a serviço do complexo industrial-militar, desde os programas de reconhecimento facial até os drones que fazem entrega pela Amazon e outras empresas etc.

Alguns destes mecanismos de controle já estão incorporados no nosso dia a dia no Brasil. Os apps de trânsito, que nos indicam a rota a seguir, servem também para distribuir os veículos pelas ruas e avenidas, diminuindo o trânsito e aumentando a eficiência do transporte em geral. Mas, também, fornecem informações de como usamos o carro, por onde passamos, com que frequência fazemos tal trajeto e assim por diante. Nossos cartões de crédito fornecem, ao Estado inclusive, todos nossos hábitos de consumo e, ainda, nossa localização. Por vezes, quando solicitados, em tempo real. Nossos dados médicos privados são compartilhados com as seguradoras de saúde... a lista é considerável. O Windows 10, que se generaliza entre os computadores, envia para a Microsoft tudo o que aparece na tela do computador (desde as senhas que são digitadas, até os sites que são visitados, desde os textos escritos até as mensagens e fotos trocadas, etc.). Os celulares podem ter suas câmeras e microfones acionados remotamente, mesmo estando desligados – e isso é feito regularmente pelos governos.

Com a pandemia, estas empresas e estas tecnologias estão se apresentando como “a” alternativa para se administrar um novo mundo com tamanha insegurança sanitária. O problema está na passagem de vírus dos animais silvestres para os seres humanos devido à insana destruição do planeta promovida pelo capital? Então adota-se um mecanismo de controle para localizar logo no início os novos vírus com programas que mostram o contato das pessoas, de tal modo que automaticamente teríamos o caminho do vírus e quem e quanto deveria ser isolado para que o vírus seja controlado. Não se altera em nada a destruição do planeta, pelo contrário, mantém-se o caráter destrutivo, alienado, da sociedade burguesa. Com as novas tecnologias e os novos controles, o capital mantém sua acumulação, as desigualdades sociais aumentam, as misérias se tornam cada vez maiores apesar da produção crescente e, caso tenhamos revoltas e revoluções, o controle sobre os indivíduos somado ao desenvolvimento do complexo industrial-militar é um bom mecanismo para enfrentar as ameaças à segurança nacional. Com o Home Office obtêm-se uma enorme vantagem. Enquanto o custo do ambiente de trabalho passa a ser o da casa do trabalhador, uma enorme economia para a empresa, ainda toda comunicação entre os trabalhadores passa pela internet e pode, assim, ser vigiado em tempo real. O isolamento deixa de ser apenas físico, passa a ser também o isolamento de ideias e opiniões: a censura levada ao extremo de controlar toda a comunicação entre os trabalhadores.

Naomi Klein, em um artigo republicado no dia 13 de maio último no
The Guardian, narra o quanto as grandes empresas como a Google, a Microsoft, a Oracle, a Apple etc. estão pressionando o governo americano para duplicar as verbas empregadas no desenvolvimento e no emprego destas tecnologias e o quanto estão se esforçando para se apresentar à sociedade como a melhor ferramenta para controle das pandemias e, portanto, de manutenção da economia. O fato de que a economia já vinha a caminho de uma enorme crise mesmo antes do Coronavírus, o fato de que a desigualdade não para de crescer e as tensões sociais só aumentam, o fato de que a humanidade está se suicidando como nunca, pois não mais se aguenta viver nesta civilização tão desumana, nada disso tem qualquer importância. A aposta das grandes empresas do complexo industrial-militar e dos gigantes da comunicação e da informática é uma sociedade que tenha o controle da vida cotidiana de todos nós de tal modo a manter o que já existe. Maior tecnologia, melhor comunicação, internet mais rápida, melhor controle das pessoas, maior controle dos novos vírus ... teremos apenas o mais do mesmo!  A entrada das tecnologias 5G parece ser um salto tecnológico indispensável e que deve se generalizar nos próximos poucos anos. Em troca deste mecanismo de controle, requerem de nós a concordância para a manutenção e aprofundamento da essência do capital. Mais destruição do planeta, mais desemprego, miséria e depressão, mais pessoas famintas, mais doenças e mais repressão: enquanto os 1% mais ricos dos EUA aumentaram sua participação na riqueza daquele país em 10% nos primeiros três meses da crise, esta mesma crise ameaça matar de fome 265 milhões de pessoa planeta afora só neste ano. Este é o mundo que o capital preparando para nós.

