Coletivo Veredas





Crítica e Debate


Por Dilma ou contra Dilma?

Sergio Lessa

                                                         "Entre duas alternativas, escolha sempre a terceira." Ditado popular judeu.

       O Brasil conheceu profundas transformações no último meio século. Industrializou-se e urbanizou-se a ponto de se converter em um dos 10 maiores PIB mundiais. Seu parque industrial se tornou dos mais up to date do planeta graças a uma base social que assimila -- sem maiores convulsões -- tecnologias mais avançadas com as modalidades produtivas tidas por "atrasadas". No mesmo país, por vezes no mesmo Estado ou, ainda, no mesmo município, convivem o que há de mais avançado (robôs e processos informatizados de produção etc.) em montadoras automobilísticas, usinas hidroelétricas e indústrias eletrônicas convive lado a lado com o trabalho doméstico ou em pequenas oficinas com longuíssimas jornadas de trabalho e elevada instabilidade de emprego que, na superfície, lembram traços da Revolução Industrial inglesa.

       A "base social" que possibilita esse peculiar "compósito de múltiplas determinações" (Marx) tem por marca essencial sua "extração colonial"[1]: resultante de uma convergência histórica muito bem sucedida entre o capitalismo mundial e as classes dominantes nacionais, o país desde 1500 se moderniza na medida e na direção necessárias para a ampliação da mais-valia a ser acumulada dentro e fora do país. O sucesso dessa extração colonial se expressa, de modo condensado, no fato de que, em todos os momentos em que o país viveu gargalos históricos, a solução que terminou por predominar foi sempre a reafirmação, sob novas formas, do velho passado "colonial". Muda o setor do capital internacional ou o setor das classes dominantes nacionais que predominará na condução da "coisa publica" e, a "via colonial" se mantém.

       Esse predomínio multissecular da "via colonial" é o responsável último para que o país possa articular contradições sociais, em uma intensidade inédita no planeta, com uma classe operária e trabalhadora com pouca capacidade de resistência e de reação. O petismo apenas é a última das novas formas que periodicamente o "velho" emprega para, ao se reciclar como "novo", manter-se dominante. É apenas a expressão mais recente da "via colonial".

 

       Os últimos 50 anos

       Com a Ditadura Militar, 4 processos históricos se articularam para moldar o país em que hoje vivemos. O primeiro, já mencionado, foi a industrialização em larga escala país. A entrada do capital estrangeiro e das multinacionais implantou entre nós a grande indústria fordista e, logo depois, a "toyotista" e, em seguida, a robotização e a terceirização das linhas de produção. Surge uma vasta cadeia de indústrias de componentes e peças indispensável para uma produção em tal escala. A classe operária cresce e, ao mesmo tempo, diminui: cresce a quantidade de operários no país (agora, também em áreas antes tipicamente agrícolas) ao mesmo tempo em que as grandes empresas dos anos de 1970-80 são substituídas por plantas robotizadas e terceirizadas que "desconcentram" os operários do ABC, da região de Betim etc.

       O segundo processo foi o reflexo desse desenvolvimento nas classes sociais. A classe operária se diversifica e se diferencia internamente: uma multidão de operários de baixos salários e qualificação tem como complemento, no mercado da força de trabalho, um setor especializado e de salários mais elevados. Do operário em Turitama (PE) ou em Toledo (PR) ao operário especializado de uma Honda ou da Petrobrás, há um mundo os separando, econômica e culturalmente. A burguesia, por seu lado, também se diversifica e se transforma. Seu setor industrial se expande e ganha relevância, enquanto tem lugar a perda de poder pelos setores tradicionais da burguesia e da oligarquia agrária de velho tipo. Pela primeira vez em nossa história, uma burguesia up to date, com amplas vinculações com o setor financeiro, converge com uma aristocracia operária tupiniquim. Esse setor da burguesia e esse setor da classe operária compartilham de algo comum: são recentes e precisam se contrapor, na disputa pelo poder, aos setores tradicionais da burguesia e da oligarquia que, no vocabulário do Lula das greves de 1978-9, "querem manter o atraso". Por fim, com a inevitável expansão dos serviços que acompanha a industrialização, surge um vasto setor de assalariados.

