COLETIVO

29/11/2020 - Crime organizado e luta de classes

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Crime organizado e luta de classes

 

Por Jorge Bahia

 

Não podemos tirar os méritos de Maria Cristina Fernandes e do autor dos livros que ela cita na sua matéria ("A República das Milícias" e “A Guerra: A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil”), Bruno Paes Manso, por nos brindarem com informações preciosas para entendemos o estágio atual da luta de classes no Brasil, que se exacerba a passos largos, açodada pela crise de exaustão do capital, que se depara com uma situação onde já não consegue se reproduzir de forma ampliada, com uma taxa de lucro que o remunere à contento. Portanto, entender o “crime organizado” no Brasil, a sua inserção e controle das regiões periféricas, principalmente nas grandes metrópoles, se torna de interesse vital para o delineamento tático para a intervenção (organizada) da classe trabalhadora nesses espaços de moradia de grande parte daqueles que possuem apenas a sua força de trabalho para vender (em situação cada vez mais aviltante).

 

Considero que a matéria (amparada segundo a autora pelos citados livros) comete alguns equívoco ao deslocar o “crime organizado” e as milícias (sendo aqui a distinção pelo fato de que as milícias são majoritariamente compostas por militares e ex-militares) da periferia/franjas do poder (forçasauxiliares, coadjuvantes) para o “centro do poder”, local já ocupado, onde reina soberana a burguesia em suas diversas frações (capital interno, capital associado e grande capital financeiro internacional) sendo oportuno ressaltar que não é incomum o fenômeno da apropriação das instituições do Estado por diferentes frações da classe dominante e mesmo por frações de classes dominadas integradas ao capitalismo e que podem servir de aliadas das frações burguesas em disputa –É uma constante nos Estados capitalistas. Além disto, é sempre bom lembrar uma lei da física que vaticina que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Toc-toc? Tem gente!

 

O fato de um notório miliciano ocupar o cargo máximo do poder executivo do Estado Brasileiro (quetem como característica um regime presidencialista “autoritário” e dotado de um processo de tomada de decisões que relega o Legislativo e os partidos políticos a um plano secundário, onde ganha destaque a disputa pelo controle das instituições do Executivo e do Judiciário), isto não significa que a milícia está no poder. Temos um miliciano à testa do poder de Estado, assim como tivemos há bem pouco tempo um ex-operário. Quem está no poder é a mesma burguesia que estava nos governos que precederam ao do miliciano Bolsonaro, alternando apenas a fração hegemônica, sendo que hoje esta fração é do capital associado e do grande capital financeiro internacional, que alijou o capital interno que foi hegemônico durante os governos do PT. Mas, não duvidemos, a burguesia sempre esteve e sempre estará no poder enquanto perdurar o capitalismo.

 

Ao me referir a hegemonia, estou me atendo à disputa de posição pela hegemonia entre as frações da burguesia em relação ao controle das instituições do Estado, o que é diferente dedizer que na sociedade existe uma hegemonia da burguesia sobre as demais classes. Neste segundo caso, o termo correto é dominação. A classe dominante, a burguesia, exerce a sua dominação sobre a classe trabalhadora (e demais segmentos e estamentos de classe), a classe dominada.

 

À respeito do tema “crime organizado” recomendo a leitura da matéria da revista Piauí de 27/02/2018, intitulada “O problema do Rio não são os bandidos, são os mocinhos’, onde o entrevistado é o ex-chefe da polícia civil do Rio, Hélio Luz (ex-militante do MR8), que também foi entrevistado no documentário Notícias de uma guerra particular, que também deve ser visto: (https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/o-problema-do-rio-nao-sao-os-bandidos-sao-os-mocinhos-diz-ex-chefe-da-policia-civil-27022018).

 

Em um país que tem a segunda maior concentração de renda do mundo (segundo dados da ONU de 2019, no Brasil o 1% mais rico concentra 28,3% da renda, perdendo apenas para o Catar em desigualdade de renda, onde 1% mais rico concentra 29% da renda) taxa de desemprego hoje em 14,4% -13,8 milhões de pessoas que se acrescentarmos aos 5,9 milhões de “desalentados” termos um total de 19,7 milhões de desempregados, portanto uma taxa de 20% de desempregado para uma população economicamente ativa de 105 milhões de almas (o PEA considera pessoas acima de quatorze anos até sessenta e cinco exceto os aposentados). Caso queiramos incluir nessa conta os subempregados, os precarizados, os que trabalham em jornadas reduzidas, teremos um quadro mais real da “tragédia” social brasileira.

 

A pandemia serviu como contraste, uma lente de aumento, que deu visibilidade a uma situação que pelos números se torna insustentável.Mesmo levando em conta as fraudes, o número de inscritos para receber o “auxílio emergencial” do governo federal, 67,7 milhões de pessoas, nos dá uma dimensão da situação de um grande contingente de trabalhadores, das quais o governo revela que sequer “tinha conhecimento da sua existência” e que foram chamadas de “invisíveis”. Notícias recentes nos esclarece que as seis famílias mais ricas do Brasil, possuem fortunas que somadas correspondem à riqueza de 50% da população do país. Em outra família de São Paulo, o patriarca resolveu transferir aos seus herdeiros, em vida, o quinhão de cada um e transferiupara um paraíso fiscal no exterior a bagatela de R$ 48 bilhões, já abatendo R$ 2 bilhões referentes aos impostos.

 

Sejamos realistas: Não existe a menor possibilidade desta situação ser revertida por nenhuma política de “distribuição de renda” ou coisa queo valha, pois, esta concentração de renda resulta e se traduz em poder político.

 

Convenhamos, fazer o manejo e o controle de uma população pauperizada, faminta e desesperada já não é possível apenas com os mecanismos repressivos usuais, através das polícias, que mesmo utilizando praticas sistemáticas de extermínio (necropolítica) da população (na sua maioria jovens, negros, da periferia), já não é capaz de conter a “sensação de insegurança” que afeta as grandes metrópoles. O aumento do contingente de policiais para mitigar, via repressão (um problema social criado pelo desemprego) se tornou contraproducente, à medida que o Estado já não tem como bancar (sem comprometer as suas finanças e os investimentos em infraestrutura visando o aumento da taxa de lucro do capital bem como o pagamento de quantias cada vez mais vultosas aos bancos à título de juros e serviço da dívida), a constante pressão para aumentar o número de policiais. Neste contexto, o “crime organizado” e as milícias caem como uma luva, pois além de fomentarem um ramo rentável da economia, o narcotráfico (além de outros como transporte clandestino de passageiros, gatonet, tv à cabo, agua mineral, gás, caça-níqueis, grilagem de terrenos e construção de imóveis, agiotagem, etc.), eles cumprem, juntamente com as igrejas evangélicas, o papel de controle e repressão das populações onde atuam, além de se apresentarem como uma alternativa de fonte de renda para parte da população e, claro, hoje controlam e vendam os votos das pessoas que residem nos territórios sob o seu controle. Quer seja o crime organizado ou as igrejas evangélicas, estes se tornaram cabos eleitorais de peso e imprescindível para qualquer candidato a qualquer cargo eletivo. Em São Paulo, é conhecido o acordo informal entre o Estado e o PCC (“a política de encarceramento em massa de São Paulo, aliada aos arranjos que preservavam a capacidade de gerência da cúpula da organização criminosa, embasavam a prolongada trégua nos índices paulistas de homicídio” -) que resultou na queda do número de homicídios. Recentemente surgiram notícias da ligação do candidato à prefeitura, Russomano, com o PCC. Em São Paulo, o PCC “monopolizou” o crime. Não existe briga de facções por lá. Já no Rio, o “crime organizado” é desorganizado, ou seja, ainda não é monopolizado à ponto de permitir um “acordo” único com o Estado, que permita um armistício e uma “convivência pacífica”. Mas, a milícia caminha à passos largos neste sentido, pois, ao mesmo tempo que aumenta a sua abrangência territorial, eles aumentam o seu poderio político elegendo candidatos em todas as esferas do Estado.

 

O “crime organizado” e as milícias são “franquiais”, “concessionárias” do Estado. Os “chefões do crime” (organizado) estão em sua maioria encarcerados, controlando “tudo” de dentro dos presídios (de segurança máxima).

 

Não minhas senhoras e meus senhores, não existe nenhuma república das milícias. A burguesia nunca saiu do controle e o modo de produção capitalista e as suas “personas”, a burguesia, não irão colapsar como ocorreu com o império romano cujas invasões barbaras foram apenas o desfecho, o arremate, de séculos de crise e degradação do modo de produção escravista, de onde foi parido o feudalismo na Europa. A burguesia está à postos e irá lutar com todas as armas, até o fim. A burguesia terá que ser derrubada. Mas, para isto, antes, é necessário que parem de fingir que ela não existe.

 

Falando nisso...

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Edições: 2018, impressa

 

 

19/11/2020 - Cretinismo parlamentar e movimento extra-parlamentar

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Cretinismo parlamentar e movimento extra-parlamentar
 
O mundo em que vivemos

As possibilidades da luta revolucionária são sempre determinadas pela situação histórica concreta. Concreta, aqui, não tanto no sentido a que Lenin se referia com a “análise concreta da situação concreta”, uma expressão em geral mais próxima da tática que da estratégia, mas no sentido histórico mais amplo.

O século 20 possui duas fases bem marcadas, quando se trata de explosões revolucionárias. A primeira, que termina em 1949 ao Exército Vermelho entrar em Pequim, corresponde ao período revolucionário mais longo e mais extenso, o único que envolveu os cinco continentes, da história humana. Após a Revolução Chinesa, os levantes foram perdendo força e potência histórica. Por mais significativas que tenham sido as experiências cubanas, argelinas, depois a vietnamita e, bem depois, a nicaraguense, nenhuma delas teve o impacto histórico da Revolução Russa ou da Revolução Chinesa. A partir da década de 1980, os levantes revolucionários não mais ocorreram. Isto não significa que não tenham ocorrido lutas e confrontos, que não tenham tido lugar choques políticos amplos e violentos. Mas eles não mais conduziram, como no passado, à destruição das velhas classes sociais e à constituição de novas classes dominantes. Quando foram vitoriosos, foi sempre a vitória de uma parcela da velha classe dominante sobre uma outra. Quase sempre foram derrotados.

Este o primeiro elemento importante para compreendermos nosso presente: as revoluções deixaram de estar na ordem do dia, a classe operária e os trabalhadores têm demonstrado uma pequena capacidade de luta revolucionária, suas lutas não têm ultrapassado os limites do “economicismo”, expressão empregada por Lenin em O que fazer?


O segundo elemento é também um processo histórico articulado ao que mencionamos acima. Seus primeiros movimentos podem ser identificados já no século 19. Não apenas, mas muito claramente, no movimento dos trabalhadores e operários na Alemanha e na Inglaterra. A transformação do capitalismo monopolista em concorrencial, ao redor da crise de 1870-1, ampliou o peso da mais-valia relativa na acumulação do capital. Além de alterar profundamente a própria dinâmica da reprodução do capital, dando início ao crescimento do capital financeiro que se converteria no monstruoso esquema especulativo dos nossos dias, além de ampliar exponencialmente os investimentos possíveis no desenvolvimento de tecnologia e na ampliação da produção e do consumo, impôs à classe operária o aprofundamento de uma sua cisão que já vinha desde sua origem. Os operários mais especializados, com maior poder aquisitivo e maior estabilidade no emprego, passaram a se distinguir crescentemente da massa de operários que se expandiu com a entrada do fordismo no cenário produtivo, depois com a Segunda Grande Guerra e, por fim, com o apogeu do Imperialismo na Europa e nos Estados Unidos entre 1945 e meados da década der 1970.

O “peão” passa a ser a base de uma classe operária que tem em seu cume uma “aristocracia”, que recebe melhores salários, possui melhores condições de vida e de trabalho, goza de maior estabilidade e – na medida em que avançamos pelo século 20 – participa cada vez mais do mercado de consumo de massas. Esta “aristocracia” se distingue ainda mais intensamente das massas proletárias que vão se formando na periferia do sistema, com a expansão mundo afora do imperialismo europeu, estadunidense e japonês.

São vários os mecanismos e mediações aqui atuantes. O mais básico e universal é relativamente simples de ser compreendido. A “aristocracia”, para ampliar seu poder aquisitivo, deseja produtos cada vez mais baratos. Isso pode ser conseguido se for aplicada uma política econômica que intensifique a exploração do restante da classe operária no país e no exterior, resultando assim em mercadorias de menor valor. A aristocracia operária, agora sem aspas, vai assumindo cada vez mais a aliança com a burguesia para garantir seus privilégios mais imediatos. Este é o solo social para o desenvolvimento e predomínio do reformismo no seio do movimento operário. Lenin é o primeiro pensador a articular o Imperialismo com o fenômeno do reformismo e da aristocracia operária europeia. Engels demonstrava todo desprezo que nutria por estes aristocratas ao denominá-los de “lugares tenentes da burguesia no seio do movimento operário”.

Na medida em que passamos pela década de 1970, as revoluções desaparecem (ou quase), tem início a crise estrutural do capital e a colaboração de classes da aristocracia operária se intensifica a cada ano que passa. Em não poucos países foi esta mesma aristocracia que se encarregou de comandar o Estado para a aplicação das políticas neoliberais (PT entre nós etc.). Isto tem duas consequências importantes para nossa discussão de hoje.

A primeira, é que as principais organizações partidárias e sindicais com tradição de luta operária se converteram em “cães de guarda do capital”, na expressão de um teórico francês. Não apenas não favorecem as lutas dos operários e trabalhadores, como ainda a sabotam e fazem de tudo para que sejam derrotadas, quando elas ocorrem. Esse é o preço que pagam para manter sua colaboração de classe.

A segunda consequência importante é que esta colaboração de classes tem sido fundamental para não haver nenhuma resistência mais significativa – as poucas que houveram, foram sufocadas – para a transferência de parte considerável do parque industrial dos países centrais para os periféricos. A transferência busca tanto fontes de energias e matérias primas, quanto uma força de trabalho de muito menor valor do que nos seus países de origem. A desindustrialização dos países capitalistas mais desenvolvidos é uma forte tendência desde a década de 1980 – em nosso país não conhecemos uma desindustrialização mas, desde pelo menos a década de 1990, assistimos à transferência das indústrias de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para a regiões antes agrícolas, como o Nordeste, o Ceará, o norte do Paraná e assim por diante.

A classe operária, vai sendo desmontada nos centros mais tradicionais e vai sendo recriada em regiões mais atrasas a partir de uma massa trabalhadora mais pobre e para a qual um emprego na indústria, por pior que seja, é um avanço de vida. Nos centros em desindustrialização é um “cada um por si”, em luta pela manutenção do emprego. Na periferia, não há qualquer experiência de luta acumulada. Isto quebra a capacidade de luta da classe operária como um todo. Sequer a possibilidade de se articular a luta dos desempregados com os que ainda serão desempregados é aventada: trata-se sempre de garantir o emprego contra a concorrência daqueles que já perderam seu lugar de trabalho. Com a benção dos burocratas dos sindicatos e dos partidos de base operária.

Esta é a situação histórica, em traços muito gerais, em que vivemos. A classe operária, nacional e internacionalmente, tem demonstrado pouca potência revolucionária devido, por um lado, à colaboração de classes da aristocracia operária (com seus sindicatos e partidos) e, por outro lado, pela transformação da classe operária, sua realocação geográfica pela a desmontagem dos centros industriais do passado e sua substituição por novos centros, na periferia do sistema, com uma classe operária recente e inexperiente.

Antes de passarmos à discussão do cretinismo parlamentar e aos problemas da luta extra-parlamentar, que seja permitido apenas uma rápida observação. Esta paralisia da classe operária pode ser rompida a qualquer momento. A intensidade da crise, a concentração de renda, a decomposição da sociedade burguesa, por um lado, a crescente exploração a que está submetida a nova parcela de operários nas regiões periféricas do sistema, por outro, somado ao fato de que nunca houve uma classe operária mundial tão homogênea, que é não apenas explorada pelos mesmos capitais, com ainda não raramente trabalha com as mesmas máquinas, fabricando os mesmos produtos – tudo isso são fatores que auxiliarão uma retomada da luta operária revolucionária. Insistimos no peso da classe operária porque é ela o sujeito revolucionário, o que não quer dizer que a revolução proletária possa vencer sem o apoio de setores importantes dos demais assalariados.

 

O cretinismo parlamentar

Estamos em plenas eleições: novamente o voto útil canaliza parte do que se considera esquerda. Não poucos falam em um apoio crítico – como se deixasse de ser brutal equívoco pedir o voto para Boulos ou Paes (no Rio) pelo fato de se denominar o voto como “crítico”. Tal como todo 1 real é equivalente a todos os outros 1 reais, todo voto crítico é equivalente a todo outro voto. Vale lembrar: quando foi mesmo que as classes dominantes mais se enriqueceram e nós alcançamos a maior concentração de renda e riqueza de nossa história? Foi sob o “voto crítico” perfeito, pois recheado de virtudes reformistas: Lula e, depois, Dilma.

Esta expressão, “cretinismo parlamentar”, que Marx criou em o 18 Brumário
é perfeita para caracterizar o que temos à nossa frente: após décadas de tentativas de se acumular forças para a revolução através da ocupação “dos espaços”, numa “guerra de posições” que prepararia o assalto aos céus, chegamos ao ponto em que hoje estamos. Não apenas não acumulamos nada, como perdemos o pouco que tínhamos. Os sindicatos foram cooptados e são hoje, como nunca, aparelhos para-estatais. O movimento popular, que ainda existia e não era muito, não vai além de comitês eleitorais que se recriam a cada 2 anos. O MST, virou uma extensão do PT e naufraga com ele. Boulos, caso eleito em São Paulo, será o fim do que ainda resta de combativo do MTST.

Não há outra constatação possível: os partidos que se propõem revolucionário se converteram em agremiações eleitoreiras. Todas as forças, energias e recursos são canalizados para a luta eleitoral. Mesmo o PSTU, de todos o mais combativo e abertamente socialista, não vai além da proposta de estatização dos meios de produção. Daqui há 2 anos, teremos mais do mesmo. Se nada se alterar na situação política, o mais do mesmo se prolongará por mais tempo. Nada virá, em se tratando de acumular de forças para a revolução, do cretinismo parlamentar.

 

O movimento extra-parlamentar

Contra o eleitoreirismo típico dos nossos “cretinos parlamentares” (ou seja, não apenas os representantes do capital eleitos, mas também as forças que acreditam nas eleições e delas participam), levanta-se a bandeira do movimento extra-parlamentar. A luta se decide nas fábricas, nas ruas, nas fazendas. Não no Parlamento. Algo justo não no terreno dos princípios porque uma verdade confirmada pela história. Se eleições alterassem algo de importante, o sistema do capital já as teria eliminado. São permitidas justamente porque não têm a potência de alterar algo de fundamental. Quando algo se transforma pela base de uma sociedade, o faz pela violência, nas fábricas, nas ruas e nas fazendas.

Contudo, os cretinos parlamentares (no sentido amplo acima) possuem um forte argumento. Cadê a luta extra-parlamentar? Onde ela surge? Nos raros momentos em que ela emerge, tende a rapidamente desaparecer ou, quase o mesmo, se converter em mais um movimento de cunho eleitoreiro. Quando ela brota, rapidamente perde sua potência. A causa fundamental disso é que as lutas mais radicais não conseguem, hoje, se generalizar. Terminam isoladas e são derrotadas. Isto, contudo, não passa de mera constatação. Constatar apenas, sabemos desde há muito, está longe de explicar.

O movimento extra-parlamentar, diferente da luta eleitoral, apenas pode ser feito por um movimento de massas – e este, diferente de um comitê eleitoral – não pode ser nem criado nem organizado de fora. Não pode ser outra coisa senão a explosão revolucionária de massas e massas de trabalhadores e operários. Enquanto este fenômeno social não ocorrer – e ele ocorre, lembremos Engels, como uma explosão social também incontrolável porque imprevisível – não há luta extra-parlamentar possível. Consequentemente, as propostas de se organizar a luta por fora do parlamento como crítica ao cretinismo parlamentar só pode demonstrar sua viabilidade prática nos períodos de profunda crise social ou de crise revolucionária. Nos dias de hoje, em que a classe operária vive este seu momento de paralisia, é uma proposta sem viabilidade prática direta.

Natural, portanto, que nas circunstâncias históricas presentes, nas quais a classe operária, no país e no mundo, momentaneamente expressa baixa capacidade de luta revolucionária, a crítica prática ao cretinismo parlamentar seja impossível, pois apenas a prática eleitoral é condizente com a ausência da classe operária como antagonista do capital.

O argumento dos cretinos parlamentares, portanto, é apenas aparentemente verdadeiro. Pois se não há, hoje, movimento extra-parlamentar, não significa que não haverá no futuro, mesmo no futuro próximo. Quanto isto ocorrer, a teoria e a propaganda revolucionária, a defesa da revolução como a única saída possível para a destruição da humanidade pelo capital, ganhará carne e osso, um novo sangue correrá em suas veias e nossos partidários do cretinismo parlamentar terminarão como o triste capítulo daqueles que traíram a revolução em nome de uma colaboração de classes.