Será este o mundo em que queremos viver?

 

 

 

 

01/05/2020 - A crise do governo Bolsonaro​​​​​​​

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A crise do governo Bolsonaro


 

Hoje parece mais provável que Bolsonaro sofrerá um impeachment. Terminar seu mandato parece o menos provável.

Lembremos o pano de fundo desta crise: a crise estrutural do capital que se agravou a partir de 2008, acirrando ainda mais concorrências entre os burgueses pela mais-valia produzida pelos trabalhadores e operários; a ausência da classe operária e dos trabalhadores na luta anticapitalista, o que abre um amplo campo de manobras para as classes dominantes e seus aliados; e, por fim, a atual crise que articula, como forma e intensidade inéditas, uma crise financeira com uma paralisia do setor produtivo graças à pandemia. Tratamos de vários destes aspectos nos podcasts do Coletivo Veredas, cujo site tem também reunido artigos e textos sobre a crise atual.

Quando as consequências da crise de 2008 atingiram a economia brasileira, o “desenvolvimentismo petista” entrou em crise. Lembremos sua essência: uma aliança com setores da burguesia no Brasil para, com financiamentos estatais, criar empresas multinacionais sediadas no país e, com isso, como deliravam, elevar o Brasil ao “Primeiro Mundo”. Graças ao aumento dos preços das commodities no mercado internacional, por vários anos houve recursos para tocar esta política, favorecer os aliados dos petistas e, ainda, atender as demandas do restante do grande capital. Eram os anos em que Lula era uma unanimidade nacional e “o cara” de Barack Obama.

Com a crise de 2008, os recursos diminuíram, e o PT priorizou alguns setores da burguesia em detrimento do seu conjunto. Os petistas imaginavam que a crise seria breve. Decidiram, então, favorecer os setores do capital que seriam também os mais fiéis ao governo porque dependiam do Estado (infraestrutura, grandes construções, casas populares e grandes eventos como a Copa do Mundo etc.). E, em Brasília, optaram por fortalecer a aliança com os setores mais corruptos do Congresso e da burocracia estatal (o estamento político-burocrático). Por serem forças também diretamente dependentes das verbas estatais para suas negociatas e corrupções, deveriam ser aliados fiéis de quem estivesse no Planalto. Temer, por isso, foi elevado à vice de Dilma. Sabiam os petistas que passariam a contar com a oposição de setores importantes do grande capital (as indústrias automobilísticas, mecânicas, papel e celulose, químicas, os grandes bancos etc.). Mas como imaginavam a crise como de curta duração, avaliavam a aliança com o estamento político-burocrático e os setores do capital por eles privilegiados seria suficiente.

A crise hoje ainda não terminou! A oposição da maior parte do capital se tornou irresistível. Veio a Lava Jato, o impeachment da Dilma e a prisão de Lula.


 

A força do estamento político-burocrático


 

No último ano do governo Dilma, cerca de 46% dos investimentos na economia foram feitos pelo Estado ou por ele financiados. Como é o estamento político-burocrático que controla a alocação desses recursos, quem quisesse verbas federais deveria estar disposto a deixar parte delas com os burocratas e políticos. Sob o PT, o “mecanismo” do esquema de corrupção entrou em funcionamento pleno. “Desviou” cerca de 290 bilhões de reais no ano de 2015, quando no mesmo ano o montante de impostos que o Estado abriu mão, sob a forma de subsídios para o capital, era da ordem de 350 bilhões.