       O terceiro, processo foi uma profunda transformação no campo: a penetração do capital na agricultura praticamente destruiu a velha propriedade familiar que, na década de 1950-60 era a responsável pela produção de quase todo o alimento consumido no país. Em seu lugar surgiram os enormes latifúndios ou a pequena propriedade "integrada" – ambas as tendências se complementando com uma única direção: a produção de uma vasta e crescente mais-valia. O antigo campesinato se desfez e deu lugar a um proletariado rural tão heterogêneo quanto às condições de trabalho: da cana do nordeste à laranja de São Paulo, da soja da Amazônia à produção leiteira no sul de Minas, as modalidades do proletariado rural são muitas e diversas.

       O quarto processo significativo foi o crescimento da burocracia estatal e do estamento político, ambos uma decorrência necessária de um país que se moderniza para a produção de mais-valia sem romper com seu passado colonial. A presença do Estado na economia por meio de grandes investimentos (das obras públicas à Petrobrás, da Eletrobrás aos SUS etc.), a regulamentação do mercado pelo Banco Central (também através do sistema de financiamento estatal e ainda, por uma política de incentivos fiscais) aliada à necessidade de um forte aparelho repressivo para "administrar" as tensões sociais, foi a base para o crescimento da burocracia e, em particular, de seu estamento político (em detrimento, em alguma medida, do estamento militar).

 

       O novo pacto social

       A Constituição de 1988 foi o reflexo político dessas transformações: retirou do poder a "velharia" que tinha sua origem no que já fora, no passado, o que de mais "moderno" o Brasil possuía: as forças oligárquicas que, associadas ao capital das multinacionais, fizeram o país do "Ame-o ou deixe-o". Mas apenas retirou do poder o velho. Faltava articular em um bloco no poder as novas forças sociais e os novos interesses econômicos que, então, se fortaleciam.

       Não devemos nos esquecer que o pano de fundo dessa evolução do Brasil contemporâneo é a crise estrutural do capital (Mészáros): o único espaço de manobra a uma estrutura econômica como a nossa estava (e está) em ampliar a extração da mais-valia a uma taxa que torne lucrativa a entrada dos capitais internacionais e a sua rápida transferência ao sistema financeiro. O que requer uma ampliação da destruição das nossas reservas naturais, a concentração do capital financeiro em alguns poucos bancos, a integração com o mercado financeiro mundial da parcela de nossa economia administrada pelo Banco Central e, obviamente, a intensificação da exploração da força de trabalho.

       Pelas vias que todos conhecemos (o governo Sarney, a hiperinflação, o Plano Real, a "Era FHC" e, a seguir, os anos do "modo petista de governar"), na passagem do século o país entrava, também na esfera da política, no que havia de mais moderno em todo o mundo: um governo com "participação dos trabalhadores" em um Estado capitalista. Para que isso tivesse lugar, foi preciso ir afastando, aos poucos, os setores da burguesia e da agroindústria contrários à essa participação e, por outro lado, que entre os trabalhadores fosse se afirmando uma liderança que representasse a aristocracia operária mais do que o conjunto dos trabalhadores. A base social para essa "limpeza" entre os capitalistas e trabalhadores foi a ampliação em volume e em importância da mais-valia relativa na reprodução do capital investido no país. (Como tratamos disso no Jornal Espaço Socialista n.82, não nos alongaremos nessa explicação). Entre os "empresários", crescia a parcela que via em uma aliança com o PT e o Lula a possibilidade de um novo bloco de poder que mantivesse a antiga "via colonial" e lançasse as bases para um novo "ciclo de crescimento". Entre a aristocracia operária crescia a percepção, não inteiramente falsa no prazo de alguns anos, de que a expansão do capitalismo levaria a uma melhoria no seu padrão de consumo. E, a burocracia sindical e partidária de origem trabalhadora via, na sua chegada ao poder do Estado, a oportunidade de se locupletar, quer pela centralização da estrutura sindical em suas mãos, quer pelo acesso a cargos no Estado, quer por sua entrada na administração dos fundos de pensão etc.