Até lá, eles organizarão eleições e escolherão com qual parte da burguesia se aliarão. Os revolucionários defenderão o ideal revolucionário e desenvolverão a teoria da revolução: é hoje que as águas se dividem, não apenas no futuro.


Falando nisso...

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro "Notas sobre o Centralismo Democrático e a Organização que hoje necessitamos", escrito por Sergio Lessa.


Resumo: Quando se trata da revolução, é necessário um partido? Se sim, um partido leninista, regido pelo centralismo democrático? Ou o partido seria a causa da derrota das revoluções até hoje, pois sempre o poder do partido substitui o poder dos trabalhadores e a revolução se converte em uma ditadura?
Essas questões apenas podem ser respondidas a partir da história: é deste pondo de partida que o texto de combate “Notas sobre o centralismo democrático e a organização que hoje necessitamos” procura tratar destas e outras questões relacionadas.

Edição: 2018, impressa

 

 

 

03/11/2020 - O cinismo de Bolsonaro é o cinismo da sociedade capitalista!

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O cinismo de Bolsonaro é o cinismo da sociedade capitalista
 

Não há dúvida de que a grande esquerda rejeita a falsa ideia que atribui a causa da crise econômica atual às necessárias medidas de isolamento social amplo, no momento presente. Não é raro ouvir a “esquerda progressista”, iludida com as possibilidades da atuação do Estado a favor do trabalho, combater com afinco essa ideia e exigir do Estado e de seus representantes medidas paliativas para enfrentar a crise atual. Mesmo o liberalismo mais racional e humanizado rejeita a ideia de que foram as medidas de quarentena que geraram a crise econômica atual.

 

Porém, liberais e progressistas caem no grave equívoco de atribuir a causa da crise à pandemia. Afirmar que “a doença gera a crise” ou que encaramos uma “crise econômica decorrente da pandemia” simplifica e distorce o real problema que enfrentamos e contribui para continuarmos em busca de “soluções” que só ajudam a nos afogar mais ainda no lamaçal do pântano em que nos encontramos. Partindo desse entendimento, toda e qualquer ação que tenha o objetivo de combater a atual crise está fadada ao fracasso, pois a raiz dessa crise, assim como as outras crises econômicas do sistema capitalista que a humanidade enfrentou, é muito mais profunda, antiga, e persistirá ainda que superemos a pandemia da vez, se não compreendermos e atacarmos suas razões mais essenciais.

 

Ao contrário de liberais e progressistas, Bolsonaro, seus seguidores mais fanáticos e outras figuras sem escrúpulos defenderam descaradamente a economia em oposição às vidas humanas, chegando inclusive a sugerir que teria sido a quarentena – estabelecida pelos governadores dos estados para conter o avanço da Covid-19 no país – que havia desencadeado a crise econômica atual. O presidente Bolsonaro, mais preocupado com a crise econômica durante seu governo do que em pensar em soluções para conter o avanço do contágio e das mortes causadas pelo novo coronavírus, eternizou seu desprezo pela vida humana através do seu famoso “e daí?”.

No final de abril deste ano, diante de milhares de mortes no país e após ter hesitado gastar recursos do Estado com o auxílio emergencial que conhecemos hoje, Bolsonaro soltou a seguinte frase, ao ser questionado sobre um novo recorde diário de mortes: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, como se não fosse responsabilidade do Presidente da República cuidar das necessidades dos indivíduos de seus país, cuidar da saúde da população...

 

E, de fato, não é! Vamos explicar o porquê.

 

Apesar de tudo, esse descaramento, esse cinismo do Bolsonaro e do bolsonarismo tem um pé na realidade: ele expressa de modo mais claro o cinismo, o descaro, da lógica de funcionamento da sociedade capitalista. Enfatizamos: apenas um pé; pois, todo o restante do corpo paira bem distante do real. O cinismo de seu discurso, por vezes, se aproxima mais da realidade do que o discurso da grande esquerda que tenta perfumar uma realidade já podre e que se apoia em instituições em decomposição – as mesmas que a família Bolsonaro tenta se apropriar e dominar.

 

Em Miséria da Filosofia, Marx faz um alerta: “não protestemos tanto contra o cinismo. O cinismo está nas coisas, não nas palavras que o exprimem”. Sem deixarmos de abominar a figura de Bolsonaro e tudo o que ele representa, de abominar sua postura e linguagem descarada, é preciso reconhecer duas coisas: 1) a sociedade capitalista, assim como Bolsonaro, também diz “e daí?” para as vítimas da Covid-19 em todo o mundo, ela se preocupa muito mais com a continuidade de sua economia; 2) nem o Estado, nem seus representantes, como Bolsonaro, têm como prioridade a função de atender às necessidades dos seres humanos, pois o Estado capitalista funciona como instituição que gerencia as ordens do capital, buscando sempre atender prioritariamente ao que for necessário para a manutenção do modo de ser da economia capitalista e sua expansão.

 

O primeiro ponto acima responde porque o cinismo, a falta de escrúpulos, o cretinismo de Bolsonaro melhor se aproxima do cinismo da realidade social atual do que a maquiagem humanizadora que a grande esquerda, conscientemente ou não, insiste em aplicar nas “alternativas” dentro da sociedade atual. O segundo ponto explica por que não é responsabilidade do presidente, assim como não é de nenhum dos representantes do Estado, atender primeiro às necessidades das pessoas – as quais só são atendidas quando atendem ao mesmo tempo e de modo prioritário aos interesses e necessidades do capital. Explicaremos melhor.

 

Na sociedade que tem como núcleo o modo de produção capitalista, priorizar a economia em detrimento das necessidades humanas relacionadas à saúde, à alimentação etc. faz parte da lógica social, é uma necessidade do modo de produção e reprodução dessa sociedade. E o Estado capitalista faz parte dos complexos sociais que servem à manutenção da atual ordem das coisas, complementando e favorecendo sempre o capital. Por isso, frente à gravidade da situação e a urgência de que os hospitais fossem abastecidos com medicamentos e aparelhos etc., não é de se estranhar tanto a baixa execução orçamentária dos recursos destinados ao enfrentamento da Covid-19 e os casos de corrupção envolvendo esses recursos, empresas e funcionários do Estado, prejudicando no fim de tudo a população, que deveria ter sido beneficiada.

 

Assim como na mercadoria individual, elemento mais simples da forma sobre a qual se apresenta a riqueza dessa sociedade, o valor de troca se sobrepõe ao valor de uso – isto é, a troca de mercadorias se sobrepõe a utilidade da coisa trocada –, também a finalidade da produção capitalista total se volta para a acumulação de mais mais-valia – que tem início e se realiza através da troca de mercadorias, embora só tenha origem no momento em que a mercadoria é produzida – e põe em segundo plano a satisfação das necessidades humanas. A mais-valia (que identificamos ao lucro apenas para simplificar) corresponde ao valor a mais que o capitalista retira do mercado com a venda da mercadoria final, depois de ter já lançado valor no mercado ao comprar força de trabalho para viabilizar a produção de sua mercadoria.

 

A importância da troca de mercadorias em detrimento da utilidade do produto vendido ou comprado nessa sociedade se revela, por exemplo, na figura de um vendedor ambulante que vai de pessoa em pessoa com suas mercadorias, sob sol ou chuva, buscando efetivar uma venda, e, por vezes, implorando que as pessoas comprem suas mercadorias apenas para ajudá-lo. Revela-se também no desespero de uma vendedora ambulante faz de tudo para evitar que suas mercadorias lhe sejam tiradas quando são confiscadas por algum órgão estatal – que visa proteger, da concorrência do vendedor ambulante que vende o produto a um preço mais barato, os comerciantes regularizados e que pagam as devidas taxas e impostos ao Estado. Sob a inspiração do estilo de Marx, afirmamos: a mercadoria é tudo, nossos homens e mulheres nada.

 

As mercadorias que esses dois ambulantes vendem não se tratam das mesmas mercadorias que vão satisfazer suas próprias necessidades e de suas famílias. Essas mercadorias servem apenas de meio para que esses ambulantes, conseguindo algum lucro com a compra e venda das mercadorias, consigam algum dinheiro para trocar pelas diversas mercadorias que irão satisfazer suas necessidades. Portanto, a troca de mercadorias é mediação necessária para que os ambulantes possam satisfazer suas necessidades.

 

Utilizamos o ambulante para demonstrar a importância da mercadoria, mas essa troca é exigida para todos os indivíduos dessa sociedade, ainda que sob formas diferentes. Os trabalhadores assalariados têm de trocar a mercadoria-força de trabalho por um salário, para depois adquirir as mercadorias necessárias para a sua subsistência e da sua família. O capitalista tem de trocar seu dinheiro por mercadoria meio de produção e pela mercadoria força de trabalho para se apropriar da mais-valia produzida por seus trabalhadores e trocar por mercadorias que satisfaçam suas necessidades. Mesmo o trabalhador assalariado que é proletário, isto é, o verdadeiro e único produtor do conteúdo material de toda a riqueza dessa forma de sociedade, tem de vender sua força de trabalho como todos os assalariados e trocá-la por um salário – todas as relações sociais são mediadas pela mercadoria, inclusive a que dá origem a toda a riqueza social e que se realiza através da exploração do trabalho proletário pelo capital.

 

Nessa troca, a utilidade nunca é determinante. A mercadoria – seja ela de qualquer tipo, incluindo a mercadoria força de trabalho – é (re)produzida e trocada com objetivo de que mais mais-valia seja produzida e mais capital seja acumulado. A finalidade da produção não é a satisfação das necessidades humanas, mas a extração de uma quantidade maior de mais-valia a fim de garantir uma maior expansão do capital. Da mesma forma, de um modo geral, não serão as decisões mais úteis à sociedade que serão tomadas pelas personificações do capital situadas nos mais variados cargos estatais, mas sim as que melhor atendam as necessidades de sobrevivência do sistema do capital e sua a incessante finalidade de acumulação de mais mais-valia.

 

A busca por essa finalidade não cessa de modo algum, não tolera interrupção – se diminui sua velocidade de um lado, aumenta a intensidade de outro, tem de haver sempre a contrapartida para o capital. Para que a dinâmica do capital não se interrompa, para gerenciar os problemas que aparecem durante a reprodução da economia capitalista, para fornecer uma contrapartida, o Estado e seus representantes estão sempre, queiram ou não, à disposição do capital. E não há necessidade humana alguma que faça a sociedade capitalista mudar de direção rumo a seu primeiro e último objetivo: acumular mais e mais mais-valia.

 

A frieza, a voracidade e o descaso com os seres humanos estabelecidos pela forma de organização econômica da sociedade capitalista se expressa, no campo da política, na frieza e no cinismo de alguns de seus representantes mais reveladores, Bolsonaro é um deles.

 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro "Estado e Capital: uma coexistência necessária", escrito por Fernando de Araújo Bizerra. 

 

Resumo: "Escrito com sólida fundamentação teórica, oferece aos leitores ferramentas necessárias para apreender que Estado e capital, em todos os estágios históricos do desenvolvimento capitalista, se relacionam reciprocamente. Esboça elementos que evidenciam ser o Estado Moderno um produto socialmente construído de que se vale a burguesia para se organizar como classe dominante e exercer dominação sobre os trabalhadores de modo a subordiná-los aos seus interesses particulares"(Reivan Marinho de Souza).

 

Edição: 2016, impressa

 

 

17/10/2020 - Dejá Vu!

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Dejá vu!

 

Entra eleição, sai eleição, a conversa é sempre a mesma: precisamos apoiar o menos pior, porque senão vence o “mais pior”. O problema desta tática, aparentemente tão sensata, são suas consequências estratégicas. Ao lutarmos pelo menos pior, vamos de menos pior a menos pior, até chegarmos ao “mais pior”. Ao não lutarmos pelo melhor, apenas provemos o pior. Isso pode parecer só jogo de palavras, mas não é não. Senão, vejamos.

 

Nas eleições de 1989, contra Collor, a esquerda eleitoreira apoiou Lula; em 1994, contra FHC apoiou-se Lula; em 1998, contra novamente FHC, apoio a Lula e, finalmente, em 2002, contra José Serra, o eterno apoio a Lula. Todos podíamos ver a trajetória para a direita do PT, as conversas com a burguesia, as negociações... e a Carta aos Brasileiros de 2001. Ainda assim, Lula era o “menos pior”. Eleito Lula em 2002, não poucos partidos eleitoreiros, como o PCB, o PCO, PC do B, o PSOL e o PSTU avaliaram que um governo de esquerda ao menos com algum conteúdo popular chegara ao poder e que a tarefa agora seria fazer o apoio crítico ao governo, de tal modo e empurrá-lo à esquerda e ao mesmo tempo defendê-lo da ameaça da direita. A estratégia do “menos pior” não permite que se enxergue a verdade ante o nariz: era um governo do capital contra os trabalhadores, a vitória de Lula era uma derrota do proletariado.

 

O “apoio crítico” deu no que deu! Distribuição de renda? Todos os dados confirmam que sob o petismo tivemos uma ainda maior concentração da renda: 6 indivíduos possuem a riqueza equivalente a 150 milhões de pessoas! Defesa dos direitos dos trabalhadores? Reforma da previdência, integração dos sindicatos ao Estado em um grau inédito, cooptação do movimento popular e de suas principais lideranças (de Stedile a Boulos), retirada de direitos e… concentração de renda: que defesa dos trabalhadores pode ser essa? Combate ao machismo e ao conservadorismo? Em que momento o direito ao aborto foi de fato revogado em nosso país? Olhem a história: antes do petismo, ainda se podiam fazer abortos clandestinos, hoje está praticamente impossível! Combate ao conservadorismo? Quando os fundamentalistas tiveram maior influência sobre a educação pública do que sob os petistas? Quando a direita mais cresceu? Quando, antes, os evangélicos tiveram a banca no Congresso que conquistaram sob e em aliança com o PT?

 

Reforma agrária? Com Lula elogiando o agrobusiness como salvador da pátria? Com a morte de militantes da luta no campo em uma intensidade maior do que no período FHC? Com verbas e mais verbas sendo generosamente destinadas aos latifundiários e à conversão do MST em mero órgão estatal informal de distribuição de bolsa alimentação? Defesa do SUS? Quando a saúde foi de fato privatizada até o fim? Defesa da educação pública? Quando as universidades e escolas públicas conheceram uma expansão que apenas visa sua degradação para possibilitar uma maior lucratividade da educação privada? Quando os grandes grupos capitalistas internacionais entraram para valer no nosso sistema educacional? Quando as universidades privadas receberam mais recursos públicos que sob o petismo? Se não foi sob Lula e Dilma, moramos em países distintos!

 

Independência do país do grande capital internacional? Seria para rir, se não fosse uma tragédia para milhões de brasileiros! Não foi Lula quem trouxe Meirelles, então funcionário do Banco de Boston, para dirigir o Banco Central? Não foi o PT que... transferiu parte do “caixa” do país para o FMI, como se não houvesse nada melhor para fazer com esse dinheiro nesse país de biliardários e miseráveis? A lista poderia continuar indefinidamente. Não é possível encerrar sem mencionar ao menos isto: “ética” na política? Só se por ética entendemos a defesa dos interesses mais mesquinhos do estamento burocrático-político e de uma parcela do grande capital, ou seja, um enorme esquema de saque dos recursos públicos que alguns calculam como tendo alcançado a ordem de 600 milhões de reais por dia!

 

A diferença fundamental entre Lula e FHC? A evolução da crise mundial e as circunstâncias particulares dos anos em que cada um esteve no poder. De fato, os petistas foram a continuação linear e direta do neoliberalismo do PSDB. Como também foram a continuidade da proteção do núcleo mais conservador da repressão (se é que há um mais progressista) oriundo da Ditadura Militar. Não fosse a proteção que os governos do PSDB e do PT deram aos militares e aos órgãos de repressão; houvessem sido essas forças das masmorras levadas à justiça burguesa, é muito provável que Bolsonaro não tivesse sobrevivido. Assim, quando chegou a crise do neoliberalismo, o apoio eleitoreiro ao menos pior deixou Bolsonaro e os seus como a única alternativa para as massas justificadamente revoltadas contra o establishment político e burocrático encastoado no Estado. Por escolher sempre o menos pior, fomos de “menos pior” ao “mais pior”.

 

Há uma “lei geral”, por trás desta evolução.
 

Uma “lei geral” da política

 

Como diziam Marx e Engels, a classe social que pode o mais, não pode o menos.

 

A burguesia, para pegar um exemplo, podia fazer a Revolução Francesa e, naquele movimento, guilhotinar a família real e transitar para a França capitalista. Mas ela não poderia, embora tenha tentado por toda uma década antes de 1789, reformar o velho Estado absolutista e o converter, deste modo pacífico, ao Estado burguês. O proletariado conhece a mesma situação: ele pode liderar uma revolução que destrua o Estado, a família monogâmica, a propriedade privada e as classes sociais (portanto, que destrua o capital), mas não pode “por meio do Estado” (Marx, A questão judaica), reformar a ordem do capital para convertê-la em uma sociedade mais justa ou mais equitativa.

 

A estratégia de se tomar o Estado para, a partir dele, combater o capital através de reformas parciais, derrotou-se a si mesma: não há lição mais evidente do século 20. Desde os bolcheviques, que a partir da NEP em 1921 avaliaram que construiriam o socialismo na Rússia pelo domínio político do Estado sobre a economia, desde a longa, de várias décadas, experiência da socialdemocracia na Europa, na qual os partidos socialistas ou o partido trabalhista inglês, com seus sindicatos e centrais sindicais, ocuparam os altos postos de comando do Estado, até todas as experiências reformistas nos países periféricos do sistema do capital – todas as experiências resultaram em uma demonstração prática e inequívoca: o capital controla o Estado, este nada mais é que o capital elevado a poder político. Ocupar os altos postos de comando do Estado apenas significa se colocar a serviço do capital, nada mais, nada menos. Independente da coloração ideológica (alguém tem dúvidas da intenção revolucionária de um Lenin, Trotsky ou Kollontai?), do partido ou da teoria que tenha por trás de (de Bernstein e Kautsky a um Guidens), o resultado é sempre o menos: se o proletariado não pode fazer a revolução, muito menos pode reformisticamente chegar ao socialismo.

 

Na política, quem pode o mais, não pode o menos.

 

Não se trata, agora, de discutir os fundamentos ontológicos desta situação histórica mais geral. Basta assinalar que isto é assim porque a extração da mais-valia se faz pelo trabalho proletário e, sem superá-lo pelo trabalho associado, não há qualquer evolução possível em direção ao socialismo. E o trabalho proletário não pode ser reformado. Um trabalho proletário reformado continua sendo um trabalho proletário. A mais-valia continua sendo produzida, o capital continua dominando a reprodução social e, portanto, também os complexos ideológicos etc. etc. A lei geral, acima, pode também ser assim escrita: o proletariado não pode reformar o trabalho proletário, pode apenas superá-lo pelo trabalho associado.
 

O uso do cachimbo faz a boca torta!

 

Em O 18 Brumário, Marx denominou de “cretinismo parlamentar” a incapacidade dos setores da pequena burguesia para enxergar a realidade à sua frente e tirar conclusões pertinentes à situação concreta. Naquela conjuntura, os partidos pequenos burgueses se voltaram contra as massas populares revoltadas nas ruas e se dispuseram à uma luta sem tréguas no parlamento onde, acreditava-se, tudo se decidiria. Sem a força das ruas, estes mesmos partidos foram facilmente derrotadas no parlamento e, então, decidiram recorrer às ruas. Quanto tinham força, se voltaram contra ela. Quando perderam no parlamento, descobriram que nas ruas é que se decidem as coisas. Foram as ruas para serem facilmente dispersados por Luís Bonaparte. O mais puro “cretinismo parlamentar”.

 

Hoje as forças eleitoreiras que propõem a necessidade de uma frente democrática contra Bolsonaro, a “besta fera fascista”, não vão além de uma nova versão do “cretinismo parlamentar”. Que Bolsonaro é reacionário, não há dúvidas. FHC é tão reacionário quanto Bolsonaro, apenas é de um reacionarismo mais refinado, educado, “mais ao gosto das camadas esclarecidas da população”. Que Lula é reacionário, se há ainda dúvidas, examine-se o arco de alianças dos governos petistas e a estratégia econômica dos mesmos.

 

Basta relembrar que, quando da eleição de FHC, um forte movimento pela desmontagem do aparato repressivo sobrevivente da Ditadura tomou corpo. A resposta de FHC foi comprar a conivência dos perseguidos e torturados pagando indenizações aos mesmos em troca de abrirem mão de continuarem a lutar pela punição dos seus algozes. Os petistas? Não apenas aprofundaram e ampliaram esta política promotora de conivência com os torturadores, como ainda a ampliaram. Nunca se pagou tanto, nunca se pagou a tantos, para que abrissem mão do seu direito de lutar contra os crimes de lesa-humanidade perpetrados contra eles, não raras vezes contra seus próprios corpos (lembram do papel vergonhoso do Genoino?).