Enquanto os petistas atendiam ao capital como um todo, este custo da corrupção não era um grande problema para os burgueses. Mas quando, com a crise de 2008, faltaram recursos e eram atendidos apenas aqueles setores aliados aos petistas, o grande capital reagiu. Seu instrumento foi a Lava Jato. Dilma caiu e foi substituída por Temer. O núcleo duro da burguesia aliada aos petistas foi preso, bem como vários de seus operadores, de doleiros a Cunha e Lula. O estamento político-burocrático perdia a cada nova rodada de batidas policiais seus principais articuladores. Nas eleições de 2018, a mesma que elegeu Bolsonaro, sofreu uma grande derrota quando seus principais líderes não foram reeleitos. Bolsonaro prometia levar até o fim a luta contra a corrupção e a colocar o Brasil nos trilhos olavistas. Parecia que o grande capital iria conseguir seu objetivo: reduzir significativamente a corrupção e garantir uma política econômica neoliberal sem os privilégios dos aliados dos petistas.

O impressionante, entre a eleição em outubro de 2018 e março de 2019, foi a rapidez com que se rearticulou o estamento político-burocrático. O grande nome desta rearticulação foi Rodrigo Maia, que terminou eleito para presidente da Câmara dos Deputados. Para colocar Bolsonaro sob algum controle, evitar seus arroubos mais tresloucados ou, pelo menos, minorar suas consequências mais negativas e, por outro lado, para também não deixar prosperar uma certa visão desenvolvimentista similar a dos petistas que podia ser vislumbrada entre os participantes do núcleo militar do governo, o único ponto de apoio possível para a burguesia era o Congresso. Ao mesmo tempo, para aprovar as medidas e decretos que Bolsonaro planejava, também era indispensável que contasse com alguma base no Congresso Nacional. Maia e o Congresso passaram a ser, assim, importantes tanto para o grande capital quanto para o governo. Conseguiram, desta forma, a sua primeira grande vitória. Impuseram um acordo: o estamento político-burocrático não roubaria tanto quanto outrora, mas continuaria a existir; a política econômica seria voltada ao conjunto do capital e não apenas a alguns de seus setores e Guedes garantiria o avanço do neoliberalismo. Teve início o fim da Lava Jato.

Quem fora pego, continuaria nas malhas da Justiça, mas nenhum outro político ou burocrata importante seria perseguido, a começar pela família Maia, pai e filho. Era, agora, preciso enfraquecer Moro. O Supremo deu sua ajuda, a Lava Jato foi sendo dissolvida, Bolsonaro boicotou as reformas de Moro junto ao Congresso e as coisas pareciam se encaminhar para alguma normalidade.

Importante lembrar que os governos petistas foram também a etapa final da conversão dos sindicatos e centrais sindicais em instituições paraestatais. As verbas federais tornavam-nos independentes de suas bases. Se converteram em correias de transmissão do Estado sobre os trabalhadores e operários. Agora, enfraquecidos, sem um forte movimento em suas bases, sofreram um duro golpe. Temer acabou com o imposto sindical e, desde então, os sindicatos e centrais pensam apenas em como recuperar suas receitas. Os interesses dos trabalhadores e operários, que há muito já não importavam, foram definitivamente abandonados. Estava garantido que da parte dos sindicatos e centrais dos trabalhadores não viria mais nenhuma ameaça à ordem.

Deste acordão, o que escapou ao controle foram dois elementos. A loucura de Bolsonaro. E a pandemia que aprofundou a crise econômica que já vinha se anunciando desde final de 2018.


 

O tresloucado e a crise


 

Desnecessário discutir o quão tresloucado é o Presidente. O seu comportamento tornou Maia e o estamento político-burocrático imprescindíveis para aprovar as reformas que o grande capital almejava, principalmente, mas não apenas a da Previdência. Guedes e Maia, contra Bolsonaro em muitas oportunidades, se tornaram os interlocutores junto ao grande capital. O estamento político-burocrático tinha cada vez mais força para enfraquecer Moro e desmontar a Lava Jato. Era o preço para tocar as reformas que interessava ao capital e cortar as asas de Bolsonaro. Passamos a ter um Parlamentarismo branco, com o Congresso de fato ditando as regras do jogo, muitas vezes em aliança com Guedes, outras vezes contra o próprio Guedes. Mas sempre ocupando o lugar que deveria ser do Executivo e sempre enfraquecendo Moro.