       A eleição do Lula foi a vitória desse novo bloco. A reforma da previdência dos funcionários públicos – e a derrota da greve que a confrontou – marcaram o primeiro beija-mão significativo do governo petista: o capital financeiro se regozijou, os industriais ficaram felizes pelo cumprimento do prometido pelos petistas e, -- não nos esquecemos, pois isto é esclarecedor do que ocorre em nossos dias -- com o apoio da CUT e do MST, o maior movimento grevista contrário ao neoliberalismo petista foi derrotado. Um conjuntura internacional favorável, com alta disponibilidade de capitais no mercado financeiro, baixíssimos juros nos EUA e na Europa e com uma economia chinesa em crescimento a "taxas chinesas", permitiu o apogeu do novo bloco no poder: todos os setores da burguesia (o agronegócio, os industriais e os banqueiros) "levavam o seu" e a burocracia petista-cutista-partidária-sindical adentrava, finalmente, pelas principais portas palacianas e conhecia regalias e privilégios até então apanágio apenas das classes dominantes e de seus serviçais mais diletos.

       Imaginava-se – porque a imaginação também serve como justificadora – que estávamos entrando em uma nova etapa democrática que seria marcada pela participação dos trabalhadores no poder o que --, rezava o delírio --, conduziria a um país com menores disparidades sociais, mais democrático e, como se dizia então alguns poucos gramscianos (mas com grande repercussão) com uma sociedade civil "menos gelatinosa".

       Outros faziam o elogio afirmando que uma "nova classe trabalhadora" substituíra a "velha" classe operária. Nesta nova classe, não haveria distinção entre operários e aristocracia operária, nem entre operários e assalariados em geral. Seriam, todos, componentes de uma mesma e única classe. A "classe-que-vive-do-trabalho", de Antunes, foi a melhor elaborada das hipóteses desse campo teórico. O resultado imediato é o velamento do fato de que os petistas representavam a burocracia originária de um setor do proletariado, sua aristocracia; mascarava-se o fato de que desde o século 19 na Europa e no Brasil dos nossos dias, a aristocracia operária foi sempre uma fiel aliada do capital contra o restante dos operários e dos trabalhadores. "Somos todos da mesma classe": era tudo o que Lula e seus "companheiros" precisavam para se apresentar como representante de "todos os trabalhadores".

       O "modo petista de governar" elevou o lucro do capital aos maiores da história desse país; lembremos do famoso discurso de Lula para os empresários: nunca se lucrou tanto quanto nos governos petistas! E, para ser ainda mais multifaceticamente bem sucedido, lança-se um vasto programa federal de esmolas que (delírio é delírio porque não tem limites) pretendendo que seria uma distribuição de renda!

       A crise estrutural, contudo, bateu à porta.

       Em um momento em que as possibilidades de expansão econômica pelo aproveitamento da capacidade ociosa do capital fixo se esgotava e em que a expansão do agronegócio esgotara as áreas que requeriam menores investimentos – ou seja, em um momento em que, naturalmente, as taxas de mais-valia tendiam momentaneamente a cair pela necessidade de investimentos – a crise internacional de 2008 agrava as condições da crise estrutural mundialmente. A queda dos juros internacionais, em um primeiro momento, alimentou a entrada dos capitais em nosso país e deu o fôlego aos primeiros anos do primeiro governo Dilma. Mas os obstáculos para manter o crescimento econômico eram crescentes, tanto pela necessidade de novos investimentos, pelo esgotamento do processo de entrada do capital internacional, quanto pelas condições econômicas cada vez mais instáveis do Japão, da Europa, dos EUA e da China.

       Já não tinha para todos os setores da burguesia, como nos anos de bonança, e era preciso uma estratégia econômica para os anos de crise. A estratégia adotada foi, como seria natural, um "mais do mesmo": não se mexe em time que está ganhando! Lançou-se um vasto programa de obras públicas e incentivos ao consumo – se, na Roma antiga, era "pão e circo", no modo petista de governar era "linha branca" de geladeiras e fogões mais o circo de Jogos Pan-americanos, Copa do Mundo e Olimpíadas -- como formas de aquecer a economia e, assim, manter o crescimento. Num primeiro momento a coisa parecia dar certo. Foi quando a Dilma disse ao Obama que os EUA deveriam aprender com o Brasil como fazer política econômica!

       As dificuldades internas e externas conduziriam do delírio à realidade.