 

Mas os petistas foram além, pois a “governabilidade” assim o exigia. Dilma, que tanta coragem demonstrou sob tortura, se acovardou como presidenta e não levou a juízo nem sequer a Ulstra, que pessoalmente a torturou. Castrada pela a faixa presidencial, terminou promovendo a legislação repressiva mais dura que este país conhecera desde o AI-5.

 

Não fosse a proteção ativa dos governos peessedebistas e petistas aos torturadores, censores, espiões etc. da Ditadura Militar, Bolsonaro, Mourão, Heleno e todos os outros que estão hoje em Brasília não teriam permanecido no seio do Estado, com o poder que hoje possuem.

Qual o resultado da estratégia de se apoiar o “menos pior”, justamente porque é o “menos pior”? Do PSDB ao PT e, deste, a Bolsonaro!

Hoje o “cretinismo parlamentar” não faz mais do que propor a nós que, para lutar contra Bolsonaro e os seus, devemos nos aliar com os petistas, pcbistas, pcdobistas, psdebistas, psolistas – ou seja, o mesmo arco de aliança que promoveu ativamente a manutenção do aparelho repressivo oriundo da Ditadura Militar. Isso é o máximo que a estratégia eleitoreira hoje nos pode oferecer!

 

Se queremos lutar com consequência contra a direita, precisamos é lutar por uma alternativa real, que não seja a manutenção do Estado burguês, com todas as forças reacionárias que nele se abrigam e que ele apoia. Conquistar o Estado, ocupar os altos postos de comando do Estado, nada mais significa que se colocar a serviço do que de mais reacionário há em nosso país.

 

A estratégia da “luta de posição” e de se constituir uma “contra-hegemonia” através da ocupação de postos no aparelho estatal tem apenas uma consequência: inserir a ideologia burguesa no seio das forças que se pretendem revolucionárias e a consequente conversão destas em forças burguesas.

 

O que fazer?

 

Nunca tivemos um desencanto da população em geral tão grande e tão enorme para com o Estado e para com o estamento político-burocrático. É aí que precisamos centrar a nossa luta. Demonstrar, argumentar, explicar, elucidar, ensinar, esclarecer, explanar, expor até os limites de nossas capacidades que a nossa única alternativa é destruir o Estado e transitar para o trabalho associado. Explorar o desencanto e desconfiança da população para com o estamento-político burocrático em particular e para com o Estado em geral, explorar descrenças, como a para com o complexo médico-hospitalar (por exemplo, na desconfiança com as vacinas ou com a ciência), para mostrar como a alternativa não é Bolsonaro, mas a revolução contra o capital.

 

Defender o Estado “democrático” contra Bolsonaro “fascista” é o mesmo que defender o Estado que sempre defendeu Bolsonaro. Se aliar às forças que sempre foram ativas na proteção de Bolsonaro e os seus é o mesmo que se aliar às forças que sempre se colocaram ao lado de Bolsonaro todas as vezes que houve a oportunidade de desarticular as forças da direita.

Mais uma vez: é uma estratégia que derrota a si mesmo. Pois aquele que não identifica seu inimigo, já perdeu antes mesmo de a luta começar.

 

Quando as barricadas não estão na ordem do dia, a luta ideológica ocupa o lugar central. Aqui é onde reside nossas potencialidades e nossas possibilidades de acumulação de forças. A história está a nos dar razão a uma velocidade inédita. Precisamos tirar vantagem deste fato. Apoiar o “menos pior” Boulos para, no segundo turno, apoiar o “menos pior do menos pior”?

 

De novo?

 

 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro " Violência e Capitalismo", escrito por Maricelly Costa. 

 

Resumo: O livro Violência e Capitalismo apresenta uma análise das bases materiais da violência na sociedade capitalista. Com uma investigação que parte da acumulação primitiva, seguindo com uma análise sobre as formas de violência existentes no processo de desenvolvimento e consolidação do capital até a fase dos monopólios, o texto demonstra como a violência é um instrumento necessário e intrínseco a lógica de reprodução do capital, que na forma de violência econômica e extra econômica dilacera o trabalhador na sua condição física e mental para atender as necessidades do capital, e como isso se potencializa no contexto da crise estrutural do capital quando o esgotamento do binôminio taylorismo-fordismo implica numa reestruturação produtiva  baseada numa flexibilização da produção, que consequentemente impulsiona uma nova gestão do processo de trabalho, marcada pela violência da intensificação da exploração da força de trabalho, cuja captura da subjetividade apresenta-se como uma de suas formas.

Este livro é uma contribuição para o debate e as reflexões sobre o fenômeno da violência existentes no interior das Ciências Sociais e do Serviço Social, ao apresentar uma apreensão da essência desse fenômeno como uma potência econômica presente na sociabilidade capitalista.


Edição: 2018, impressa

 

 

02/10/2020 - Um Novo Normal

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Um Novo Normal

 

Há quase sete meses vivenciamos uma mudança nas nossas rotinas. Das relações familiares e afetivas as relações de trabalho, tudo modificou-se severamente. Assistimos atônitos o Brasil chegar a marca dos 100 mil mortos pela Covid-19, hoje já ultrapassando os 140 mil, num cenário de mais de 4 milhões de casos.

 

O primeiro caso de contaminação pela covid-19 no Brasil, foi confirmado em 26 de fevereiro, um senhor de 61 anos de idade que havia chegado da Itália, porém a vítima fatal foi uma senhora de 57 anos, ambos em São Paulo, a diferença é que a senhora não havia chegado de viagem da Itália, era empregada doméstica tendo sido contaminada pelos patrões.

 

A pandemia causada pelo novo coronavírus, também chamada de crise sanitária, encontrou um solo fértil: a crise do capital. Emergindo nos anos 1970, a crise do capital ao atingir intensamente a economia das principais potências mundiais, proporcionou também a desestruturação de vários países periféricos, tornando-os mais dependentes dos país capitalistas avançados. Como resposta, entrou em curso uma reorganização do capital e de seu sistema ideológico e político de dominação, o que acarretaria, portanto, implicações para os trabalhadores.

 

As implicações para a classe trabalhadora foram e são inúmeras, marcadas pelo processo de flexibilização da produção e das relações de trabalho, das quais o desemprego estrutural, a intensificação da exploração da força de trabalho e a ampliação da pobreza são os exemplos mais degradantes.

 

A ocorrência de uma pandemia num contexto já marcado pela crise do capital e sua nítida incapacidade civilizatória, escancarou as vísceras da sociedade capitalista (talvez já expostas há tempos...).
 

O “normal” parece que não estava “tão normal” assim...

 

Em 2019, a ONU já registrava uma cifra de 736 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza em todo o mundo, e 1,3 milhões vivendo no que denominam de pobreza multidimensional (ocasionada por várias carências como acesso à educação, a saúde e a qualidade de vida). Com a pandemia, estima-se que mais de 250 milhões de pessoas tenham sido colocadas sob o risco de fome, isso sem falar de todos as outras condições de vulnerabilidades e riscos sociais a que estão submetidas cotidianamente. Para o Brasil, o cenário também é preocupante, pois a ONU sinaliza que até o final de 2020 a taxa de extrema pobreza em 9,5%, um aumento de 4,5% se comparado a 2019.

Quanto ao desemprego, o Brasil alcançou em 2018 um percentual de 12,3%, e em 2019 marcou 11,9%. A acentuação da desigualdade social, da pobreza, da miséria e do desemprego já caricaturavam um cenário que a nosso ver, de normal não tinha nada. Em 2020, a “crise” proporcionada pela pandemia levou a uma alta de 27,6% na taxa de desempregados, segundo pesquisa realizada pelo IBGE e divulgada este mês. A pesquisa aponta que o Brasil fechou agosto com 12,9 milhões de desempregados, uma média de 2,9 milhões de desempregados a mais que no mesmo período do ano passado.

 

De fato, a pandemia mudou nossas rotinas. O isolamento social como medida de proteção nos distanciou dos nossos familiares e amigos. A suspensão das aulas levou várias escolas públicas e privadas a implantarem o ensino remoto, demonstrando e acentuando a desigualdade do acesso à educação e aos meios necessários para obtê-la com qualidade. Acentuou também a precarização da formação e do trabalho docente, ao tornar professor em blogueiro, youtuber, um verdadeiro malabaristas para “prender” a atenção de crianças, adolescentes e jovens frente a uma tela de computador.

 

As relações de trabalho também mudaram...

 

O trabalho remoto (ou à distância) e o home office nos distanciou da empresa e dos colegas de trabalho, apenas fisicamente. As videoconferências não param, as mensagens no grupo de whatsapp ou telegram não têm dia e nem horário. As metas se ampliaram e com ela o medo do desemprego. Em entrevista realizada em julho deste ano ao programa Impressões da TV Brasil, a ministra do Superior Tribunal do Trabalho –TST, Maria Cristina Peduzz anunciou “o trabalho remoto veio para ficar”. Dados apontam que 43% das empresas privadas adotaram o trabalho remoto e que 60% dos funcionários estão trabalhando em casa, segundo pesquisa realizada pela Betania Tanure Associados (BTA). O próprio TST sinaliza as “vantagens” para o empregador com a redução dos custos além da otimização do tempo de trabalho para o empregado.

 

Certamente estamos diante da possibilidade de mais ampliação da precarização das condições de trabalho, pois as empresas privadas e não diferentemente o governo, já identificaram a capacidade de economia que esse tipo de trabalho proporciona, além claro, de uma possível maior produtividade pois o tempo a ser dedicado as demandas do trabalho e o tempo a ser dedicado as demandas da família e da casa se misturam, perdendo o trabalhador a noção do tempo de trabalho voltado as demandas da empresa.

 

Mas não foi apenas a nossa relação de trabalho com a empresa que mudou. Não podemos nos furtar aqui de pontuar a realidade de milhares de mulheres que nesse período do isolamento viram as demandas das tarefas domésticas, os cuidados com os (as) filhos (as) e com os (as) idosos (as) triplicarem e além disso somar-se, para algumas, com o trabalho remoto, evidenciando o elevado nível de precarização e invisibilidade do trabalho doméstico, que remetem a sobrecargas físicas e emocionais.

 

Ainda longe da efetiva possibilidade de cura para o novo coronavírus, o dito “novo normal” foi oportuno para o capitalismo, à medida que proporcionou a implantação de meios de ampliação da exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, criando estratégias capazes de assegurar-lhe a preservação da obtenção do lucro.

 

Bem... o propagado discurso do “novo normal” ocorre numa realidade mundial de mais de 33 milhões de casos de Covid-19 e 1 milhão de pessoas mortas. Um verdadeiro cenário de guerra cujo o inimigo não é apenas o novo coronavírus. Tratar o atual contexto como um “novo normal” parece-nos uma tentativa de reduzir o momento que estamos vivendo a uma questão apenas de mudanças de comportamentos, e consequentemente a capacidade de adequação a essa “nova normalidade”.

 

Nos parece que estamos diante de alguns desafios que vão desde sobreviver a uma pandemia numa proporção nunca vista pela maioria de nós, e paralelamente a isso, criar meios de resistência, e por que não dizer sobrevivência, as novas artimanhas de uma pandemia que há tempos nos mata: a pandemia do capital.

 

 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro " Violência e Capitalismo", escrito por Maricelly Costa. 

 

Resumo: O livro Violência e Capitalismo apresenta uma análise das bases materiais da violência na sociedade capitalista. Com uma investigação que parte da acumulação primitiva, seguindo com uma análise sobre as formas de violência existentes no processo de desenvolvimento e consolidação do capital até a fase dos monopólios, o texto demonstra como a violência é um instrumento necessário e intrínseco a lógica de reprodução do capital, que na forma de violência econômica e extra econômica dilacera o trabalhador na sua condição física e mental para atender as necessidades do capital, e como isso se potencializa no contexto da crise estrutural do capital quando o esgotamento do binôminio taylorismo-fordismo implica numa reestruturação produtiva  baseada numa flexibilização da produção, que consequentemente impulsiona uma nova gestão do processo de trabalho, marcada pela violência da intensificação da exploração da força de trabalho, cuja captura da subjetividade apresenta-se como uma de suas formas.

Este livro é uma contribuição para o debate e as reflexões sobre o fenômeno da violência existentes no interior das Ciências Sociais e do Serviço Social, ao apresentar uma apreensão da essência desse fenômeno como uma potência econômica presente na sociabilidade capitalista.

 

Edições: 2018, impressa

 

 

15/09/2020 - Que crise é esta?

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Que crise é esta?

 

No ano de 2019, os grandes “players” do capital mundial se preparavam para um 2020 de crise. As previsões iam desde algo bem pior do que 2008 até uma crise mais prolongada, porém não tão aguda. Mas ninguém previa um ano tranquilo na economia.

 

O “resto” do mundo parecia normal. Tirando a crise econômica e para a qual os Bancos Centrais, o FMI, o Banco Mundial e os capitalistas se preparavam, nada havia de ameaçador no horizonte.

 

Chegamos em setembro e um 2020 inteiramente diferente nos contempla.

 

Veio a pandemia da Covid-19. Ela explodiu neste ano de 2020. Mas é parte de um processo mais longo. Em busca do lucro, o capital vai tornando o planeta cada vez mais geneticamente homogêneo. Destruímos as florestas e as substituímos por plantações de árvores, cereais ou campos para gado; gigantescas fábricas de carne (suínos, galináceos, gado) capazes de processar milhões de toneladas de carne requerem a criação de bilhões de frangos, milhões de porcos, outros milhões de bois e vacas. Para ser de fato lucrativo, os animais a serem processados nestas fábricas devem ser os mais semelhantes possíveis: a homogeneidade genética é imperativa para o lucro, tal como a homogeneidade das toras de eucaliptos aumenta a lucratividade das fábricas de papel e a homogeneidade do Pinus potencializa a lucratividade na produção de móveis ou de materiais para a construção. (Sobre isso, ver a Newsletter do Veredas de 07 de julho)

Para a maior lucratividade do capital, também, homogeneizamos a humanidade. A força de trabalho e o consumo (não as pessoas que trabalham e que consomem, pois as pessoas não contam) precisam ser concentrados em enormes centros urbanos, com o menor custo possível. As cidades cresceram assustadoramente (não é mero acaso que não tenham crescido tanto na Europa desenvolvida!), bilhões de seres humanos vivem em favelas ou assemelhados, com atividades econômicas e uma rotina também muito parecida. O impressionante Planeta Favela, de Mike Davis, não nos deixa mentir. A concentração de renda, já brutal, com a Covid-19, se acelera e promete uma humanidade ainda mais desigual.

 

Isto é tudo o que é preciso para vivenciarmos epidemias sobre epidemias, como argumentamos na Newsletter 07, acima mencionada. A natureza, pelos próprios processos biológicos, produz incessantemente novos vírus, fungos, bactérias etc. Com um ambiente genético homogêneo e concentrado, basta um micróbio com capacidade para se generalizar entre os humanos para que tenhamos epidemias. Que outras virão, não é uma questão de “se”, mas de “quando”, dizem os cientistas. Lembremos uma vez mais o livro de Laurie Garret, The comming plague, de 1995, que já mostrava a inevitabilidade de epidemias.
 

Nossa produção de micróbios


Não satisfeitos, ainda damos uma mãozinha. Criamos centros em praticamente cada cidade no planeta, que colocam humanos doentes em contato com micróbios cada vez mais mortais e resistentes aos remédios - que os próprios centros produzem.

 

Como sabemos há décadas, nenhum remédio mata todos os micróbios. O que o remédio faz, na verdade, é tornar o micróbio tão fraco que o corpo humano é, na maior parte das vezes, capaz de eliminá-lo. Contudo, por vezes, alguns sobrevivem porque são resistentes ao antibiótico ou ao remédio. Este exemplar resistente se prolifera e o remédio começa a perder eficácia. Logo, uma nova geração do micróbio resistente torna o remédio inútil e é preciso desenvolver outro mais forte que, por sua vez, vai alimentar o ciclo: nós mesmos produzimos micróbios (vírus, bactérias, fungos) crescentemente mortais.

 

Esses centros são os nossos hospitais, fábricas não de saúde, mas de lucros. Fazem parte do complexo médico-hospitalar, o segundo setor do grande capital que mais tem lucrado com a pandemia. O quanto isto ameaça a humanidade é difícil exagerar. Não percam um livro de Michel Odent, com edição pequena, mas com informações interessantíssimas: Poderá a humanidade sobrevier à medicina? O resultado, estamos colhendo de forma dramática nestes dias em que escrevo este texto. No Arquipélago de Fiji, no Pacífico, a perda de eficácia dos antibióticos está se tornando uma ameaça à estrutura de saúde do país. Quando estes micróbios resistentes se esparramarem pelo planeta, “voltaremos à idade das trevas na medicina”, alerta Dr. Paul de Barro, no The Guardian de 10 de setembro último. O que ocorre em Fuji é apenas o prolongamento do que já fazemos com a tuberculose, com a malária e com cerca de três dezenas de bacilos e uma infinidade de outros microrganismos. A diferença é que, agora, a escala está se tornando dramática.
 

Atingimos o ponto de não retorno?

 

Neste ano o degelo e o aquecimento na Groenlândia chegaram a um ponto irreversível. Independentemente do que façamos, as geleiras da Groenlândia irão desaparecer e logo, no verão, não haverá mais gelo no Polo Norte. Ainda não chegamos a este ponto na Antártida, mas os estudos mais recentes indicam que o degelo lá também se acelera além das previsões mais pessimistas. O gelo reflete o calor mais do que água. Com menos gelo, mais aquecimento e o ciclo se alimenta.

 

O aquecimento do planeta está provocando incêndios inimagináveis há alguns poucos anos. Hoje, 12 de setembro de 2020, os jornais noticiam que perto de 10% da população do Estado de Oregon, nos EUA, estão deixando suas casas às chamas! A Califórnia também arde. A Austrália que se incendiou o ano passado, se prepara para novos incêndios com a previsão de uma estação de seca prolongada. O mesmo com Portugal. A Amazônia, o Pantanal... Mas vocês já imaginaram incêndios gigantescos ao norte do círculo polar? Isso mesmo, próximo ao Polo Norte? Essa região do planeta ficou por milhões de anos sem incêndios e também por isso acumulou uma enorme quantidade de matéria inflamável em seu solo e subsolo. Essa matéria inflamável contém uma gigantesca reserva aprisionada de gás carbônico, o principal vilão (depois do capital) do aquecimento do planeta.

 

Pois bem, a Sibéria arde!! No ano passado liberou uma quantidade gigantesca, recorde, de gás carbônico e, neste ano, já liberou até agora 35% mais do que o ano passado! Mais gás carbônico, mais efeito estufa, mais aquecimento... mais incêndios. Onde isso irá parar?

 

As avaliações mais gerais são também reveladoras. Por exemplo: 68% da população natural no planeta foi eliminada desde 1970 (quando se iniciou a crise estrutural do capital). Esta devastação não apenas não está diminuindo, como ainda está aumentando seu ritmo. Os corais, os manguezais, os pântanos, as últimas florestas não plantadas pelos humanos, tudo está destruído ou será destruído nos próximos poucos anos. Na Europa e nos EUA, as abelhas estão morrendo como nunca, ameaçando a agricultura sem seu trabalho de polinização. Agricultores já pagam a criadores de abelhas em jamantas para levarem para suas fazendas os insetos. Na China, em algumas regiões a polinização está sendo feita... pelos humanos!!! Na Alemanha, o emprego de inseticidas provocou a matança de raposas e deu origem a uma praga de marmotas que está inviabilizando a agricultura em várias regiões. Pássaros morrem como nunca antes na Europa e na América como um todo.

 

A acidificação dos oceanos, a alteração das correntes marítimas, as mudanças nas massas atmosféricas, a presença praticamente universal de micropartículas de plásticos (que estão impossibilitando a reprodução de um sem número de organismo no solo), não apenas na natureza mas no interior das células humanas; as doenças que se multiplicam junto com as novas condições de vida (câncer, Alzheimer, Parkinson, diabetes), a atual geração de humanos com um terço já contaminado por chumbo na infância, etc.

 

É possível se continuar por muito mais, contudo, talvez já seja suficiente para que a questão não pareça nem exageradamente dramática nem exageradamente alarmista: chegamos a um ponto de não retorno e vamos fazer do planeta um ambiente inóspito aos humanos? Vamos sobreviver neste planeta? Estaria certo Elon Musk ao projetar foguetes para levar humanos a Marte, porque na Terra a nossa sobrevivência teria data para findar?

 

As leis gerais

 

As leis gerais, são gerais porque são gerais. Parece brincadeira, mas não é. Newton teve que explicar isso várias vezes com sua Lei da Gravitação. Marx, uma infinidade de vezes. Porque são gerais, tais leis estão sempre presentes; porque são gerais, não explicam, contudo, toda particularidade e singularidade de cada caso.