A sociedade burguesa torna universal a concorrência entre os indivíduos. Em Brasília, isto é elevado à quinta-essência nas infindáveis disputas entre deputados, senadores e burocratas. As fraquezas do clã Bolsonaro, entre elas suas ligações com as milícias no Rio de Janeiro, foram sendo exploradas sem dó nem pena. As investigações, segundo o Intercept Brasil, revelam que o dinheiro arrecado por Flávio através da “rachadinha” de seus funcionários financiou a construção de prédios clandestinos em áreas controladas pela milícia de Adriano da Nóbrega. O assassinato de Adriano na Bahia, há poucos meses, seria queima de arquivo para proteger Flávio.

Para interromper a investigação Bolsonaro teria que intervir na Polícia Federal. Foi a deixa para a saída de Moro do governo, com denúncias que tornam inevitável um processo no Supremo Tribunal. Uma condenação de Bolsonaro, algo provável, implicará em seu impeachment.

Ao mesmo tempo, a pandemia tornou Bolsonaro no Planalto ainda mais indigesta para o grande capital. Quando é preciso uma administração competente dos recursos do Estado para garantir a mais rápida retomada da atividade econômica e a menor recessão, Bolsonaro só atrapalha. Seu choque com Mandetta ao redor do isolamento social e, em seguida, com Moro para conter as investigações acima mencionadas, não apenas paralisam o governo em meio à crise, como geram uma insegurança política com reflexos econômicos negativos.

Temos, ainda, a política externa de inspiração olavista. Nossas exportações, ainda mais fundamentais do que há poucos meses para girar economia, dependem em larga medida da China. O agrobusiness também depende de negócios com o Oriente Médio. Além dos seguidos choques com os chineses, a aliança com Israel ameaça as exportações para países como a Arábia Saudita. O agrobusiness, um setor que apoiou Bolsonaro desde o início, hoje está divido. Ameaça passar à oposição se a ministra da agricultura que os representa for expulsa do governo.

O governo mantém o apoio de cerca de 30% do eleitorado. Contudo, sem apoio de nenhum setor do grande capital e perdendo a cada dia o apoio de burgueses de alguma importância, com uma aliança explícita da maior parte dos governadores contra ele e com toda a grande imprensa escandalosamente na oposição, o governo Bolsonaro não deve sobreviver por muito tempo.

Contudo, ele possui um trunfo importante, ainda.


 

O trunfo de Bolsonaro


 

A queda de Bolsonaro pode tornar Moro o próximo presidente. Se assim for, o estamento político-burocrático poderá padecer uma segunda Lava Jato, com possibilidades de chegar em juízes do Supremo e atingir os grandes bancos (várias pistas não foram investigadas). Ou seja, contra o fortalecimento de Moro se alinham poderosos interesses. Desde o estamento político-burocrático, passando por grandes capitalistas... até o PT, que sonha com a absolvição de Lula através do reconhecimento pela Justiça da parcialidade de Moro. Trata-se, portanto, de encontrar uma fórmula que possibilite utilizar o prestígio de Moro contra Bolsonaro sem convertê-lo no próximo Presidente. Como se dará esta negociação, talvez fiquemos sabendo nas próximas semanas. Moro necessita de algum partido para se lançar candidato à Presidência em 2022, ele terá que negociar com o estamento político-burocrático em algum momento. Pode receber uma boa prebenda, um belo emprego ou mesmo um cargo no Supremo, desde que se comprometa com o acordo ora vigente contra a Lava Jato entre o grande capital e o estamento político-burocrático.