       Levou o PT a uma aliança preferencial com as grandes empreiteiras e com o setor do capital que necessita mais diretamente dos investimentos estatais. Para manter no poder esse bloco agora reduzido praticamente aos petistas no poder, às enormes empreiteiras e a um setor do agronegócio, monta-se um esquema de corrupção para financiamento eleitoral e para o enriquecimento pessoal da alta burocracia petista/cutista. A aposta é que a crise seria passageira e o momento de dificuldade seria superado quando de um novo surto de crescimento econômico. E as dificuldades políticas imediatas seriam contornadas pela ampliação da corrupção: o dinheiro garantiria a maioria no Congresso.

       A aposta revelou-se infundada.

       Os setores do capital não mais representados "condignamente" em Brasília (os industriais da FIESP, o capital comercial e amplos setores do agronegócio) precisavam remover os obstáculos à adoção de uma política econômica que atendesse, prioritariamente, aos seus interesses. Os banqueiros foram os últimos a deixarem o barco. Os petistas no poder, por sua vez, se afastaram de sua base social mais imediata, a aristocracia sindical e sua burocracia: os interesses na participação no butim do Estado já não são mais os mesmos do conjunto petista-cutista-partidário-sindical. Em dos grampos da Polícia Federal, o presidente da CUT, Vagner Freitas, reclama de dificuldade em manter sua base sob controle. O núcleo dirigente se fragilizou. O que se revelou, no jogo político, como o calcanhar de Aquiles dos "no poder", foi a corrupção. Com o amplo apoio de setores do grande capital – e com a simpatia de todo o país cuja exaustão devido à crise intensifica o desconforto com a corrupção – o judiciário tomou em suas mãos a tarefa de "limpar" as instituições. E Sergio Moro foi eleito, pela Forbes, um dos 13 líderes mundiais mais importantes!

       O governo reagiu com a pior das políticas: entregou mais poder aos seus inimigos para tentar ampliar sua base de apoio. A cada reforma, os inimigos "dos no poder" ampliavam sua participação no governo o que, inevitavelmente, enfraquecia ainda mais os petistas no Planalto. De tanto entregar os anéis, os petistas no poder perderam também quase todos os dedos.

       Uma nova aliança do grande capital com a aristocracia operária (e sua burocracia) é o que está sendo, hoje, alinhavado nos bastidores do "jogo político". Por um lado, nada se fala da corrupção sindical e do financiamento estatal das grandes centrais sindicais, locus da burocracia oriunda da aristocracia operária. Paulinho da Força Sindical (deputado federal) faz parte da comissão de impeachment da Câmara dos Deputados e vai votar pelo afastamento da Dilma. Estes interesses serão mantidos. Por outro lado, também não está posta como alternativa, uma revolta dos trabalhadores – o que só é possível com um comparecimento da classe operária como antagonista histórico do capital. Que o governo petista, a cada dia, reúne menos condições de ser o fiador dessa nova aliança e que deverá ser substituído por outras personificações do poder do capital, parece o mais provável. A questão que está em aberto é quais serão essas personificações e quais os termos desse acordo. Que, resolvida a questão da personificação, o acordo incluirá um violente arrocho salarial, a perda de direitos do trabalho abstrato (reforma da previdência, reforma das leis trabalhistas etc.) e um arrocho no crédito que deverá elevar a onda de falências, também parece fora de dúvidas.

       Como também é fora de questão que estamos assistindo apenas a uma renovação do velho: a corrupção continuará endêmica, os trabalhadores continuarão produzindo a mais-valia para a reprodução da "via colonial", o novo bloco no poder apenas remodelará o bloco anterior do "modo petista de governar". Não há, por essa razão, nenhum motivo para qualquer crença de que, com a queda ou a manutenção do governo Dilma, as questões históricas que são a causa da miséria dos trabalhadores serão, sequer, mencionadas, para não dizer, atacadas.

Com Dilma ou sem Dilma, a miséria é a mesma. Tal como as históricas contradições do nosso país.

 

       Uma oportunidade de ouro

 

       Enquanto o fundamental da esquerda no país está perdida entre apoiar ou se opor ao impeachment dos petistas, deixa passar ao largo uma oportunidade de ouro para os revolucionários.