 

Em 1844, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, Marx já anunciava claramente uma dessas leis gerais: com o ser humano é parte da natureza, destruir a natureza é destruir também o ser humano. E, ainda, como o ser humano é parte da natureza, a destruição do ser humano é também a destruição da natureza. Naqueles momentos em que ele estava abandonando o hegelianismo e iniciando seu aprendizado de economia, não podia ir mais longe. Mas, ao final de sua vida (na terceira edição do Livro I de O Capital), nos deu a sua versão final para esta lei: as relações sociais capitalistas, por serem relações concorrenciais que obrigam à busca de um lucro sempre crescente, não apenas fazem do ser humano um servo do capital, como ainda tornam as relações sociais essencialmente desumanas. Nós destruímos a natureza para produzir lucros e, em função dos mesmos lucros e pelas mesmas ações, destruímos a nós próprios, seres humanos. Nunca produzimos tanta riqueza, e jamais ela foi tão desigualmente distribuída! Nunca tantos passaram fome com tanta comida sobrando! Hoje temos mais suicídios do que mortos em guerras! No passado, nada houve de semelhante.

 

Essa é uma parte da essência da crise que vivemos.

 

A outra parte corresponde a uma outra lei geral, esta formulada pela primeira vez por Hegel: a totalidade é mais do que a soma das partes; o universal é a síntese, não a somatória, de suas partes. Essa síntese produz no universal determinações, qualidades, que não estão presentes nos singulares que o compõem.

 

Esta lei está presente em todo o universo. Que a água (uma totalidade composta por dois gases) possui propriedades distintas dos elementos que a compõe é uma manifestação particular desta lei geral. A vida é a qualidade peculiar de reproduzir a si própria de uma forma, a orgânica, de organização dos átomos que provêm da matéria inorgânica. Os processos sociais são sempre a síntese das consequências práticas dos atos singulares dos indivíduos concretos em tendências históricas universais. Portanto, também as qualidades das tendências históricas universais não estão sempre presentes em cada ato humano. A totalidade, sempre, é mais do que suas partes: é a interação destas que produz uma nova essência, uma nova qualidade, universal.

 

Teríamos hoje, com as alienações provocadas pelo capital, chegado ao ponto em que a totalidade do planeta adquiriu uma qualidade nova e tenderá no futuro a evoluir por processos que tornarão a vida humana cada vez mais difícil, senão impossível? Teríamos já chegado àquele ponto em que a tendência mais universal da evolução do planeta (e, claro, da própria humanidade) será composta por transformações tão abruptas e tão amplas que nossa forma de vida se tornará inadequada para sobreviver às novas circunstâncias?

 

Como sempre, porque ainda não aconteceu, o futuro não pode ser conhecido em sua inteireza. O que podemos, a partir do conhecimento do presente, é estimar algumas tendências futuras possíveis. A resposta a esta pergunta, portanto, apenas poderá ser conclusivamente dada no futuro. Isto, contudo, não invalida a questão: já atingimos o ponto de não retorno? Talvez. Mas uma coisa é certa: se não o atingimos, nunca estivemos tão próximos de o atingir.

 

As duas leis gerais nos sinalizam: sem a superação do sistema do capital, nosso futuro não promete nada de bom para a humanidade.

Quanto à crise econômica? Um tsunami econômico está sendo gestado com a injeção de trilhões de dólares e euros no mercado mundial. Mas, isto, no momento, sequer é a maior preocupação. Era em 2019. Hoje a situação geral é tão mais grave, que a crise econômica deixou de ser a maior das preocupações. O que não significa que não venha a se tornar dramática no futuro próximo.


 

Material em que se baseia a NL:

1) https://www.cadtm.org/A-pandemia-do-coronavirus-e-parte-de-uma-crise-multidimensional-do-capitalismo

2) Science, 16 de Abril de 2020: Thailand scrambles to contain major outbreak of horse-killing virus. Christa Lesté-Lasserre.

3) New York Times, 25 de maio 2020. Wealthiest Hospitals Got Billions in Bailout for Struggling Health Providers. por Jesse Drucker, Jessica Silver-Greenberg and Sarah Kliff.

4) Nature, 26 June 2020: World’s second-deadliest Ebola outbreak ends in Democratic Republic of the Congo, por Amy Maxmen

5) Nature, 13 de agosto de 2020: AIDS, Malária and Tuberculosis are surging.

6) Nature, 10 de setembro 2020: 10 September 2020: The Arctic is burning like never before — and that’s bad news for climate change.por Alexandra Witze

7) Nature, 10 de setembro 2020: Wildlife in 'catastrophic decline' due to human destruction, scientists warn. por By Helen Briggs BBC

8) Nature, 20 maio 2020: 04 May 2020: Profile of a killer: the complex biology powering the coronavirus pandemic. by .David Cyranoski

9) The Guardian, 10 de setembro de 2020: Rampant destruction of forests ‘will unleash more pandemics’ por Robin McKie

10) The Guardian, 13 de maio 2020: Microplastics discovered blowing ashore in sea breezes . Por Karen McVeigh. @karenmcveigh1

11) The Guardian, 30 Julho de 2020: One in three children have dangerous levels of lead in their blood . Por Fiona Harvey.

12) The Guardian, 27 de maio de 2020: 'Unstoppable': African swine fever deaths to eclipse record 2019 toll. Por Michael Standaert

13) https://www.economist.com/graphic-detail/2020/08/25/the-greenland-ice-sheet-has-melted-past-the-point-of-no-return

14) The Economist, 22 de Agosto de 2020: How viruses shape the world. They don’t just cause pandemics.

15) The Guardian, 10 de setembro de 2020. Superbugs' a far greater risk than Covid in Pacific, scientist warns. por Sheldon Chanel in Suva e Ben Doherty

16) “Pode a humanidade sobreviver à medicina?” por: Michel Odent. https://www.institutomichelodent.com.br/livraria-imo.

17) https://observador.pt/2019/09/11/bacterias-estao-cada-vez-mais-resistentes-a-antibioticos/


 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro "Abaixo a democracia! Viva a Comuna!", escrito por Sergio Lessa.

 

Sobre a autor: Sergio Lessa é membro do Coletivo Veredas e estudioso da obra de Lukács.

 

Resumo: O Texto de Combate "Abaixo a democracia! Viva a Comuna!” Procura responder às seguintes questões: Há uma alternativa à democracia que não seja a ditadura? É possível outra forma de organização da sociedade que não seja nem ditadura nem democracia? A resposta é positiva. Há, sim! Existe sim uma outra organização social que não é nem a democracia nem a ditadura. E é muito superior tanto a uma quanto à outra: é a Comuna.

 

Edição: 2017, impressa

 

 

30/08/2020 - A pandemia e a exploração do trabalho

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A Pandemia e a exploração do trabalho

 

Capital em crise

 

O capital está em uma profunda crise, desde o final da década de 1960. Esta crise se caracteriza, basicamente por ser sistêmica e estrutural. Atinge todas as esferas produtivas, em escala planetária. Se desenvolve de forma lenta e seu período temporal é extenso, porque não dizer permanente? Pois até o momento não se encontra indícios que o capital tenha retornado para o patamar de lucratividade anterior à esta crise. Mészáros é categórico ao afirmar que a crise atual do capital é uma crise estrutural, que evidencia os limites últimos deste sistema socioeconômico que tem como único objetivo reproduzir de forma ampliada e contínua o capital.

 

A tendência a maior concentração e centralização de capitais aprofundam as contradições do próprio sistema. Por mais que os capitalistas e seus representantes na esfera política (Estado) busquem saídas para a permanência deste sistema, ele próprio não consegue mais deslocar suas contradições de forma eficiente como antes. Ficam evidentes, até para os mais leigos, que a desigualdade social cresce cada vez mais, que a miséria se alastra para a maior parte da população mundial, que o desemprego se torna crônico, que nosso estilo de vida e produção destroem o meio ambiente e, por consequência, ameaçam a sobrevivência da própria humanidade.

 

Por estes e outros motivos mais, é necessário à própria humanidade enfrentar o desafio de buscar uma alternativa que, não apenas reforme este sistema, atenuando algumas de suas contradições, mas sim enfrente de forma ofensiva os fundamentos que mantém o próprio capital, superando-o.

 

Pandemia da Covid-19 e a adaptação da exploração do trabalho

 

No ano de 2020 a humanidade enfrenta uma pandemia que se alastrou rapidamente entre os países, já contaminou mais de 25 milhões de pessoas e matou quase 850 mil pessoas (dados oficiais), sem contar os casos subnotificados, pois nem todos os países tem condições de contabilizar ou não divulgam as informações reais. No Brasil, embora nos últimos dias tenha apresentado uma leve tendência de diminuição, a Covid-19 já contaminou mais de 3 milhões e 800 mil pessoas e levou a óbito mais de 120 mil.

 

Houve uma grande resistência de governantes e empresários para a implementação das medidas de isolamento social. No Brasil, coube a estados e municípios emitirem decretos com as regras de isolamento, distanciamento social e protocolos de reabertura de atividades econômicas e de lazer, em fases periódicas, de acordo com o avanço ou retrocesso no número de casos em cada localidade.

 

Não demorou muito para que as atividades de trabalho e estudos fossem forçadamente realizadas de forma remota, através dos recursos da internet. Algo que muitos setores de serviço e educacionais (principalmente de Educação à Distancia-EaD) já pressionavam para implementar antes da pandemia.

 

Esta adaptação, além de forçada, foi abrupta, sem planejamento e capacitação. Porém, a ameaça de perda do emprego, fez a maior parte dos trabalhadores (principalmente da área de serviços) se empenharem em realizar suas atividades sob as novas condições da realidade pandêmica.

 

As empresas se esvaziaram de funcionários e também de equipamentos; as contas de energia, telefonia e internet despencaram; salas e prédios alugados foram desocupados; etc. Agora a empresa paga o mesmo salário, ou menos, para o funcionário desenvolver suas atividades em casa, com seus próprios aparelhos (computador, telefone, etc.), pagando a energia gasta, a operadora de internet e telefonia, ampliando a jornada de trabalho (pois o tempo dedicado ao trabalho aumenta), entre outras coisas. A adaptação às atividades remotas, seja no trabalho ou na educação forçam as pessoas envolvidas a buscarem meios dos mais criativos para ajustar também seu ambiente doméstico e familiar a uma rotina de empresa. Ainda estamos começando a perceber as consequências deste processo (fadiga, depressão, pânico, ansiedade...).

 

No Brasil, a taxa de desemprego aumentou para 13,7% (PENAD, 2020), a desigualdade social cresce por consequência. Neste mesmo tempo há uma maior concentração de renda, sendo 1% mais rico da população detém quase um terço da renda nacional (Word Inequality Database, 2020). As grandes empresas e multinacionais estão lucrando ainda mais neste período, tais como: vendas online, redes sociais, serviços de streaming, comunicação e principalmente os bancos. Porém, como a paralisia da produção industrial, as expectativas são de queda histórica nos PIBs dos países centrais e periféricos.

 

Ao que tudo indica a crise estrutural vem se aprofundando cada vez mais. Contudo, o capital não pode deixar os fatores de bloqueio, impedirem seu processo de expansão e acumulação contínuos. Por isto, cria ajustes necessários para manter sua autorreprodução. Dentre eles, as formas diferenciadas de exploração do trabalho, através de recursos e estratégias tecnológicas que contribuem para sua permanência. Ou seja, a maior prejudicada pela crise do capital é a classe trabalhadora. Até o momento em que, por meio de um processo verdadeiramente revolucionário a atividade fundante do ser social (o trabalho) deixe de ser realizada em prol da geração de capital (produção de riqueza) e sim voltada para atender as necessidades dos próprios produtores (riqueza de produção).


 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro " Ontologia, dever e valor em Lukács ", escrito por Mariana Andrade. 

 

Sobre a autora: Mariana Andrade é professora da Universidade Federal de Alagoas. Estuda a obra de György Lukács desde 2009. Em 2016, publicou o livro Ontologia, dever e valor em Lukács. Participou como revisora técnica do alemão das traduções de Prolegômenos para uma ontologia do ser social e Para a ontologia do ser social, publicadas pelos Coletivo Veredas em 2018. Atualmente traduz do filósofo húngaro: Wie ist Deutschland zum Zentrum der reaktionären Ideologie geworden? É também a tradutora dos livros da Coleção Guido Oldrini publicados anualmente pelo Coletivo Veredas. Como parte desta coleção, o Coletivo Veredas publicará ainda em 2020: Hegel e Lukács: duas estéticas em confronto.

 

Resumo: O livro Ontologia, dever e valor em Lukács tem como objetivo demonstrar, a partir da Para a ontologia do ser social de György Lukács, o caráter objetivo do valor e do dever em contraposição às concepções subjetivistas (abstratas) e, portanto, idealistas, atualmente em voga. Mariana Andrade, corrobora a concepção ontologicamente fundada dos valores humanos sejam eles econômicos (o valor-trabalho: valor de uso, valor de trocar, dinheiro etc.) ou extraeconômicos (os valores estéticos, morais, éticos etc.), na sua inextrincável relação com o dever enquanto momento determinante imediato de cada ação humana intencionada a uma realização, ao buscar os fundamentos ontológicos dessa relação no trabalho como categoria fundante do ser social.Com base na concepção ontológica lukacsiana de valor e dever, a autora expõe o conjunto de mediações que faz com que, no presente da humanidade, duas formas gerais de valores, com seus respectivos modos do dever, se apresentem em disputa: o valor humano da emancipação política, que mantém indivíduo e gênero humano subordinados às necessidades do capital e do seu sistema de autorreprodução que crescentemente aliena, desumaniza e degrada a existência do ser humano, ao mesmo tempo em que destrói a natureza e, em contraposição a este, o máximo valor humano possível, o valor da emancipação humana, que como possibilidade real é a única forma capaz de libertar os seres humanos da dominação destrutiva do capital permitindo-os desenvolver o máximo das forças produtivas e de suas capacidades humanas com a finalidade de satisfazer as suas próprias necessidades e não de qualquer outra força transcendente ou incontrolavelmente causal.

 

Edição: 2016, impressa

 

 

16/08/2020 - ...

newsletter-agosto-de-2020

Silêncio.

 

Para todos os lados, existem medos. Medo do presente, medo do futuro.

 

Vivemos um tempo de apreensão, onde coletivamente seguramos nossa respiração: para não se contaminar com o vírus, para não contaminar os outros.

 

Dia após dia, as estatísticas indicam o avanço das mortes. Já superamos cem mil mortos. Apenas por COVID-19. Apenas os registrados como tal. Sem contar os mortos pela violência e pela fome, sem contar os mortos por negligência de uma política em escala nacional que mata todos os dias pela sua ausência.

 

Faltam palavras para descrever o que vivemos.

 

Silêncio.

 

Enquanto as palavras nos escapam na perplexidade, nas tentativas incontáveis de compreender esse momento histórico sem precedentes, há também verdades que gritam:

 

Grita a inação do nosso Estado para conter a pandemia. Faltam insumos básicos, as medidas econômicas prometidas não chegam às pequenas empresas. Metade da força de trabalho brasileira está desocupada, desempregada, abandonada.

 

Grita o auxílio emergencial, um fôlego para a vida de tantos brasileiros, constantemente anunciado como inviável, por um custo alto demais à uma economia que agoniza desde antes da crise sanitária.

 

Gritam as canetadas que “passam a boiada” sobre nossa natureza, que também é viva, que queima e agoniza.

 

Gritam as medidas de reabertura econômica, que obrigam milhares de pessoas que ainda têm seus empregos a saírem de suas casas para aguardarem clientes que não vêm por medo. Pessoas que são obrigadas a se expor por números em uma tabela, pessoas que também sentem medo.

 

Grita o medo de se contaminar. O medo de se somar aos milhões de desempregados. O medo de morrer.

 

À parcela que pode trabalhar em casa, há outros gritos:

 

Gritos das crianças que não vão às escolas. Gritos de fome. Gritos de tédio.

Gritos que cobram que se faça mais. Sempre mais.

Gritos que exigem que se agradeça pelo emprego que (ainda) permanece. Gritos que demandam gratidão por estarem em casa. Gritos da violência que tantas pessoas vivem dentro de suas casas.

Gritos de ameaça e gritos de quem pede ajuda e não tem mais para onde fugir.

Não há respostas.
 

Silêncio.

 

Os dias passam. A ciência não traz a solução. Como disse Tedros Adhanom, Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde, “não há nenhuma bala de prata” para combater a COVID-19. “Talvez nunca tenha” [1].

 

Estatísticas e mais estatísticas econômicas anunciam os piores indicadores em décadas. Notícias anunciam a morte, o terror, a certeza de que o pior está por vir.

 

Nos faltam palavras em um mundo cheio de palavras e informações, que não param de anunciar o fim. Palavras que se misturam com os anos de avisos e alarmes feitos por cientistas e pensadores, com anos de avanços na concentração do poder, no desrespeito a vida em todas as dimensões por aumentos nos lucros.

 

Faltam palavras em um Brasil que quase ouviu um “vou intervir” [2]. Que é constantemente lembrado pelos militares e fiéis seguidores do presidente, como pelo bem da democracia, esse dia ainda poderá vir.

 

Em um Brasil que não encontra força nem palavras para dizer basta.
 

Silêncio.

 

Enquanto esperamos respostas, pessoas encontram formas de seguir em frente. Aprendemos a usar máscaras e higienizar superfícies. Optamos cada vez mais pelo descartável, sem pensar para onde o descartado vai.

 

Recorremos às telas para reuniões, aulas, para as saudades de quem não devemos abraçar. Recorremos à tecnologia em busca de esperanças, em busca de uma conexão com o que nos faz humanos.

 

Mas com as máscaras, com as camadas, com as telas, já não nos reconhecemos mais. Mudamos nossos hábitos sem nos perguntar o que isso poderia implicar para viabilizar uma vida que, por hora, não é mais possível.

 

Uma forma de viver que não se sustenta mais. Uma forma de vida que para nós, na periferia do mundo civilizado, já era a barbárie.
 

Silêncio.

 

Toca uma buzina de um entregador na rua. Rompe-se o silêncio.

 

Surge a indignação. A raiva promovida pela consciência sobre as condições de trabalho dessas pessoas, que se expõe ao risco para preservar os outros. Trabalhadores sujeitos a horas na rua, esperando a demanda do consumo alheio.

 

Grita o abismo entre o privilégio de poucos e a realidade do povo.

 

A entrega é feita na vizinhança. A moto passa.

 

Silêncio.

 

É no cotidiano que a realidade concreta se constitui. Realidade que resulta da soma de um sem fim de ações, deliberadas ou não. Nesse cotidiano, tão transformado pela crise do Coronavírus, estamos sujeitos às consequências das ações tomadas pelos outros e, também, às consequências das ações não tomadas. Quanto mais tempo aceitarmos, em silêncio, às violências impostas ao povo nessa perversa socialização do ônus, mais essas perversidades serão cristalizadas em nossa paisagem, em nossos hábitos, em nosso cotidiano.

 

É hora de olhar para a rua. Olhar para as estatísticas. Sentir a dor do outro.

 

É hora de olhar para o Estado, que torce para “tocar a vida e se safar desse problema” [3] e de escolher como queremos viver.

 

É hora de romper o silêncio. Juntos.


Referências externas

[1] https://nacoesunidas.org/nao-ha-bala-de-prata-para-combater-covid-19-diz-chefe-da-agencia-de-saude-da-onu/

[2] https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vou-intervir/

[3] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/08/06/vamos-tocar-a-vida-diz-bolsonaro-sobre-pais-atingir-a-marca-de-100-mil-mortos-por-coronavirus.ghtml


 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro " Precarização: Degradação do trabalho no capitalismo", escrito por Albani de Barros. 

 

Sobre a autor: Albani de Barros é autor de Para Além de Prometeu?, publicado em 2015. Professor universitário, com pesquisas voltadas para análise do trabalho a partir da perspectiva marxiana. É graduado em Comunicação Social e Mestre em Serviço Social pela UFAL. Doutor em Serviço Social pela UFPE.

 

Resumo: Os estudos sobre a precarização do trabalho ganharam relevância e interesse nas últimas décadas, notadamente nas ciências humanas. Mas, diferentemente de muitas incursões sobre o tema, que essencialmente procuram examiná-lo por meio de uma análise conjuntural, o presente livro soma-se a outros estudos, ainda que poucos, que examinam a questão da precarização a partir de uma perspectiva radicalmente crítica. Nas reflexões propostas no texto, encontra-se a análise de que a expansão mundial das formas de trabalho marcadas pela “flexibilidade laboral”, pelo medo, pela ausência de vínculos e de incerteza se haverá emprego constitui um modo ampliado da precariedade, portanto, de um processo de precarização do trabalho. Ainda que o desenvolvimento do capitalismo tenha introduzido particularidades históricas que mereçam uma análise específica, o livro aponta na direção de que o exame da crítica da economia política desenvolvida por Marx possui uma validade indispensável na análise da precarização. Assim, as múltiplas formas de representação da precarização do trabalho, como a incerteza quanto ao emprego, informalidade, elevadas taxas de rotatividade, trabalho em tempo parcial, contrato de trabalho “zero hora”, precariedade subjetiva, trabalho invisível precarizado, entre outras, são aspectos que, ainda que ampliados ou reconfigurados nas últimas décadas, têm por origem fundamental o movimento de acumulação de capital.