É por isso que, nesses dias, o PT se posiciona contra o impeachment e Maia está calado. Para evitar o impeachment, Bolsonaro tenta alinhavar algum apoio no Congresso. Quem aceita negociar é aquela parcela do estamento político-burocrático cujo poder depende mais diretamente da corrupção Estatal, a maioria do Centrão. Lembram do Roberto Jefferson? Aquele que denunciou o mensalão e passou alguns anos preso por corrupção? Pois bem, é esta mesma figura um dos articuladores contra o impeachment. Dependendo do que o governo federal oferecer, poderá ter algo próximo de 150 votos contra o impeachment na Câmara dos Deputados. Somado aos votos do PT, é suficiente para salvar Bolsonaro.

Quem poderiam imaginar o PT, o Roberto Jefferson e o Bolsonaro aliados contra o impeachment! Isto garante que Bolsonaro permanecerá no Planalto até 2022? Dificilmente. Com a pressão dos grandes capitalistas e com o desgaste político do governo quando as mortes pela pandemia explodirem, o mais provável é que o apoio do Centrão se dissolva. Roberto Jefferson e seus capangas sabem como poucos como sobreviver na política! Onde estão Dirceu e Genoíno, condenados junto com Jefferson no mensalão? Jefferson está de volta à cena e ocupando um lugar importante! Assim que Bolsonaro se converter em uma cruz que não compense carregar, os deputados do Centrão venderão seus votos para o impeachment – tal como Cunha e Temer fizeram com os petistas. Se isto ocorrer, teremos Mourão na Presidência. O que virá depois disso? Cedo para saber. A única certeza é que não promete nada de bom para os operários e trabalhadores.

 

 

 

 

14/04/2020 - Apresentação

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O QUE É O COLETIVO VEREDAS?

              
O Coletivo Veredas é uma frente político-ideológica composta por estudantes e professores que, tendo em vista a construção de uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem, das classes sociais e do Estado, se posicionam na luta pela superação do capital.

O capitalismo tem cada vez mais mostrado sua insuficiência: trata-se de um sistema que acumula riqueza de um lado e miséria de outro, não podendo, jamais, ser reformado para atuar a favor da classe trabalhadora. A atual crise que estamos atravessando apenas confirma as previsões há muito tempo feitas por Marx e Engels: apenas os trabalhadores organizados, que nada tem a perder, detém nas mãos o poder de erradicar a exploração inerente a este sistema.

Neste sentido, com o intuito de se posicionar na luta ideológica contra o capital, o Coletivo veredas surgiu como meio alternativo de promoção e divulgação da produção teórica e artística revolucionária no país, produzindo livros de forma independente, vendendo a preço de custo e disponibilizando todas as obras publicadas em PDF em seu próprio site.

 

COMO FUNCIONA A NEWSLETTER DO COLETIVO VEREDAS?


O Coletivo Veredas, na tentativa de expandir a propaganda revolucionária e dialogar com seus simpatizantes, tem procurado investir na utilização das mídias digitais. Dentre estas tentativas, surgiu a ideia da criação de um newsletter.

O newsletter é uma espécie de boletim que sairá a cada 15 dias. O primeiro boletim do mês trará a divulgação de alguma obra já publicada pelo Coletivo, para que os leitores possam se aproximar mais dos temas e discussões travadas pelo Coletivo. Já o segundo boletim do mês trará algum artigo relevante para a atual conjuntura e para o processo de combate ideológico em meio a luta de classes, além de trazer também informes sobre o que está acontecendo dentro da organização, a fim de que os associados possam acompanhar o processo de produção dos livros dentre outras coisas.

 

COMO FAÇO PARA RECEBER A NEWSLETTER DO COLETIVO VEREDAS?

Basta acessar nosso site www.coletivoveredas.com e cadastrar seu nome e endereço de email lá no final da página!  Pronto! Agora você receberá nossos boletins por email a cada 15 dias. Aproveita e dá uma olhada no site também, lá tem nosso manifesto de lançamento, o manual do autor para quem se interessar em publicar conosco, algumas recomendações de sites e, é claro, todos os livros gratuitos em PDF.

 

 

 

 

Mural de textos

 

 

 

 

 

 

ESTUDAR PARA LUTAR PELA EMANCIPAÇÃO HUMANA