       A crise das instituições burguesas é a maior que esse país já conheceu. Desde a democratização, todos os partidos do "Partido da Ordem" passaram pelo poder desde a democratização: todos fizeram exatamente o mais do mesmo. Além de uma arraigada insatisfação com os petistas, há uma ainda mais difusa constatação de que os políticos e o Estado não passam de um viveiro de bandidos e de corruptos. Nunca os dominantes tiveram uma tão grave dificuldade para escolher uma personificação "aceitável" para ocupar o poder político. O capital não pode abrir mão da burocracia estatal e de seu estamento político e, no caso da "via colonial" brasileira, esta burocracia e este estamento se revelam um monstro corrupto, voraz pelos recursos estatais além dos limites aceitáveis a vastas parcelas do grande capital.

       A ideia de que não há esperança de melhores dias é disseminada entre a população e apenas aumenta com a descrença de que seria possível algum político novo vir a salvar a situação. Por outro lado, nos próximos meses, o aprofundamento da crise internacional irá diminuir ainda mais o espaço de manobra de indivíduos e forças que venham a ocupar o Planalto depois dos petistas.

       Nunca se chegou tão perto, espontaneamente, da constatação de que este Estado, com os políticos e burocratas, não serve mais.

Contudo, a realidade por si só não pode conduzir à concepção de mundo dos trabalhadores para além dos marcos capital: não há como se sair do universo "economicista" sem a propaganda revolucionária (Lenin). Apenas e tão somente os revolucionários podem impulsionar avante a constatação cotidiana de que, sob o Estado, tudo está perdido.

       Temos, enquanto esquerda, em nossas mãos, um tesouro que preservamos há mais de século: a experiência da Comuna de Paris, os escritos de Marx, Engels e Lenin, sobretudo, acerca dessa experiência.

      A Comuna nos mostra o que é possível para iniciar a transição para além do capital, uma nova forma de administrar o país, de organizar o poder, que tenha os seguintes pontos básicos como orientação geral:

       1) os representantes são eleitos por local de moradia e de trabalho, são removíveis sempre que sua base o decidir, são eleitos por períodos curtos e não recebem, quando "no poder", nem um centavo a mais do que o salário de um trabalhador;

       2) o órgão executivo é o mesmo órgão legislativo e judiciário: nada de separação de poderes;

       3) o exército e a polícia devem ser destruídos e substituídos pelas milícias dos trabalhadores, organizados por locais de moradia e de trabalho;

       4) para eliminar o desemprego e melhorar a vida de todos, a política geral é a redução da jornada de trabalho pela incorporação não apenas dos desempregados, mas de todos os indivíduos das classes dominantes, na produção. Mantêm-se os mesmos ou melhores salários expropriando-se os lucros do capital.

       5) reorganização imediata da produção, no sentido de deixar de produzir o perdulário e desnecessário e produzir o que todos realmente necessitam para viver.

 

       Ao redor desses pontos é possível uma propaganda revolucionária que mire no longo prazo, que critique o atual estado de coisas do país por um viés revolucionário, que leve às massas a essência do nosso momento histórico e que aponte a um futuro sem classes sociais.

       Que o fundamental de nossa esquerda, perdida e absorvida nos processos eleitorais, não seja capaz de tal ação revolucionária, é uma consequência imediata e direta das instituições eleitoreiras em que se transformaram. Que os sindicatos não sejam capaz de uma atitude deste tipo é decorrência necessária do fato de serem mantidos pelo Estado com a participação ativa da aristocracia operária e seus burocratas.

       Lembremos de Lenin: os revolucionários são sempre minoria, por vezes vasta minoria, até chegarmos à revolução – a revolução, em alguma medida, é precisamente isto: as propostas revolucionárias ganham a força das massas. O fato de não termos como fazer uma ampla campanha e que vamos, provavelmente, no curto espaço de tempo, "pregar no deserto", não nos deve impedir de fazer o imprescindível: a propaganda da revolução e a crítica do mundo burguês. Devemos explicar, explicar, explicar e explicar novamente! Encontrar os meios para difundir o quanto pudermos o ideal revolucionário mostrando a todos a essência do que vivemos.

       Fora disso, apenas podemos torcer a favor ou contra a Dilma. Delirar que a Dilma não seja tão de direita quanto Temer ou Aécio – ou quanto Marina. Criar fantasmas para dar uma de Sancho Pança ao se comportar dentro dos limites da ordem estabelecida!

       Abaixo o Estado!

       Pela Comuna!