 

Edição: 2019, impressa

 

 

04/08/2020 - E o impeachment de Bolsonaro, para onde foi?

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E o Impeachment de Bolsonaro, para onde foi?

 

Há menos de dois meses, uma articulação de forças que ia do Supremo Tribunal Federal ao PSOL, passando por figuras como Fernando Henrique, Boulos, Marina Silva e o PT, não perdia oportunidade para apontar Bolsonaro e apoiadores como inimigos mortais da democracia. Não foram poucas forças e organizações que se dizem de esquerda julgaram por bem aderir a esta articulação. Lembremos das manifestações de rua pró e contra Bolsonaro e seu governo, as declarações ameaçadoras da área militar, as bravatas não menos impressionantes dos filhos de Bolsonaro, o confronto aberto com Bolsonaro de Doria e Witzel (governadores de São Paulo e Rio de Janeiro). Lembremos ainda da saída espetaculosa de Moro do governo, as denúncias de interferência de Bolsonaro na Política Federal. Por fim, lembremos ainda os manifestos que recolheram amplamente assinaturas, todos em defesa da democracia e todos denunciando os métodos e medidas fascistas do governo federal. Figuras como Paula Lavigne e Caetano Veloso vieram a público denunciar o governo. Articulistas de origem na esquerda, como Marco Aurélio Nogueira e Sergio Henriques, pregaram a defesa intransigente dos valores e práticas “republicanas” e “democráticas”. Estava na hora, diziam, de se colocar as divergências de lado e cerrar fileiras contra o “fascismo”. As investigações todas levavam a uma única conclusão: a proximidade, se não cumplicidade, dos Bolsonaros com os assassinatos de Marielle e do Capitão Adriano, a corrupta simbiose entre as milícias, o clã Bolsonaro e a corrupção. Tudo colocava no horizonte o impeachment de Bolsonaro.

 

Pois bem, passadas pouco mais de quatro semanas, o que restou desta defesa da democracia pelos democratas? Praticamente nada. As investigações estão em banho-maria, o processo de impeachment sequer foi instalado no Congresso. Nossos artistas e figuras como Fernando Henrique, Marina Silva e Rodrigo Maia estão calados. Os manifestos pela democracia? Com seus milhares de assinaturas? Onde estão eles? Witzel está encalacrado, lutando pela sua própria sobrevivência depois das denúncias de corrupção no seu governo e Doria, de ponta de lança entre os governadores no embate com Bolsonaro, colocou a viola no saco – ainda mais agora que Serra e Alckmin começam a ser alcançados pela Lava Jato.

 

O que ocorreu? Deixou Bolsonaro de ser um fascista que precisa ser extirpado do cenário político? Ou os democratas não eram os defensores da democracia que diziam ser?


O que aconteceu?

 

Na superfície mais superficial, aquela que as notícias dos jornais reportam, dois foram os principais movimentos que esvaziaram o impulso democrático anti-Bolsonaro.

 

O primeiro foi a prisão de Fabrício Queiroz, numa casa em Atibaia pertencente a Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro e com conexões com as milícias cariocas. A prisão de Queiroz e o mandato de prisão de sua esposa colocaram as hostes bolsonaristas em pânico. As conexões entre o crime organizado, as milícias e os Bolsonaros foram operadas por Queiroz e uma delação premiada poderia tornar inevitável o impeachment.

 

A prisão de Queiroz também parece ter afastado o núcleo militar do “núcleo ideológico” do governo. Até a prisão, os militares estavam “fechados” com Bolsonaro e viam na imprensa e no Supremo as causas principais da crise. Lembremos do artigo de Mourão no jornal o Estado de São Paulo de 15 de maio de 2020. Lá podemos ler que a “usurpação das prerrogativas do Poder Executivo” pelo Congresso e pelo Judiciário, somada a uma imprensa tendenciosa, eram as causas principais da crise. Essa postura foi abandonada. Os eventos narrados pela imprensa levam a crer que os militares passaram a fazer pressão que Bolsonaro recuasse.

 

O segundo movimento importante é que os bolsonarista passaram à defensiva. As preparativas para uma tentativa de golpe foram (aparentemente) interrompidas. As manifestações de rua em Brasília todo final de semana contra o Congresso e o Supremo, como que por mágica, desapareceram. Emissários foram enviados ao Congresso e ao Supremo. Bolsonaro não mais os atacaria se, em troca, o impeachment não prosseguisse e as investigações envolvendo a “família imperial” (como FHC caracterizou o clã Bolsonaro já no início do governo) não fossem adiante.

 

Como parte deste acordo, uma parte do governo deve ser entregue ao Centrão, o núcleo mais corrupto da corrupção no Congresso. A justificativa é que o governo necessita de uma base no Congresso para governar. A realidade é que Bolsonaro precisa de 172 votos no Congresso para evitar um impeachment. Carlos Bolsonaro, o principal cavaleiro do apocalipse encarregado da ofensiva cibernética dos bolsonarista, torna pública a possibilidade de sair da linha de frente e um “olavista” é afastado da presidência do Banco do Brasil.

 

Ou seja...

 

Os democratas fecharam um acordo com Bolsonaro.

 

Bolsonaro abandona as “ideias malucas” de um golpe de Estado e os democratas concordam que ele conclua o governo. Todos também concordam em disputar suas divergências nas urnas, tanto nas eleições deste ano quanto nas eleições para a Presidência em 2022. Não há mais necessidade da defesa da democracia contra Bolsonaro: Caetano, Paula Lavigne, Maitê Proença podem voltar para seus afazeres. Os manifestos podem ser engavetados. As investigações dos crimes cometidos pela “família imperial” podem ser colocadas em banho-maria. Queiróz ganha prisão domiciliar, junto com sua esposa; Frederick Wassef, o advogado, que dizia saber bastante e ter muito a contar, saiu de cena; FHC sai do noticiário e o impeachment parece que nunca foi levado a sério.

 

O próximo passo na implementação deste acordo está ocorrendo agora, nos nossos dias: a desmontagem da Lava Jato. Moro lamenta ter sido usado pelos bolsonaristas. De fato, para os ingênuos não há lugar na política.

 

Lembremos quem forma o Centrão, composto por uma série de pequenos e médios partidos, entre eles o MDB e o DEM. A liderança principal era o Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) e, secundariamente, Artur Lyra (do PP) e Davi Alcolumbre (presidente do Senado). A marca desde bloco heterogêneo é o que os analistas burgueses denominam de “fisiologismo”, isto é, a prática de vender seus votos em troca de propinas. É o que há de mais corrupto e bandido no Congresso, se é que há lá alguma figura que não seja ao menos conivente com a corrupção e com a bandidagem. No governo Dilma, foi este mesmo Centrão que vendeu caro seu apoio ao PT para, quando a situação se tornava insustentável, virar a casaca e promover uma nova rodada de venda de seus votos, agora pró-impeachment. Logo depois, foi a vez de Temer pagar muito dinheiro ao Centrão para que seu impeachment não fosse adiante, quando do escândalo da JBS.

Pois bem, é esse mesmo Centrão que se torna o aliado principal de Bolsonaro. Corruptos tradicionais e de estirpe declaram seu apoio ao governo e ganham cargos no governo federal. A BBC noticiou que os cargos em negociação controlam mais de 10 bilhões em verbas ainda não comprometidas no orçamento federal [1]. A luta contra a corrupção, uma das principais bandeiras de Bolsonaro, tem que ser enrolada e colocada no porão da casa, com a esperança de que seja esquecida.

 

O acordo com o Centrão possibilita também acabar com a Lava Jato, de preferência acabando também com a possibilidade de Moro se lançar candidato à Presidência em 2022 (no Supremo fala-se em uma lei que o tornaria inelegível por 8 anos). Nesta ofensiva contra a Lava Jato, o Centrão, os bolsonaristas e o Supremo contam também com o apoio da “esquerda”, desde do site Intercept, passando pelo PSOL (Ivan Valente está na linha de frente) e incluindo o PT.

 

Feito o acordo, mantida a possibilidade de Bolsonaro, desde que se comporte, terminar o seu mandado e se candidatar em 2022, a defesa “intransigente” dos valores e preceitos democráticos pode ser transigida e deixada de lado.

 

Que morram mais alguns milhares!

 

Esse newsletter está se convertendo em um rosário de recordações! Mas não há como escapar, quando o passado é fundamental para esclarecer o presente.

 

Lembram-se como, não há muito, alegava-se que uma das principais razões do impeachment era o descalabro promovido por Bolsonaro na luta contra a pandemia? De lá para cá, as mortes diminuíram? A estratégia do governo mudou? Passamos a contar com uma atuação efetiva e de qualidade por parte do governo federal? Evidentemente que não.

 

Na verdade, os democratas afirmavam, corretamente, que Bolsonaro nos custa milhares de vidas; mas apenas para fortalecer o movimento pelo impeachment e não para salvar vidas. Agora que não é mais preciso tirar Bolsonaro do Planalto, também deixou de ser necessário o impeachment para salvar vidas. Que morram mais alguns milhares!

 

Por que os democratas são ... democratas?

 

No newsletter de 1 de julho, um mês atrás, apontávamos a responsabilidade dos setores democráticos na sobrevivência do núcleo repressivo da Ditadura Militar no seio do Estado. Narramos como, desde a Constituição de 1988, passando pelos governos FHC, Lula e Dilma, os democratas sempre atuaram na proteção e auxiliaram a sobrevivência do aparato de repressão desenvolvido sob a Ditatura. O acordo, jamais o confronto, é o que marca a relação entre os democratas e figuras como Bolsonaro e Mourão. Fernando Henrique, Lula e os democratas todos, apenas utilizaram das boas intenções de figuras como Caetano e Maitê Proença, da ingenuidade e estreiteza de horizonte de forças que se querem de esquerda, como o PCB, parcelas do PSOL, torcidas organizadas etc. para pressionar a “família imperial” a um acordo. Bolsonaro é um fascista a ser derrubado até que faça um acordo com a democracia! Feito o acordo, pode-se esquecer o “fascismo” de Bolsonaro.

 

Nem tudo são flores...

 

Nem tudo são flores para os bolsonaristas, contudo.

 

A crise econômica só piora e a pandemia, com avanços e recuos, não deixa de matar cada vez mais brasileiros. O desemprego abarca mais de 50% da força de trabalho. Todas as estatísticas mostram uma assustadora queda do nível de vida dos assalariados...

 

Uma parte importante, ainda que minoritária do Centrão, o MDB e o DEM, decidiu não compor a base do governo e rachou. Os mais capacitados estrategistas do Centrão, como Rodrigo Maia e Antônio Carlos Magalhães Neto saíram do acordo. Talvez por avaliarem que o governo está numa crise da qual não terá escapatória e melhor seria manter uma posição de independência. Talvez também por articulações envolvendo a eleição do novo presidente da Câmara em janeiro do ano que vem. Onde isso irá dar? Difícil dizer, há que se aguardar ao menos algumas semanas.

 

Mas, desde já, podemos tirar uma lição destas últimas semanas: quando se trata do confronto com o governo Bolsonaro, os primeiros traidores são os democratas. São eles os primeiros dispostos a abandonar a luta e fazer um acordo com a direita. Vêm fazendo isso desde a Constituição de 1988. Estão fazendo agora, novamente, na nossa cara.

 

Na luta pela liberdade, nós não devemos contar com a aliança com os democratas; quem conta com uma aliança com os democratas é a extrema direita. Bolsonaro “usou” Moro, assim como os democratas “usaram” aqueles que, acreditando estarem lutando contra Bolsonaro, se colocaram incondicionalmente ao lado de FHC, Ciro Gomes, Lula, Marina e Boulos.


Isso não é tudo...

 

Há, ainda, o mais importante a ser explicado: por que nossos democratas são tão propensos a acordos com a direita, mesmo a mais extremada? Por que forças reformistas tradicionais como o PC do B, o PCB, o PSOL, o PT e outras organizações menores tratam os democratas como aliados em potencial e, a esquerda revolucionária, como inimiga de classe? Trataremos disso no primeiro newsletter de setembro.

 

Referências externas

[1] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52466624

 

 

Falando nisso...

 

Você conhece os livros publicados pelo Coletivo Veredas?

Gostaríamos de indicar o livro "Estado, política social e controle do capital", escrito por Milena Santos.

 

Sobre a autora: Bacharel em Serviço Social (UFAL), Mestra em Serviço Social (UFAL) e doutoranda em Serviço Social, no Programa de pós-graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

Resumo: O livro aborda o Estado e a Política Social e tem como objetivo apresentar como a política social pode ser considerada uma das formas de controle do sistema sociometabólico do capital através da atuação do Estado. Para tanto, baseia-se na análise marxiana dos fundamentos ontológicos do Estado (natureza, desenvolvimento e função social). Analisa a ordem de reprodução do capital e o Estado, como uma estrutura de comando político direcionada a defender os interesses do capital, complementando-o de forma essencial na manutenção da ordem do capital. Trata ainda da “questão social” e as origens das políticas sociais, captando seus fundamentos ontológicos, analisando o processo de consolidação durante o período monopolista do capitalismo. Também apresenta as formas de enfrentamento da crise estrutural do capital pelo Estado e, principalmente, quais as decorrências dos ajustes estruturais para a política social.

 

Edições:

2016, impressa - ESGOTADA

2020: E-book - ficará disponível no site até outubro

 

 

20/07/2020 - Pandemia, por quê? Por que agora?

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Pandemia, por quê? Por que agora?

 

Comecemos pelo início: o que é uma pandemia?

 

Tomemos como exemplo a nossa atual epidemia, causada por um vírus, o SARS-COV-2.

 

O vírus é um dos menores seres vivos, uma esfera de gordura e proteína que contém no seu interior uma molécula de RNA (um ácido que contém o código genético do vírus). O vírus se reproduz dissolvendo uma molécula que faz parte da membrana externa de uma célula e nela inserindo o seu RNA. O RNA começa então a se “alimentar” da célula que foi invadida e reproduz milhares de cópias de si mesmo. Novos vírus, milhares deles, vão sendo formados no interior da célula até que esta explode, liberando os novos vírus para infectarem outras células e assim por diante.

 

O vírus é muitas vezes menor do que uma célula. Muitos vírus costumam atacar uma mesma célula ao mesmo tempo e por isso é comum que o RNA de um vírus se misture com o de outro vírus e que eles troquem material genético. Então, se um vírus possui uma variação que melhora sua reprodução, esta variação tende a ir predominando e ela é repassada aos outros vírus que estão se formando junto com ele. É assim que boa parte das mutações dos vírus acontecem. Mutações são as variações no código genético que ocorrem quando um ser vivo se reproduz.

 

Como existe uma enorme quantidade de vírus no ambiente, com frequência ocorre de uma mesma célula ser invadida por vírus diferentes (por exemplo, um vírus que normalmente se reproduz no morcego ataca a célula de um porco no mesmo momento em que esta célula está sendo invadida por um vírus da gripe suína). Surge assim a possibilidade de o vírus da gripe suína “receber” parte do material genético do vírus do morcego e, vice-versa, do vírus do morcego receber “informações” genéticas do vírus da gripe suína. Surge um vírus novo, meio suíno, meio morcego.

 

Por isso, ao examinarmos o RNA de um vírus é possível descobrir sua evolução. Esses “pedaços” de RNA de diferentes vírus, ao se associarem, vão “escrevendo” a história do vírus. Começou em tal planta ou animal, “pegou” este pedaço de RNA desta outra planta ou animal, depois infectou este outro ser vivo e pegou um terceiro “pedaço”. É isso que nos dá a certeza, por exemplo, de que o SARS-COV-2 não foi produzido em um laboratório, que ele não é um plano da China para destruir a civilização ocidental, como querem alguns bolsonarista. É muito mais do que isso, como veremos logo abaixo.

 

Como esta troca de material genético ocorre ao acaso, nem sempre elas são favoráveis. Algumas vezes, contudo, dão origem a vírus com características novas, por exemplo, com a capacidade de atacar células humanas e, então, na primeira oportunidade, um vírus que só existia nos suínos e nos morcegos passa aos seres humanos. Foi isso o que ocorreu, tudo indica (há pesquisas em andamento), com o SARS-COV-2, que provoca a COVID-19.

 

Os vírus se transformam cotidianamente, novos vírus surgem com frequência, entre os humanos, entre as plantas e entre os animais. Como existe uma fantástica quantidade de vírus no planeta, novos vírus estão surgindo a cada minuto em todos os lugares.

Um vírus, contudo, não faz uma pandemia!

 

Do vírus à pandemia
 

Caso um ser humano seja infectado, mas não tenha contato com outros seres humanos ou tenha contato com poucos seres humanos, o vírus se propaga apenas neste grupo e a doença pode matar a todos, ou o grupo pode desenvolver resistência a ela, ou ainda ela pode ficar endêmica, isto é, passa a fazer parte da vida daquela população. Mas não vai além disso.

 

Para que uma pandemia (uma epidemia em escala mundial) aconteça, é preciso que haja condições para que o vírus (pode ser também uma bactéria, mas isso não vem aqui ao caso) se propague para um número muito grande de indivíduos em todo o planeta. Para que isso ocorra, algumas condições precisam ser atendidas.

 

Primeiro, é preciso que haja uma grande uniformidade genética. Por exemplo, quando plantamos milhões de quilômetros quadrados com a mesma soja, geneticamente idêntica, estamos criando as condições ideais para que um vírus surja e rapidamente infeccione toda a soja. Isto acontece todos os anos e, por isso, os grandes vendedores de sementes do mundo vivem o tempo todo buscando criar variações genéticas que deem origem a plantas que sejam resistentes às novas “pragas”.

 

A China possuía, neste começo de ano, 310 milhões de porcos, a União Europeia outros 148 milhões, os EUA mais 78 milhões e assim por diante [1]. Todos confinados ou semiconfinados, com raças muito assemelhadas, isto é, com uma considerável homogeneidade genética. Tal como com a soja, isto também é um cenário ideal para um novo vírus contar com uma rápida difusão. Com as galinhas, os números são ainda maiores: estima-se em 19 bilhões a quantidade de galinhas no plante, China, EUA e Brasil sendo os maiores criadores [2].

 

Ao mesmo tempo, destruímos florestas, poluímos os oceanos e a atmosfera, eliminamos do planeta um número incontável de espécies: a natural diversidade genética vai sendo destruída pelo modo como o capitalismo trata a natureza. Criamos um mundo que apresenta uma homogeneidade genética que nunca existiu antes e isto atende à primeira condição para que um vírus se transforme em uma pandemia.

 

O capitalismo e a pandemia

 

O desenvolvimento da capacidade produtiva do capital atende às outras condições para que um vírus se converta em uma pandemia.

O capitalismo forçou uma humanidade que era essencialmente agrícola a se tornar urbana. Hoje, mais da metade da população do planeta vive em centros urbanos. Além disso, o desenvolvimento do capital também promoveu uma gigantesca concentração da riqueza, de tal modo que a pobreza da maioria e a riqueza de uma ínfima minoria não param de crescer. Uma é irmã siamesa da outra. Hoje somos 7,7 bilhões de humanos, 57% habitando as cidades, com 1% de população possuindo 44% e 57% possuindo menos de 2% da riqueza mundial [3]. Uma enorme concentração de humanos, em áreas pequenas e com as piores condições de saúde, de alimentação e de higiene.

Ao mesmo tempo, o capital gerou uma malha de transporte e comunicações que faz com que um vírus desse a volta ao redor do planeta (antes da pandemia deste ano, claro) em poucos dias.

 

Sopa no mel para uma rápida propagação de doenças: bilhões de humanos aglomerados em áreas pequenas nas piores condições de vida, com a biodiversidade originária do planeta sendo substituído pela homogeneidade genética que conhecemos e com meios de transporte que conectam cada localidade ao planeta como um todo e – o que mais um vírus necessita para se converter em uma epidemia?

 

Nada, de fato nada.

 

Esta é uma velha história. Nenhuma uma novidade. Por exemplo, Laura Garret, em 1994, em seu livro A praga por vir, demonstrou em detalhes como a questão não era se viveríamos uma pandemia, mas apenas o quando ela viria. “Os sinais eram claros.”, comenta o site “netnature”. Tivemos as epidemias do “Hendra em 1994, do Nipah em 1998, do Sars em 2003, do Mers em 2012 e do Ebola em 2014; todas essas grandes epidemias humanas foram causadas por vírus que se originaram em hospedeiros de animais e passaram para humanos. O COVID-19 é causado por uma nova variante do mesmo coronavírus que causou o Sars” [4].

 

Com a sua sanha por lucros, o capitalismo invade a natureza, destrói a diversidade e a substitui pela homogeneidade genética; concentra humanos miseráveis aos bilhões e cria todas as condições necessárias para que pandemias venham a fazer parte do cotidiano da humanidade daqui para a frente.

 

O vírus da CODIV-19, por si só, não mataria tanta gente. Sem a ajuda do capitalismo, nenhum vírus teria este poder!

 

A pandemia, por isso, é muito mais uma criação humana do que um evento da natureza. De fato, precisamente, é uma criação do capital.


Por que agora?

 

Estamos ocupados com a COVID-19. Mas há muito mais ocorrendo no mundo.

 

Uma epidemia mata cavalos na Ásia e outra mata suínos na África; temos uma praga de gafanhotos na África e na América do Sul; o degelo nunca foi maior tanto no Polo Norte quanto no Sul, a Sibéria registrou temperaturas de 38 graus e o degelo do solo está fazendo construções e o oleoduto que transporta o petróleo de lá para a Europa, desabarem; um fungo está tornando este ano a neve dos Alpes cor de rosa, o que deve aumentara a temperatura e o degelo na região; a chikungunya, a dengue, a zika, a tuberculose, a febre amarela, a esquistossomose e a leishmaniose voltam a se expandir. A mais forte epidemia de Ebola acabou de ser controlada na África. Passarinhos morrem como nunca na Europa e abelhas estão morrendo em quantidade sem precedente na Europa e nos EUA. Eliminamos do planeta milhares de seres vivos a cada ano, muitos dos quais nem chegamos a conhecer direito. Os bancos de corais, os manguezais, as correntes marítimas, a concentração de gás carbônico nos oceanos... tudo está sendo afetado pelo modo como o capital trata o planeta. Até mesmo a varíola, que se julgava erradicada do planeta, volta a emergir na África e na Ásia. É mais do que provável que novas pandemias surjam e num espaço de tempo não muito longo.

 

Por que agora? O que está acontecendo?

 

Estamos provavelmente vivendo o que Engels denominava de salto qualitativo e que Lukács, com maior precisão, chamou de salto ontológico. Alterações que vão se acumulando terminam resultando em uma alteração da qualidade, uma alteração ontológica, da totalidade. Ao destruir o planeta e concentrar os seres humanos do modo como o fez, ao produzir uma miséria crescente e forçar os humanos a viverem nas cidades que cobrem o planeta, ao substituir a diversidade por uma homogeneidade genética insana – ao fazer tudo isso e muito mais, o capitalismo colocou toda a humanidade em uma situação histórica absurda. Temos o conhecimento e a riqueza para vivermos todos muito bem, mantendo o planeta em condições habitáveis aos humanos e, contudo, fazemos exatamente o inverso: promovemos a miséria e uma meio ambiente crescentemente hostil aos humanos.

 

É bem possível que estejamos vivendo o ocaso da humanidade capitalista. Um processo que pode ser mais longo ou mais breve, impossível se predizer. Contudo, a cada dia fica mais claro que a humanidade tem que optar entre sua sobrevivência e o capital.

 

Lembram quando, em 1844, um sujeito disse que ao destruir a natureza, os seres humanos destruíam a si mesmos, porque, afinal de contas, também somos parte da natureza? Pois bem, ele estava certo. Seu nome? Karl Marx.

 

Referências externas

[1] https://www.statista.com/statistics/263964/number-of-pigs-in-selected-countries/

[2] https://www.worldatlas.com/articles/how-many-chickens-are-there-in-the-world.html

[3] https://data.worldbank.org/indicator/SP.URB.TOTL.IN.ZS. https://inequality.org/facts/global-inequality/#global-wealth-inequality

[4] https://netnature.wordpress.com/2020/05/01/o-coronavirus-e-a-maior-falha-de-politica-cientifica-global-em-uma-geracao/

 

 

01/07/2020 - FHC, Lula, Dilma... Bolsonaro

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FHC, Lula, Dilma... Bolsonaro

 

Como se tornou possível um fenômeno como Bolsonaro? Não falo da onda conservadora, que é um fenômeno muito mais complexo do que Bolsonaro. Certamente, sem o conservadorismo em ascensão, dificilmente ele sequer seria imaginável. Contudo, sem eliminar essa relação, há uma autonomia entre estes dois fenômenos. A expressão do conservadorismo no Brasil não precisaria ter necessariamente a coloração bolsonarista, pois há conservadores mais capazes e competentes para dirigir o país em nome do capital.

 

Por que, então, Bolsonaro? Curso e grosso: por que os democratas o protegeram!
 

O início de tudo

 

O fim da Ditadura Militar assistiu ao surgimento de uma nova geração de militantes de esquerda, separada da antiga esquerda pela repressão política dos anos de 1968-76.

 

Com uma origem tão descentralizada quanto os movimentos populares e com um desenvolvimento tão local as lutas por escolas, creches, asfalto, saúde etc., talvez a sua marca ideológica mais significativa tenha sido um arraigado ecletismo e uma ignorância profunda. Foi uma geração para a qual a literatura revolucionária clássica permaneceu em larguíssima medida desconhecida, o conhecimento da história não ia além do mais básico, quando muito, e para a qual o conhecimento da filosofia se limitava a manuais como Os princípios fundamentais da filosofia, de G. Politzer.

 

Tal confusa e eclética concepção de mundo serviu de base a uma estratégia política que se queria revolucionária, mas era de fato conservadora. Ignorantes e ecléticos, o que poderiam os revolucionários sonhar em converter o capitalismo em socialismo pela mediação do Estado? Dois foram os autores decisivos, ainda nos anos de 1970: Regis Debray e Mao-Tse-Tung. O primeiro postulou que as classes dominantes latino-americanas tinham que implantar ditaduras porque não suportavam a democracia. Portanto, como a democracia seria incompatível com o poder das classes dominantes latino-americanas, conquistar a democracia seria, dialeticamente, a conquista do socialismo. Mao-Tse-Tung contribui com o texto “A nova democracia”. Seu argumento: a democracia em países coloniais era a antessala do socialismo, pois a miséria provocada pelo capitalismo era tão grande que as massas, ao entrarem na política pela democracia, expulsariam do poder os capitalistas e instalariam o socialismo. Debray somado a Mao dava a direção estratégia da nova geração de militantes: a conquista da democracia seria, de fato, a conquista do socialismo. Pela democratização do Estado chegaríamos ao socialismo!

 

Gramsci, Lefort e Boaventura de Souza Santos

 

Vieram os anos de 1978-1979. No primeiro semestre de 1978, o Movimento do Custo de Vida promoveu uma manifestação contra a carestia com mais de 5 mil pessoas na Praça da Sé, em São Paulo. 1975 já havia assistido à Missa Ecumênica pelo assassinato de Vladimir Herzog e, em 1976, o assassinado do operário Manoel Fiel Filho provocara outra significativa manifestação contra a Ditadura. O movimento estudantil se rearticulava. Mas foram as greves de 1978 e 1979, seguidas pela organização do PT e dos novos sindicatos que se reuniram na CUT, que alteraram a correlação de forças e colocaram os militares na defensiva. A transição para a democracia se tornou o problema central: a esquerda deveria ou não apoiar a Assembleia Nacional Constituinte, a qual se tornava a cada dia mais inevitável?

 

Foi neste processo que, da Universidade, veio a contribuição teórica que faltava para elevar a um padrão acadêmico o ecletismo e a ignorância da concepção de mundo que já vigorava na nova geração de militantes. Sinteticamente: Claude Lefort (com a contribuição da Marilena Chauí), em A invenção democrática (1983), contribuiu com a fantasia de que democracia seria conquista dos trabalhadores e que se caracterizaria por ser um regime em constante aperfeiçoamento, uma obra inacabada, enquanto o totalitarismo seria a paralisia histórica. Gramsci, trazido ao Brasil pela sua leitura reformista principalmente por Carlos Nelson Coutinho, conferiu um ar de esquerda às teses de que se deveria conquistar os altos postos de comando do Estado para se transitar ao socialismo. Apenas por uma “reforma revolucionária” das instituições, reforma que tivesse a “democracia como valor universal” (Carlos Nelson Coutinho, 1979), poder-se-ia transitar ao socialismo. Boaventura de Souza Santos colocou a cereja nesta torta ideológica: a via civilizatória só poderia ser um constante “democratizar da democracia” (2002).

 

“Iluminada” pelas luzes acadêmicas, a ampla maioria da esquerda terminou por confluir com a oposição burguesa e mesmo conservadora, oposição esta que já estava em amplas negociações com os ditadores. O acordo seria selado com a Constituição de 1988: o país passaria a ter uma democracia com a condição de que os grandes interesses econômicos e o aparato político-repressivo não fossem atingidos. Assim foi feito: transitamos para a democracia sob os auspícios dos ditadores.

 

5 mandatos presidenciais... e nada!

 

Passamos por Collor-Itamar, dois mandatos de Fernando Henrique, dois mandatos de Lula, um mandato de Dilma: 5 mandatos, deixando Collor-Itamar de fora! Em todos eles se manteve o acordo para se preservar o aparelho repressivo, os assassinos e torturadores e os arquivos secretos! Nada foi tocado! Todos os 5 presidentes foram perseguidos políticos. Dilma foi barbaramente torturada por Ustra. Não se tocou no aparelho repressivo, os criminosos contra a humanidade não foram sequer levados a julgamento!

 

Contudo, seria profunda injustiça afirmar que esses 5 presidentes nada fizeram. FHC criou uma indenização de 100 mil reais para os perseguidos, presos e torturados. Ao se aceitar a indenização monetária, renuncia-se ao direito de processar o Estado ou os membros dos órgãos de repressão. Lula ampliou a concessão do benefício, Dilma o generalizou ainda mais. Em poucas palavras, comprou-se, àqueles dispostos a vender, a renúncia ao direito de processar o Estado e seus torturadores e assassinos. A preservação do aparelho repressivo foi ativamente perseguida pelos governos democráticos. Com o apoio das forças mais significativas da “esquerda”, convém que seja lembrado, do PT ao PC do B, do PCB ao PSOL. Para não deixar dúvidas: a legislação repressiva mais dura depois da Ditadura foi obra... do governo Dilma, depois aprimorada por Temer!

 

“Democratizar a democracia” e reformar revolucionariamente o país pela conquista de elevados postos de comando do Estado não em deu em outra coisa: Bolsonaro no Planalto. Não desmontar o aparelho repressivo, não levar os torturadores à justiça, não processar os criminosos contra a humanidade apenas preservou figuras como o General Heleno (assessor do General Silvio Frota), o General Mourão e Bolsonaro para ocuparem o Planalto. “Democratizar a democracia” serviu, realmente e de fato, para manter no Estado os partidários da Ditadura.

 

Agora eles estão no Planalto.

 

As lições da história

 

A estratégia democrático-popular (que concebe o socialismo como resultado de uma transição por meio do Estado, pela democratização constante da sociedade) apenas resulta na vitória da reação. Em todos os lugares do mundo. Nos países imperialistas, a estratégia democrática que predominou sob o Estado de Bem-estar deu lugar ao neoliberalismo de Reagan, Thatcher e Trump. No Chile de Allende, deu em Pinochet. No Brasil, resultou em Bolsonaro. A lista poderia prosseguir. Desnecessário. Basta assinalar que nunca resultou nem em uma democracia mais profunda, nem sequer em uma distribuição de renda – para não falar na superação do capital.

 

Agora, essas mesmas forças que ativamente preservaram o aparelho repressivo do Estado querem que nos juntemos a elas para, numa nova frente democrática, nos opormos a Bolsonaro. Mas a qual preço? A primeira e maior finalidade desta frente é desmontar o aparelho repressivo do Estado, agora acrescido das milícias? Ou visa apenas colocar no Planalto um outro político para novamente negociar a sobrevivência do núcleo repressivo do Estado?

 

Bolsonaro só se tornou a expressão do conservadorismo porque os democratas o protegeram da justiça e o mantiveram como força política viva no interior do Estado. Tenhamos esta lição na mente, no confronto com o governo Bolsonaro. Temos que saber quem são nossos aliados e quais as forças que são aliadas dos nossos inimigos!

 

Uma questão fundamental, como dizemos, ficou sem ser tocada: quais as causas dessa onda conservadora na qual surfa Bolsonaro? Isso é uma questão para uma Newsletter futura.

 

 

20/06/2020 - O golpe de Estado de Bolsonaro

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O golpe de Estado de Bolsonaro

 

Restam poucas dúvidas, se alguma, de que no Planalto se prepara um golpe de Estado. Não bastassem a infiltração bolsonarista nas PMs estaduais e na Polícia Federal, nesta última inclusive com a colocação de pessoas de confiança do governo em centenas de postos de comando, tivemos também a publicação do manifesto do golpe, pela pena do General Mourão, no Estado de São Paulo do dia 15 de maio passado. É também indicativo desta possibilidade a mudança de tom dos comentaristas e noticiários da mídia burguesa, em que há cada vez mais frequentes alertas sobre o perigo do golpe, sobre a “ameaça que paira sobre a democracia” e sobre o perigo de manifestações violentas darem aos golpistas o pretexto que necessitam para uma “ruptura institucional”.

 

O núcleo militar do Planalto, que nos primeiros meses do governo parecia cumprir o papel de moderador dos arroubos de Bolsonaro e seus filhos, está hoje unificado ao redor do Presidente. Mudança de posição que não é difícil de se compreender se levarmos em consideração que entre Maia, que representa também a corrupção estatal institucionalizada, e as loucuras de Bolsonaro, o menos pior aos olhos de Mourão, de Heleno e outros pareça ser a trincheira do bolsonarismo. “Bolsonaro tem exacerbado a divisão interna do Exército, cuja disciplina e hierarquia vêm se desgastando. Muitos oficiais de escalão inferior apoiam Bolsonaro nas redes sociais. Quatro generais com cargos no governo, dois no serviço ativo, têm mais poder do que o comandante das forças armadas, seu superior.... Bolsonaro não parece forte o bastante para desencadear um golpe... mas [os democratas] estão certos em ficar alarmados.” (The Economist, no Estadão de 13 de junho)

 

Some-se a isto a situação imediata em que nos encontramos sob a pandemia. A falta de coordenação nacional torna a estratégia do afastamento social (a única que pode mitigar os efeitos do coronavírus) pouco eficiente, o que fornece ainda mais argumentos para o pequeno e médio empresariado (cuja sobrevivência depende da abertura da economia) contra os governos estaduais e municipais que perseguem a estratégia do isolamento. Esta circunstância colabora para que uma porção minoritária, porém não desprezível, da pequena burguesia se alie (ou ao menos tenha simpatias) pela abertura imediata da economia proposta por Bolsonaro. Ainda, um enorme contingente de trabalhadores, que depende da renda diária para sobreviver, não apenas não pode seguir o isolamento, como ainda depende cada vez mais da ajuda do governo federal para as despesas mais básicas. As esmolas federais, nesse momento, aumentam o apoio destes setores a Bolsonaro, um efeito similar ao que Lula conseguiu com o Bolsa Família.

 

Internacionalmente, ainda que o New York Times (o que significa em alguma medida o governo Trump) e o Financial Times tenham recentemente lamentado o perigo que corre a democracia no Brasil, o The Economist se coloca a favor de uma estratégia de enfrentamento da pandemia que preserve as economias imperialistas mesmo que ao custo de centenas de milhares de mortes nos países periféricos. Para financiar a crise das economias centrais é imprescindível a produção de mais-valia em países como o Brasil. Para nosso país, dessa perspectiva, o recomendável seria ativar a economia e manter o isolamento para os setores das classes dominantes. Que morram quantos trabalhadores for necessário para manter o sistema mundial do capital. Como diz o The Economist de 4 de abril, na pg.7, é preciso colocar um valor em dólar na vida humana! Na mesma direção apontam os artigos de Roberto Macedo, no Estadão, dos dias 7 e 21 de maio.

As debilidades da oposição são também um fator favorável ao golpe.


A oposição

 

Além das posições do Financial Times e do New York Times, acima mencionadas, nas últimas semanas uma aparentemente poderosa oposição se levantou contra o golpe, mais especificamente em defesa da democracia. Há de tudo. Desde o manifesto dos juristas que tem como epígrafe palavras de ninguém menos do que Karl Popper, até o manifesto dos 70% que propõe que todas as diferenças sejam colocadas em segundo plano pela unidade na luta contra o golpe de Bolsonaro. Ciro Gomes, Marina e Fernando Henrique Cardoso se manifestaram no mesmo sentido. Todos os grandes órgãos de imprensa, desde o Estadão até a Rede Globo, formam uma frente unida contra o golpe. Significativo, pois entre outras coisas tem um impacto sobre o preço que Bolsonaro deverá pagar aos deputados e senadores para conter o impeachment, a popularidade de Bolsonaro não para de cair, ainda que mantenha um núcleo de 25 a 30% da opinião pública a seu favor. Mas os outros 70%, cada vez mais nitidamente, viram suas costas ao governo. Ainda, nesta semana tivemos o início de uma coluna de Luis Trabuco, do Bradesco, no Estadão. Fosse ele favorável ao golpe, não assinaria uma coluna no Estadão. Talvez isto sinalize uma oposição ao golpe de setores decisivos do grande capital.

 

Esta situação parece indicar que, se o golpe vier e tomar o poder, no dia seguinte contará com uma vasta oposição, capaz de fazer estragos em um governo ditatorial, como o final da Ditadura Militar a partir de 1978-9 demonstrou. Contudo, tal oposição não é forte o suficiente para evitar o golpe. Por duas razões fundamentais. A primeira é que uma oposição apenas e tão somente aos aspectos político-culturais (o autoritarismo, o abandono das bandeiras ecológicas, a perseguição aos “minoritários” e, no caso de um golpe, some-se a isso a censura à imprensa, a perseguição política, as prisões etc.). E ela não pode ir além disso. Se a plataforma desta oposição se estender para incluir o que interessa de fato aos trabalhadores e operários (uma efetiva distribuição de renda, com uma também efetiva melhoria das condições de vida e de trabalho da maioria da população brasileira e assim por diante), corre-se o risco de todo o capital junto com seus órgãos de imprensa descobrirem “virtudes até então desconhecidas” de Bolsonaro e se aliarem aos golpistas. Uma plataforma democrática muito modesta que, digamos, proponha, a expropriação de 80% da riqueza dos 0,01% dos brasileiros mais ricos para financiar as típicas política públicas democráticas e burguesas, romperia a frente democrática. Por uma razão muito simples: coloca em questão a concentração de renda no país... e não é necessário que se diga mais nada!

 

Novamente a história recente pode nos dar uma lição: quando a oposição à Ditadura Militar deixou de ser administrável pelos generais? Quando as máquinas pararam e os operários entraram em cena, com as greves de 1978-9. Sem a participação dos operários, a frente contra Bolsonaro é frágil. Basta iniciarem as melhorias na economia para a grande burguesia e a pequena burguesia migrarem para o lado da ditadura, bem como parcela importante dos trabalhadores que passa a contar com mais empregos etc. De novo, o passado pode ser de alguma serventia: não foi durante a repressão mais forte e o conservadorismo mais arraigado que a Ditadura Militar teve sua maior popularidade?

 

Em segundo lugar, porque essa oposição carece de qualquer dispositivo militar que possa se contrapor ao golpe. Como é muito pouco provável que, uma vez dissolvidos o Congresso e o Supremo, a porção legalista das Forças Armadas venha a pegar em armas contra seus “irmãos” bolsonaristas, basta de fato um jipe com três soldados e um cabo para fechar o Supremo e um pouco mais para fechar o Congresso. Lembremos que há pouco, no dia 11 de maio, Maia explicitou sua posição: não é a democracia que está ameaçada, mas apenas a “democracia representativa”. O quer isso dizer senão que Bolsonaro é um democrata, apenas não um democrata “representativo”. A ditadura também não se afirmava como democrática?

 

Há, ainda, um terceiro fator a ser considerado.

 

Desde que tomou posse, jamais o governo Bolsonaro contou com a unidade interna que hoje possui. Dos militares da reserva e da ativa, até os ministros civis (a exceção parece ser a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina) finalmente a unidade de comando foi alcançada por Bolsonaro, ainda que a um preço elevado (Bebianno, Gen. Santos Cruz, Moro, Mandetta... até Regina Duarte). Sua aproximação ao que de mais pobre e corrupto possui o Centrão neutralizou no Congresso as iniciativas por seu impeachment e parece dotar o governo, pela primeira vez, de uma base parlamentar. E é a ala militar do governo que conduz esse “toma-lá-dá-cá”, Ao mesmo tempo, o aprofundamento das consequências da pandemia e da crise econômica tendem a diminuir a popularidade do governo. Terá também algum efeito sobre a população a revelação das investigações em andamento, o envolvimento de Bolsonaro desde com a produção das Fake News até com as milícias. Esta situação parece indicar que o tempo corre contra os golpistas, já que a popularidade do governo mostra uma tendência declinante. Por isso, se o golpe for vier, não deve tardar muito.

 

Se o golpe vier, como será?
 

Muito difícil se saber. Nem sequer os golpistas, que em alguma medida controlam o início do golpe, conseguem saber as suas consequências. Os golpes de Estado possuem sempre um elemento de aventureirismo e de imprevisibilidade. Ressalva feita, alguns indícios talvez possam ser apontados.

 

Quando um golpe de Estado rompe a hierarquia do poder institucionalizado, há um momento de caos. Mesmo entre os golpistas e de seus apoiadores organizados, muitas vezes não se sabe a qual autoridade obedecer. A falta de uma coordenação claramente estabelecida e a adrenalina que corre solta resultam, não raramente, em que as organizações locais ajam com grande liberdade e iniciativa. Os agrupamentos bolsonaristas, a maior parte deles armados e com munição de sobra (graças ao aumento dos limites de munição que podem comprar legalmente) provavelmente tomarão a inciativa local e a perseguição aos “comunistas” terá início. Em diversos locais, deve se esperar o envolvimento de milícias nesta perseguição. Não seria nenhuma surpresa se as listas dos “comunistas” elaboradas antecipadamente pelos agrupamentos locais sirvam para a perseguição, prisão e, no limite, mesmo execução de democratas, de feministas, de líderes dos ditos movimentos minoritários, de professores, jornalistas, militantes de todas as ordens etc. Como o bolsonarismo considera comunista os ministros do Supremo Tribunal Federal, os Mesquitas (do Estado de São Paulo), as principais lideranças católicas e judaicas, os petistas e psolistas e até mesmo os Marinhos da Rede Globo, não é difícil de imaginar a amplitude do arco político dos perseguidos.

Portanto, o que pode ser antevisto é uma pequena porção das Forças Armadas dissolvendo o Congresso e fechando o STF, bandos de bolsonaristas percorrendo as ruas em perseguição aos “comunistas” e unidades de censores ocupando as redações dos principais meios de comunicação. A seguir, a paralisia do restante das Forças Armadas que, se não concordam com o golpe, também não irão pegar em armas contra seus “irmãos” golpistas em defesa desta democracia —de fato e realmente -- podre de corrupta.

 

Algumas semanas após, o golpe entrará em uma nova fase. Frente à gigantesca oposição, alguns preferirão uma estratégia mais moderada, de modo a atrair os setores oposicionistas “menos radicais”. Outros defenderão uma repressão até às últimas consequências. As forças golpistas se dividirão e sua parte preponderante tenderá a sufocar a outra. Isto, em alguma medida importante, determinará a estratégia da ditadura nos seus primeiros meses de vida.

 

O que virá a seguir, depende de tantos fatores que é impossível qualquer previsão que não seja o mais puro exercício de adivinhação. Como sempre, o momento predominante desta evolução deverá ser o desenrolar da crise econômica. Junte-se a ela a pandemia, a crise ambiental, o aprofundamento da crise estrutural mundial do capital etc. e todos os eventos imprevisíveis que trarão...

 

Os revolucionários

 

Contudo, apesar destas incertezas, a experiência da luta revolucionária tem algo a dizer no enfrentamento de situações deste tipo.

A esquerda em geral está profundamente exposta e será muito rapidamente desbaratada,

 

Seu descompromisso para com as questões de segurança a conduziu a uma situação de extrema fragilidade. Forjou uma geração de militantes de comportamento liberal e que tratam a internet como se fosse um espaço seguro para troca de informações. Até as fotografias das reuniões são divulgadas e o Facebook se encarrega de rastrear as relações sociais para a repressão. As regras mínimas de segurança são desconhecidas da ampla maioria dos militantes. O livro do Cid Benjamin, lançado no ano passado, O Estado policial e como sobreviver a ele é, neste contexto, da maior importância, bem como os relatos da repressão como A casa da vovó, de Marcelo Godoy (tem no site da Library Genesis) e a biografia do torturador Sergio Paranhos Fleury, por Percival de Sousa (Autópsia do Medo). Conhecer a história dos golpes também ajuda (por exemplo, os primeiros dois volumes de As ilusões armadas (também na Library Genesis), por Elio Gaspari, ou a Pequena História da Ditadura Militar, de José Paulo Netto).

 

Três passos básicos são a cada dia mais urgentes:
 

  1. Ter a certeza de que as organizações estão infiltradas e que os endereços de e-mails estão todos comprometidos. Adotar um esquema de compartimentação das informações e montar um esquema de comunicação seguro, a partir do emprego de VPN, com o navegador Tor e com e-mails critptografados (Tutanota, Protonmail etc.) é o primeiro passo. Os celulares são a todo momento rastreados, não pelo chip mas pelo número do imei. Deve se ter isto em vista quando se articula uma rede segura de comunicação.
     

  2. O militante que se encontrar exposto precisa construir sua ponte de retirada. Deve ter um lugar para se abrigar, ao menos por alguns dias, e ter algum dinheiro consigo. Cartão de crédito e caixa automáticas serão impossíveis de serem empregados. Cada caso é um caso, claro. Difícil uma regra geral. Mas o bom senso é sempre importante.
     

  3. Facebook, Instagram, Whatsapp, Gmail, Hotmail, Yahoomail etc. são fontes de informação preciosas para a repressão. Sempre que conduzam à identificação de militantes, as contas devem ser o quanto antes apagadas, os e-mails cancelados, os perfis no Facebook, Instagran devem ser deletados etc. Tendo em vista que, mesmo depois de deletados, os dados permanecessem por meses nos servidores, esta medida deveria ser tomada o mais rapidamente possível.
     

  4. Por fim, tal como “salada e canja de galinha não fazem mal a ninguém”, quando se trata de segurança política, o exagero é prudência... Não há exagero quando se trata de segurança!
     

Lembremos o início deste artigo: o mais provável é que os golpistas não tenham força para tomar o poder. O mais provável, ainda, é que não tenhamos um golpe de Estado que seja capaz de sobreviver por muito tempo. Mas o perigo nunca foi maior e se proteger é algo sensato. Como diz o The Economist, os democratas “estão certos em ficar alarmados” e os revolucionários precisam se preservar.

 

 

03/06/2020 - Bolsonaro: a racionalidade da insanidade

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Bolsonaro: a racionalidade da insanidade

 

Estamos assistindo a mudanças significativas no Brasil. A qualidade destas mudanças não é ainda inteiramente clara, mas há vários indícios de que, se o processo de impeachment de Bolsonaro está ao menos momentaneamente paralisado, a organização de um “auto-golpe” está em pleno andamento. Hoje, suas possibilidades de sucesso são pequenas, contudo são bem maiores que há uma ou duas semanas atrás.

São conhecidas as manifestações de Bolsonaro, da “família imperial” e dos bolsonaristas a favor de uma ditadura. Não há necessidade em repassá-las aqui. Quatro fatos, contudo, merecem ser salientados.

 

O primeiro é a afirmação de Dias Toffoli, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, de que não é a democracia que está em questão, mas a “democracia representativa” (o que seria uma democracia não representativa? Não era assim que alguns partidários da Ditadura Militar definiam o regime?). O segundo fato é a subida de tom de Bolsonaro. Na reunião ministerial do dia 22 de abril, véspera da queda de Moro, Bolsonaro postulou que “o barco está afundando”, que não vai permitir que as investigações que comprometem a ele e seus filhos prossigam. Na mesma reunião são acolhidas as teses de que a pandemia é uma estratégia chinesa para dominar o mundo, de que a cloroquina é “o” remédio e de que o Supremo não passa de um bando de salafrários. Cai Ministro, cai ministro, cai ministro... cai Regina Duarte!!... Bolsonaro ataca os governadores e conclama os empresários a atacarem Dória (seu mais sério adversário em 2024).

 

O terceiro fato é Fernando Henrique Cardoso anunciando o perigo de os militares no governo gostarem do poder e, dias depois, o General Mourão em longo artigo no Estadão apoia Bolsonaro – que já havia declarado “o Exército está conosco”. As razões da crise, segundo Mourão, estariam no desrespeito à autoridade (pelo Supremo, pelo Congresso, pela imprensa, pelas “personalidades”) ao Presidente eleito. A insanidade de Bolsonaro não é problema... e, de fato, talvez não seja mesmo, como argumentaremos.

 

O quarto fato é o clamoroso silêncio do grande capital: a Folha e o Estadão, dia sim dia não, solicitam que o “PIB nacional” entre na luta contra Bolsonaro. A resposta veio em um longo artigo de Roberto Macedo (A pandemia e a saúde da economia) no Estadão de 21 de maio defendendo uma posição muito próxima a Bolsonaro, qual seja, a abertura da economia apesar do coronavírus. A estratégia proposta parece ser a de preservar os melhores leitos nos melhores hospitais para as classes dominantes, para as quais vale também a política de isolamento. Para os trabalhadores (Bolsonaro: “lamentamos”), abertura da economia e que morram quantos tiverem que morrer.

 

Enquanto houver democracia representativa, nem a “mão de Deus” será capaz de ajeitar o país, parece ser uma boa súmula do que estamos assistindo. Nossos ditadores – e também Pinochet! – não se diziam democratas? É “guerra”, Bolsonaro avisa. Os militares no governo se alinham a ele. O grande capital se cala. Os trabalhadores não se mexem. O “autogolpe” de Mourão está no ar...


Nero e Bolsonaro

 

Por vezes personalidades fronteiriças com a loucura se mostraram as mais adequadas. Nero, na antiga Roma, é o caso mais conhecido. Bolsonaro pode vir a se tornar mais um exemplo clássico.

 

O Presidente está convencido de que, pelas mãos de Deus, colocará o país “nos trilhos”. Ainda pelas mãos de Deus, serão esquecidos tanto suas ligações com as milícias, os investimentos de seus filhos em prédios clandestinos construídos em áreas controladas pelas milícias, a evolução do seu patrimônio pessoal, sua proximidade de vizinho com Ricardo Lessa que tinha mais de uma centena de fuzis na residência e está envolvido no assassinado da Marielle. Também espera que será esquecido do “toma-lá-dá-cá” com o que há de mais corrupto no Centrão.

 

A insanidade de Bolsonaro está custando e irá custar milhares de vidas. Economicamente, para não falar da saúde pública, teremos um desastre. Tomemos como exemplos Toledo, no Paraná (frigoríficos), a Baixada Santista (polo petroquímico), Toritama, em Pernambuco (confecções). Basta o vírus chegar para paralisar estes centros produtivos. Quando as mortes começarem a se acumular, quantas famílias buscarão refúgio em lugares menos infectados, levando para lá o vírus? Quem será louco de ir trabalhar quando os colegas caírem doentes e morrerem sem assistência médica? Quantos terão que ser substituídos por trabalhadores que ainda precisarão serem treinados? Quantas linhas de produção ficarão sem seus insumos básicos? O estrago nas plataformas da Petrobrás é bom indicativo. Quantas delas já estão paralisadas? Se não fosse a queda da demanda, o impacto econômico seria ainda mais grave.

 

Ao invés de centros de apoio, da assistência financeira direta e imediata, cestas de alimentação distribuídas gratuitamente de porta em porta para ajudar as famílias a permanecerem em casas nos bairros mais pobres, mobilização das Forças Armadas e dos meios de comunicação para uma ampla campanha pelo isolamento, -- ao invés destas medidas que poderiam salvar vidas, o que Bolsonaro organiza são manifestações semanais pelo fechamento do Congresso e do Supremo e incita ao desrespeito ao isolamento social e ao emprego da cloroquina. Num cálculo por baixo, vingando a estratégia de Bolsonaro, teremos cerca de 5 milhões de pessoas solicitando assistência médica, os mortos serão entre 120 e 250 mil.

 

Bolsonaro não tem apenas uma Roma, tem um país inteiro, para destruir.


Viva o mito!

 

Países como o Brasil são fundamentais na estrutura do capital mundial. Primeiro, pela natureza ainda virgem que pode ser transformada imediatamente em mais-valia. Segundo, pela força de trabalho barata, domesticada e dócil ao capital. Terceiro, por contar com uma classe dominante inteiramente integrada e subordinada ao sistema do capital mundial e, ainda, por termos um Estado (que, hoje, inclui também os sindicatos) que mantém sob rígido controle os trabalhadores e operários. Para que a Europa, os EUA, a China etc. possam minorar a crise econômica e os seus mortos, é imprescindível que se mantenha a produção em países como o Brasil.

 

Um país como a Alemanha adota este critério: quantos precisamos salvar da morte para que a economia se rearticule o mais rapidamente possível? Este número é determinado em função da economia, não da saúde das pessoas, bem entendido. Ainda assim, é claro que quanto maior a mortandade, maior o tempo para a economia se recuperar.

 

Como nossas classes dominantes são essencialmente sócias minoritárias do capital internacional, suas sobrevivências dependem da eficiência com que servem os países capitalistas centrais. Com a indústria automobilística, por exemplo, produzindo 99% a menos durante o mês de março, a “utilidade” das nossas classes dominantes para com o imperialismo é duramente colocada em questão. Por isso o critério no Brasil precisa ser um tanto diferente do critério adotado, digamos, na Alemanha: quanto precisamos produzir para não perder nossa privilegiada (somos a décima economia mundial etc.) posição de subalternidade no sistema do capital? Em função disso (“lamentamos”, diz Bolsonaro), quantos precisarão morrer?

 

Esta lógica não é apenas a lógica do governo, é também a lógica do capital (e, portanto, é também a vontade dos grandes capitalistas) instalado no Brasil. Bolsonaro, portanto, tem razão! Neste andar da carruagem, é provável que os capitais abandonem o Brasil! O que ocorreu na Argentina nas últimas décadas do século passado é um fato aterrador! É preciso (“lamentamos!”) reativar a economia, custe o que custar. Para as classes dominante, a morte de centenas de milhares de trabalhadores é tão lamentável quando inevitável! Daí a força de Bolsonaro, daí o silêncio dos grandes empresários (do PIB nacional, dizia um articulista do Estadão) quando se trata do impeachment, daí a posição de Mourão pró Bolsonaro, daí o artigo do Roberto Macedo no Estadão de 21 de maio, daí o predomínio da insanidade de Brasília sobre o país.

 

Contudo, nunca antes a reprodução do capital requereu o sacrifício de tantas vidas. Por que isso e por que agora?

 

O insano se torna racional

 

No século passado, assistimos à produção de uma enorme abundância gerada pela não menor expansão do capital (tanto sob sua forma clássica, quanto sob sua forma “soviética”, “pós-revolucionária” - Mészáros) a todos os cantos do planeta. Como resultado, ainda hoje a capacidade produtiva aumenta mais do que o consumo. Isto inviabiliza o mercado. A oferta estruturalmente maior do que a procura derruba os preços, a produção se inviabiliza e a crise se instala. Chegamos ao “absurdo” de bancos pagarem para quem deles empresta, as petroleiras pagarem para quem comprar delas petróleo...

 

Para “deslocar” essa contradição, impõem-se o imperativo: ampliar o consumo a qualquer custo. O que implica inescapavelmente em:

 

1) rebaixar o valor da força de trabalho, principalmente com tecnologias que aumentam a sua produtividade. Com isso cresce o desemprego, compromete-se a capacidade de consumo e a contradição se aprofunda;

 

2) ampliar o consumo destrutivo, quer pelo aperfeiçoamento da obsolescência planejada, quer pelo desenvolvimento do complexo industrial-militar (e das guerras) e do complexo médico-hospitalar (não apenas laboratórios, planos de saúde etc., como também pela criação de doenças com suas terapias). Temos assim o aumento dos gastos militares dos gastos com saúde, gerando enormes lucros, mas também, multiplicando as dívidas públicas. Aqui também a contradição se aprofunda com o tempo;

 

3) “eficientemente” transformar a natureza (a “mãe de toda riqueza”, Marx) em mais-valia. A destruição do planeta é em um impulso crescente e incontrolável. Resultado: várias epidemias e crises ecológicas. Além do Coronavírus, Ebola, H1N1, HIV etc.; a epidemia que está matando como nunca cavalos na Ásia, uma praga de gafanhotos no Kenya, uma mortandade nunca vista de abelhas na Europa e nos EUA, um desmatamento que se acelera na Amazônia, o mês de março mais quente da história, o degelo recorde nos dois polos, um aumento da fome que deve matar 265 milhões de pessoas até o final de 2020, incêndios gigantescos na Austrália, na Califórnia e em Portugal que devem se repetir neste ano impulsionados pelo aquecimento global... A lista poderia prosseguir! O planeta está no limite de se tornar inabitável por humanos.

 

O problema da atual pandemia não está em que as pessoas consomem animais silvestres. Se matarmos todos os animais silvestres, as pandemias se tornarão ainda mais frequentes e intensas. A forma como o capital se apropria da natureza, gera, por exemplo, uma concentração de animais e plantas geneticamente idênticos. Tal concentração é tudo o que uma mutação biológica necessita para gerar novos vírus que terminarão contaminando os humanos. O modo de produção capitalista se tornou essencialmente (ou seja, não pode ser outra coisa) um criadouro de vírus e de epidemias. Para não falar de câncer, doença de Alzheimer, demência, obesidade e diabetes, depressões, doenças profissionais de todos os tipos e assim por diante.

 

O que é necessário para manter o capital se reproduzindo? Atacar todos os sintomas e deixar a causa intocada. Não é isso o que a melhor ciência faz, hoje? Estudam a pandemia para controlá-la. Raramente, se alguma vez, os cientistas se perguntam pela causa da pandemia. Se os chineses deixarem de comer os animais silvestres, as pandemias terminariam? Evidentemente, não: a causa é a produção destrutiva de humanos e da natureza (ou, o que é o mesmo, da natureza e dos humanos), a causa é o capital. Todas as soluções propostas pelos governos significam que a causa da pandemia permanecerá intocada. Para os capitalistas, decidido está nosso futuro: mais do mesmo! Morram quantos forem preciso!

 

Bolsonaro: a alternativa!

 

Para permanecer tudo no mesmo, um país subordinado como o nosso deve produzir a todo custo. É assim que a insanidade de Bolsonaro expressa a necessidade essencial do capital na particularidade do Brasil. Poderia se ter no governo uma pessoa menos insana? Provável que sim. Contudo, Maia (ou Mourão), Lula ou Ciro Gomes, com uma menor insanidade aparente, fariam essencialmente o mesmo cálculo: quantos precisamos matar para que nossas classes dirigentes mantenham seu lugar de subordinação na ordem mundial? Ou, como dizem, “o capital internacional não abandonar o país”?

 

É isto que explica porque Mourão apoia Bolsonaro, porque a guarda pretoriana cerrou fileiras com a “família imperial”. É isto que explica o silêncio do grande capital e o sustentável apoio de 30% da população a um governante claramente maluco. “É uma guerra!”, anunciou o Nero em Brasília. Tem ele razão. Tem também razão em avaliar que o “barco está afundando”! Não é hora de vacilar! Cresceu a possibilidade de uma “ruptura institucional”. Que morram quantos devam morrer pela Pátria!

 

A Pátria não somos nós (nunca fomos). A Pátria é o Deus capital.

 

A insanidade de Bolsonaro, hoje, não é só problema, é também uma possível solução. Um golpe de Estado não está fora do horizonte, desde que seja a melhor solução para a equação: quantos mataremos para manter o sistema girando? Daí a resiliência de Bolsonaro, daí o apoio que recebe dos militares, daí o silêncio dos empresários, dos sindicatos, do PT e o acovardamento dos nossos intelectuais acadêmicos.

Algumas pessoas têm me procurado para esclarecer o que seria a crise estrutural, segundo Mészáros. Um ótimo exemplo são esses dias de abril-maio no Brasil. A insanidade de Bolsonaro tem razão de ser e é ela, justamente ela, o fundamento da sua permanência em Brasília. Bolsonaro fica no poder porque é insano, não o contrário! Crise estrutural? Esta é uma de suas manifestações: o racional é a irracionalidade absoluta! Na produção e no mundo das ideias.

 

Saída? Só há uma, superar o capital.

 

Mészáros estava coberto de razão, já em 1983!

 

 

16/05/2020 - Que futuro estão nos preparando?

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Que futuro estão nos prepara?

 
Alguns aspectos da crise estão se tornando mais evidentes com o passar das primeiras semanas. O primeiro deles é que está se revelando completamente falha a expectativa de que ela seria uma crise de alguns meses e que logo voltaríamos ao que o mundo era em dezembro do ano passado. Mesmo que tenhamos, em uma hipótese otimista, uma vacina ou remédio que funcionem, ainda assim a desigualdade de riqueza e desenvolvimento no planeta tornará impossível a eliminação do vírus em alguns anos. Teremos, por isso, seguidas ondas, com clusters que explodirão mesmo nos países mais desenvolvidos. O futuro da pandemia parece ser uma sucessão de ondas, estamos vivendo apenas a primeira.

O segundo aspecto é que a doença é mais grave do que se calculava. Indícios se acumulam de que ataca o fígado, os rins, o sistema circulatório de crianças, resulta em AVCs nos mais jovens. E nada indica que a imunização seja completa ou prolongada após a infecção. Pode ser como a gripe, ou a dengue, que se pode pegar seguidas vezes. Se isto se confirmar, a amplitude das ondas será ainda maior.

O terceiro aspecto é que a crise do setor financeiro e produtivo será prolongada e profunda. Mesmo que (otimismo nas nuvens) as economias centrais, Europa, Estados Unidos, China e Japão, voltem a produzir em um ritmo razoável no segundo semestre, a paralisia da produção no restante do planeta impedirá uma recessão global. O que os governos estão fazendo, Brasil inclusive, é gastar o que não têm, gerando um crescimento assombroso das dívidas públicas. O futuro é um desequilíbrio fiscal que deverá ser coberto, a curto prazo, por emissão de moedas. A médio e longo prazos, não se tem ideia de como o sistema poderá se equilibrar sem uma catástrofe financeira que feche os bancos e as bolsas de valores mundo afora. A edição europeia do
The Economist de 9 de maio faz um alerta neste sentido.

O quarto aspecto é que as desigualdades tenderão a aumentar, em um mundo que já é o mais desigual de toda a história da humanidade. O complexo farmacêutico-hospitalar nada de braçadas na crise. Remédios cujas produções custam 5 dólares são vendidos a mais de 18 mil dólares, o preço dos equipamentos hospitalares aumenta toda semana, a busca de uma vacina, com pesquisas sempre financiadas pelo Estado ou por instituições públicas, já é uma concorrência entre diversos capitais e países e promete uma elevadíssima lucratividade. Com a crise de setores importantes da economia (petróleo, automóveis e autopeças, confecção, vidro, papel e celulose, serviços em geral etc.), há uma concentração de capital em outros setores. O crescimento da Amazon está fazendo história.

 
Para onde iremos?

Há já alguns anos, principalmente desde as denúncias de Julian Assange e Edward Snowden, não é mais segredo que os Estados estão desenvolvendo mecanismos de controle dos indivíduos através de sofisticados softwares e do desenvolvimento da informática e da internet. O Estado chinês, neste aspecto, está na dianteira. Seu sistema de controle das pessoas, dos hábitos, costumes e deslocamentos, tem se mostrado eficiente controle não politicamente, mas também no plano econômico.

A estabilidade do atual sistema econômico é, agora, inserida como parte da segurança nacional e, nesta medida, tanto os hábitos de consumo quanto as opiniões acerca do governo são, igualmente, questão de segurança nacional. Recentemente o site ExpressVPN noticiou que o governo chinês estava investigando pessoas que tinham o hábito de deixar a casa pela porta dos fundos, pois possui opiniões negativas do governo proporcionalmente uma parte maior destes indivíduos do que a população em geral. Essa vigilância é feita em todas as casas, em todos os quarteirões, por câmeras de segurança, drones e coisas do estilo. Muitas vezes, com a colaboração da população, que instala câmaras e redes de segurança conectadas à internet para segurança familiar ou da propriedade. Grande parte destas tecnologias são desenvolvidas a serviço do complexo industrial-militar, desde os programas de reconhecimento facial até os drones que fazem entrega pela Amazon e outras empresas etc.

Alguns destes mecanismos de controle já estão incorporados no nosso dia a dia no Brasil. Os apps de trânsito, que nos indicam a rota a seguir, servem também para distribuir os veículos pelas ruas e avenidas, diminuindo o trânsito e aumentando a eficiência do transporte em geral. Mas, também, fornecem informações de como usamos o carro, por onde passamos, com que frequência fazemos tal trajeto e assim por diante. Nossos cartões de crédito fornecem, ao Estado inclusive, todos nossos hábitos de consumo e, ainda, nossa localização. Por vezes, quando solicitados, em tempo real. Nossos dados médicos privados são compartilhados com as seguradoras de saúde... a lista é considerável. O Windows 10, que se generaliza entre os computadores, envia para a Microsoft tudo o que aparece na tela do computador (desde as senhas que são digitadas, até os sites que são visitados, desde os textos escritos até as mensagens e fotos trocadas, etc.). Os celulares podem ter suas câmeras e microfones acionados remotamente, mesmo estando desligados – e isso é feito regularmente pelos governos.

Com a pandemia, estas empresas e estas tecnologias estão se apresentando como “a” alternativa para se administrar um novo mundo com tamanha insegurança sanitária. O problema está na passagem de vírus dos animais silvestres para os seres humanos devido à insana destruição do planeta promovida pelo capital? Então adota-se um mecanismo de controle para localizar logo no início os novos vírus com programas que mostram o contato das pessoas, de tal modo que automaticamente teríamos o caminho do vírus e quem e quanto deveria ser isolado para que o vírus seja controlado. Não se altera em nada a destruição do planeta, pelo contrário, mantém-se o caráter destrutivo, alienado, da sociedade burguesa. Com as novas tecnologias e os novos controles, o capital mantém sua acumulação, as desigualdades sociais aumentam, as misérias se tornam cada vez maiores apesar da produção crescente e, caso tenhamos revoltas e revoluções, o controle sobre os indivíduos somado ao desenvolvimento do complexo industrial-militar é um bom mecanismo para enfrentar as ameaças à segurança nacional. Com o Home Office obtêm-se uma enorme vantagem. Enquanto o custo do ambiente de trabalho passa a ser o da casa do trabalhador, uma enorme economia para a empresa, ainda toda comunicação entre os trabalhadores passa pela internet e pode, assim, ser vigiado em tempo real. O isolamento deixa de ser apenas físico, passa a ser também o isolamento de ideias e opiniões: a censura levada ao extremo de controlar toda a comunicação entre os trabalhadores.

Naomi Klein, em um artigo republicado no dia 13 de maio último no
The Guardian, narra o quanto as grandes empresas como a Google, a Microsoft, a Oracle, a Apple etc. estão pressionando o governo americano para duplicar as verbas empregadas no desenvolvimento e no emprego destas tecnologias e o quanto estão se esforçando para se apresentar à sociedade como a melhor ferramenta para controle das pandemias e, portanto, de manutenção da economia. O fato de que a economia já vinha a caminho de uma enorme crise mesmo antes do Coronavírus, o fato de que a desigualdade não para de crescer e as tensões sociais só aumentam, o fato de que a humanidade está se suicidando como nunca, pois não mais se aguenta viver nesta civilização tão desumana, nada disso tem qualquer importância. A aposta das grandes empresas do complexo industrial-militar e dos gigantes da comunicação e da informática é uma sociedade que tenha o controle da vida cotidiana de todos nós de tal modo a manter o que já existe. Maior tecnologia, melhor comunicação, internet mais rápida, melhor controle das pessoas, maior controle dos novos vírus ... teremos apenas o mais do mesmo!  A entrada das tecnologias 5G parece ser um salto tecnológico indispensável e que deve se generalizar nos próximos poucos anos. Em troca deste mecanismo de controle, requerem de nós a concordância para a manutenção e aprofundamento da essência do capital. Mais destruição do planeta, mais desemprego, miséria e depressão, mais pessoas famintas, mais doenças e mais repressão: enquanto os 1% mais ricos dos EUA aumentaram sua participação na riqueza daquele país em 10% nos primeiros três meses da crise, esta mesma crise ameaça matar de fome 265 milhões de pessoa planeta afora só neste ano. Este é o mundo que o capital preparando para nós.

Será este o mundo em que queremos viver?

 

 

01/05/2020 - A crise do governo Bolsonaro​​​​​​​

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A crise do governo Bolsonaro

 

Hoje parece mais provável que Bolsonaro sofrerá um impeachment. Terminar seu mandato parece o menos provável.

 

Lembremos o pano de fundo desta crise: a crise estrutural do capital que se agravou a partir de 2008, acirrando ainda mais concorrências entre os burgueses pela mais-valia produzida pelos trabalhadores e operários; a ausência da classe operária e dos trabalhadores na luta anticapitalista, o que abre um amplo campo de manobras para as classes dominantes e seus aliados; e, por fim, a atual crise que articula, como forma e intensidade inéditas, uma crise financeira com uma paralisia do setor produtivo graças à pandemia. Tratamos de vários destes aspectos nos podcasts do Coletivo Veredas, cujo site tem também reunido artigos e textos sobre a crise atual.

 

Quando as consequências da crise de 2008 atingiram a economia brasileira, o “desenvolvimentismo petista” entrou em crise. Lembremos sua essência: uma aliança com setores da burguesia no Brasil para, com financiamentos estatais, criar empresas multinacionais sediadas no país e, com isso, como deliravam, elevar o Brasil ao “Primeiro Mundo”. Graças ao aumento dos preços das commodities no mercado internacional, por vários anos houve recursos para tocar esta política, favorecer os aliados dos petistas e, ainda, atender as demandas do restante do grande capital. Eram os anos em que Lula era uma unanimidade nacional e “o cara” de Barack Obama.

 

Com a crise de 2008, os recursos diminuíram, e o PT priorizou alguns setores da burguesia em detrimento do seu conjunto. Os petistas imaginavam que a crise seria breve. Decidiram, então, favorecer os setores do capital que seriam também os mais fiéis ao governo porque dependiam do Estado (infraestrutura, grandes construções, casas populares e grandes eventos como a Copa do Mundo etc.). E, em Brasília, optaram por fortalecer a aliança com os setores mais corruptos do Congresso e da burocracia estatal (o estamento político-burocrático). Por serem forças também diretamente dependentes das verbas estatais para suas negociatas e corrupções, deveriam ser aliados fiéis de quem estivesse no Planalto. Temer, por isso, foi elevado à vice de Dilma. Sabiam os petistas que passariam a contar com a oposição de setores importantes do grande capital (as indústrias automobilísticas, mecânicas, papel e celulose, químicas, os grandes bancos etc.). Mas como imaginavam a crise como de curta duração, avaliavam a aliança com o estamento político-burocrático e os setores do capital por eles privilegiados seria suficiente.

 

A crise hoje ainda não terminou! A oposição da maior parte do capital se tornou irresistível. Veio a Lava Jato, o impeachment da Dilma e a prisão de Lula.


A força do estamento político-burocrático

 

No último ano do governo Dilma, cerca de 46% dos investimentos na economia foram feitos pelo Estado ou por ele financiados. Como é o estamento político-burocrático que controla a alocação desses recursos, quem quisesse verbas federais deveria estar disposto a deixar parte delas com os burocratas e políticos. Sob o PT, o “mecanismo” do esquema de corrupção entrou em funcionamento pleno. “Desviou” cerca de 290 bilhões de reais no ano de 2015, quando no mesmo ano o montante de impostos que o Estado abriu mão, sob a forma de subsídios para o capital, era da ordem de 350 bilhões.

 

Enquanto os petistas atendiam ao capital como um todo, este custo da corrupção não era um grande problema para os burgueses. Mas quando, com a crise de 2008, faltaram recursos e eram atendidos apenas aqueles setores aliados aos petistas, o grande capital reagiu. Seu instrumento foi a Lava Jato. Dilma caiu e foi substituída por Temer. O núcleo duro da burguesia aliada aos petistas foi preso, bem como vários de seus operadores, de doleiros a Cunha e Lula. O estamento político-burocrático perdia a cada nova rodada de batidas policiais seus principais articuladores. Nas eleições de 2018, a mesma que elegeu Bolsonaro, sofreu uma grande derrota quando seus principais líderes não foram reeleitos. Bolsonaro prometia levar até o fim a luta contra a corrupção e a colocar o Brasil nos trilhos olavistas. Parecia que o grande capital iria conseguir seu objetivo: reduzir significativamente a corrupção e garantir uma política econômica neoliberal sem os privilégios dos aliados dos petistas.

 

O impressionante, entre a eleição em outubro de 2018 e março de 2019, foi a rapidez com que se rearticulou o estamento político-burocrático. O grande nome desta rearticulação foi Rodrigo Maia, que terminou eleito para presidente da Câmara dos Deputados. Para colocar Bolsonaro sob algum controle, evitar seus arroubos mais tresloucados ou, pelo menos, minorar suas consequências mais negativas e, por outro lado, para também não deixar prosperar uma certa visão desenvolvimentista similar a dos petistas que podia ser vislumbrada entre os participantes do núcleo militar do governo, o único ponto de apoio possível para a burguesia era o Congresso. Ao mesmo tempo, para aprovar as medidas e decretos que Bolsonaro planejava, também era indispensável que contasse com alguma base no Congresso Nacional. Maia e o Congresso passaram a ser, assim, importantes tanto para o grande capital quanto para o governo. Conseguiram, desta forma, a sua primeira grande vitória. Impuseram um acordo: o estamento político-burocrático não roubaria tanto quanto outrora, mas continuaria a existir; a política econômica seria voltada ao conjunto do capital e não apenas a alguns de seus setores e Guedes garantiria o avanço do neoliberalismo. Teve início o fim da Lava Jato.

 

Quem fora pego, continuaria nas malhas da Justiça, mas nenhum outro político ou burocrata importante seria perseguido, a começar pela família Maia, pai e filho. Era, agora, preciso enfraquecer Moro. O Supremo deu sua ajuda, a Lava Jato foi sendo dissolvida, Bolsonaro boicotou as reformas de Moro junto ao Congresso e as coisas pareciam se encaminhar para alguma normalidade.

 

Importante lembrar que os governos petistas foram também a etapa final da conversão dos sindicatos e centrais sindicais em instituições paraestatais. As verbas federais tornavam-nos independentes de suas bases. Se converteram em correias de transmissão do Estado sobre os trabalhadores e operários. Agora, enfraquecidos, sem um forte movimento em suas bases, sofreram um duro golpe. Temer acabou com o imposto sindical e, desde então, os sindicatos e centrais pensam apenas em como recuperar suas receitas. Os interesses dos trabalhadores e operários, que há muito já não importavam, foram definitivamente abandonados. Estava garantido que da parte dos sindicatos e centrais dos trabalhadores não viria mais nenhuma ameaça à ordem.

 

Deste acordão, o que escapou ao controle foram dois elementos. A loucura de Bolsonaro. E a pandemia que aprofundou a crise econômica que já vinha se anunciando desde final de 2018.

 

O tresloucado e a crise

 

Desnecessário discutir o quão tresloucado é o Presidente. O seu comportamento tornou Maia e o estamento político-burocrático imprescindíveis para aprovar as reformas que o grande capital almejava, principalmente, mas não apenas a da Previdência. Guedes e Maia, contra Bolsonaro em muitas oportunidades, se tornaram os interlocutores junto ao grande capital. O estamento político-burocrático tinha cada vez mais força para enfraquecer Moro e desmontar a Lava Jato. Era o preço para tocar as reformas que interessava ao capital e cortar as asas de Bolsonaro. Passamos a ter um Parlamentarismo branco, com o Congresso de fato ditando as regras do jogo, muitas vezes em aliança com Guedes, outras vezes contra o próprio Guedes. Mas sempre ocupando o lugar que deveria ser do Executivo e sempre enfraquecendo Moro.

 

A sociedade burguesa torna universal a concorrência entre os indivíduos. Em Brasília, isto é elevado à quinta-essência nas infindáveis disputas entre deputados, senadores e burocratas. As fraquezas do clã Bolsonaro, entre elas suas ligações com as milícias no Rio de Janeiro, foram sendo exploradas sem dó nem pena. As investigações, segundo o Intercept Brasil, revelam que o dinheiro arrecado por Flávio através da “rachadinha” de seus funcionários financiou a construção de prédios clandestinos em áreas controladas pela milícia de Adriano da Nóbrega. O assassinato de Adriano na Bahia, há poucos meses, seria queima de arquivo para proteger Flávio.

 

Para interromper a investigação Bolsonaro teria que intervir na Polícia Federal. Foi a deixa para a saída de Moro do governo, com denúncias que tornam inevitável um processo no Supremo Tribunal. Uma condenação de Bolsonaro, algo provável, implicará em seu impeachment.

Ao mesmo tempo, a pandemia tornou Bolsonaro no Planalto ainda mais indigesta para o grande capital. Quando é preciso uma administração competente dos recursos do Estado para garantir a mais rápida retomada da atividade econômica e a menor recessão, Bolsonaro só atrapalha. Seu choque com Mandetta ao redor do isolamento social e, em seguida, com Moro para conter as investigações acima mencionadas, não apenas paralisam o governo em meio à crise, como geram uma insegurança política com reflexos econômicos negativos.

 

Temos, ainda, a política externa de inspiração olavista. Nossas exportações, ainda mais fundamentais do que há poucos meses para girar economia, dependem em larga medida da China. O agrobusiness também depende de negócios com o Oriente Médio. Além dos seguidos choques com os chineses, a aliança com Israel ameaça as exportações para países como a Arábia Saudita. O agrobusiness, um setor que apoiou Bolsonaro desde o início, hoje está divido. Ameaça passar à oposição se a ministra da agricultura que os representa for expulsa do governo.

 

O governo mantém o apoio de cerca de 30% do eleitorado. Contudo, sem apoio de nenhum setor do grande capital e perdendo a cada dia o apoio de burgueses de alguma importância, com uma aliança explícita da maior parte dos governadores contra ele e com toda a grande imprensa escandalosamente na oposição, o governo Bolsonaro não deve sobreviver por muito tempo.

Contudo, ele possui um trunfo importante, ainda.

 

O trunfo de Bolsonaro

 

A queda de Bolsonaro pode tornar Moro o próximo presidente. Se assim for, o estamento político-burocrático poderá padecer uma segunda Lava Jato, com possibilidades de chegar em juízes do Supremo e atingir os grandes bancos (várias pistas não foram investigadas). Ou seja, contra o fortalecimento de Moro se alinham poderosos interesses. Desde o estamento político-burocrático, passando por grandes capitalistas... até o PT, que sonha com a absolvição de Lula através do reconhecimento pela Justiça da parcialidade de Moro. Trata-se, portanto, de encontrar uma fórmula que possibilite utilizar o prestígio de Moro contra Bolsonaro sem convertê-lo no próximo Presidente. Como se dará esta negociação, talvez fiquemos sabendo nas próximas semanas. Moro necessita de algum partido para se lançar candidato à Presidência em 2022, ele terá que negociar com o estamento político-burocrático em algum momento. Pode receber uma boa prebenda, um belo emprego ou mesmo um cargo no Supremo, desde que se comprometa com o acordo ora vigente contra a Lava Jato entre o grande capital e o estamento político-burocrático.

 

É por isso que, nesses dias, o PT se posiciona contra o impeachment e Maia está calado. Para evitar o impeachment, Bolsonaro tenta alinhavar algum apoio no Congresso. Quem aceita negociar é aquela parcela do estamento político-burocrático cujo poder depende mais diretamente da corrupção Estatal, a maioria do Centrão. Lembram do Roberto Jefferson? Aquele que denunciou o mensalão e passou alguns anos preso por corrupção? Pois bem, é esta mesma figura um dos articuladores contra o impeachment. Dependendo do que o governo federal oferecer, poderá ter algo próximo de 150 votos contra o impeachment na Câmara dos Deputados. Somado aos votos do PT, é suficiente para salvar Bolsonaro.

 

Quem poderiam imaginar o PT, o Roberto Jefferson e o Bolsonaro aliados contra o impeachment! Isto garante que Bolsonaro permanecerá no Planalto até 2022? Dificilmente. Com a pressão dos grandes capitalistas e com o desgaste político do governo quando as mortes pela pandemia explodirem, o mais provável é que o apoio do Centrão se dissolva. Roberto Jefferson e seus capangas sabem como poucos como sobreviver na política! Onde estão Dirceu e Genoíno, condenados junto com Jefferson no mensalão? Jefferson está de volta à cena e ocupando um lugar importante! Assim que Bolsonaro se converter em uma cruz que não compense carregar, os deputados do Centrão venderão seus votos para o impeachment – tal como Cunha e Temer fizeram com os petistas. Se isto ocorrer, teremos Mourão na Presidência. O que virá depois disso? Cedo para saber. A única certeza é que não promete nada de bom para os operários e trabalhadores.

 

 

14/04/2020 - Apresentação

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O QUE É O COLETIVO VEREDAS?

              
O Coletivo Veredas é uma frente político-ideológica composta por estudantes e professores que, tendo em vista a construção de uma sociedade livre da exploração do homem pelo homem, das classes sociais e do Estado, se posicionam na luta pela superação do capital.

O capitalismo tem cada vez mais mostrado sua insuficiência: trata-se de um sistema que acumula riqueza de um lado e miséria de outro, não podendo, jamais, ser reformado para atuar a favor da classe trabalhadora. A atual crise que estamos atravessando apenas confirma as previsões há muito tempo feitas por Marx e Engels: apenas os trabalhadores organizados, que nada tem a perder, detém nas mãos o poder de erradicar a exploração inerente a este sistema.

Neste sentido, com o intuito de se posicionar na luta ideológica contra o capital, o Coletivo veredas surgiu como meio alternativo de promoção e divulgação da produção teórica e artística revolucionária no país, produzindo livros de forma independente, vendendo a preço de custo e disponibilizando todas as obras publicadas em PDF em seu próprio site.

 

COMO FUNCIONA A NEWSLETTER DO COLETIVO VEREDAS?


O Coletivo Veredas, na tentativa de expandir a propaganda revolucionária e dialogar com seus simpatizantes, tem procurado investir na utilização das mídias digitais. Dentre estas tentativas, surgiu a ideia da criação de um newsletter.

O newsletter é uma espécie de boletim que sairá a cada 15 dias. O primeiro boletim do mês trará a divulgação de alguma obra já publicada pelo Coletivo, para que os leitores possam se aproximar mais dos temas e discussões travadas pelo Coletivo. Já o segundo boletim do mês trará algum artigo relevante para a atual conjuntura e para o processo de combate ideológico em meio a luta de classes, além de trazer também informes sobre o que está acontecendo dentro da organização, a fim de que os associados possam acompanhar o processo de produção dos livros dentre outras coisas.

 

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