[1]Chasin, J. (1978) O Integralismo de Plínio Salgado. Ed. Ciências Humanas, S. Paulo.

 




Quem é o vândalo?

Sérgio Lessa


       Tome uma sociedade em que duas em cada 20 pessoas ficam com mais riqueza do que as restantes 18. Faça com que, dessas 18 pessoas, pelo menos 12 ou 13 vivam em favelas ou bairros e moradias muito piores do que os canis dos cachorros das 2 pessoas que ficam com toda a riqueza. Faça com que, dessas 18 pessoas, 16 tenham que enfrentar enormes filas de ônibus, metrôs e/ou que gastem quase metade das horas que trabalham no trânsito. Enquanto os filhos daqueles dois cidadãos têm as melhores escolas, quase sempre no exterior, os filhos de 4 das 18 pessoas tenham que pagar muito caro por uma educação privada e ruim; os filhos das 14 pessoas restantes são deixados para as escolas públicas, pouco mais do que depósito de crianças e adolescentes para que os pais e mães possam trabalhar. Quando chegarem à velhice ou ficarem doentes, faça com que 16 das 18 pessoas desejassem um atendimento médico semelhante aos dos animais de estimação das pessoas mais ricas e transforme a doença em enorme fonte de lucro para as pessoas que já ficam com mais da metade da riqueza.

       Organize a economia do país de tal modo que 60% da força de trabalho seja deslocada para o trabalho informal, isto é, faça com que a maior parte das pessoas em idade de trabalhar não saiba de onde virá o sustento do próximo mês, vivendo literalmente da mão para a boca graças a pequenos bicos, empregos temporários ou pequenos furtos e malandragens. Organize a economia de tal modo que esta parcela da população tenha certeza de que as coisas ficarão piores no futuro do que já são hoje. Construa enormes shoppings centers que expõem todas as maravilhas que farão a falsa felicidade de não mais do que 4 ou 5 das 20 pessoas; construa lojas de carro, móveis e roupas de luxo que exibem o quanto os patrões desperdiçam da gigantesca fortuna que amealham todos os dias. Uma vez por ano, faça festas populares que em alguns poucos dias queimam centenas de milhões de reais (como o Carnaval carioca) apenas para enriquecer os donos do turismo, organize Olimpíadas, Copas e mais Copas de futebol, promova a sangria do dinheiro público, pela corrupção e não apenas pela corrupção, para engrossar a conta daqueles 2 cidadãos que já ficam com mais da metade da riqueza.

       Caso seja um país com enormes riquezas naturais, terras ainda não ocupadas, reservas minerais ainda a serem exploradas e muito desemprego no campo, nada de promover uma agricultura que forneça alimentos saudáveis e gere emprego. Pelo contrário, destrua tudo: a água, o solo, a floresta, os animais, os peixes; persiga os indígenas e camponeses que moram no interior do país; adote toda tecnologia que fará os ricos ainda mais ricos e os pobres ainda mais pobres. Chegue ao absurdo de deixar plantar apenas as sementes cujos frutos são estéreis, para obrigar uma nova compra de sementes no plantio seguinte.

       Construa muros entre os ricos e os pobres; coloque guardas armados nos muros contra os pobres e faça com que a polícia, dia sim e dia sim, massacre, amedronte, torture, brutalize, viole, escrache, achincalhe, chantageie e exiba indescritível arrogância contra os "de baixo". Gaste tudo o que for preciso para comprar armas, instrumentos de tortura, bombas e mais bombas para os policiais "manterem o país sob controle (deles)" – e force a todos, dia sim e dia sim, a assistir na televisão como só é pobre quem é vadio, preguiçoso ou bandido.        Depois de 24 ou 25 anos de ditadura militar, faça uma Constituinte que prometa corrigir todas as injustiças do país com uma coisa chamada Democracia. Promulgue uma Constituição que é apresentada a todos como sendo a saída para as misérias e injustiças. Ao mesmo tempo, mantenha no "poder democrático" as mesmas forças que dominaram no "poder ditatorial". Mantenha até mesmo as mesmas pessoas, como Sarney (o último presidente da ARENA, o partido que apoiava os militares). Na medida em que as melhoras prometidas não aconteceram, para engambelar o povo, vá trocando os partidos na Presidência. Primeiro foi Sarney e depois o PMDB com o Itamar Franco, depois o PSDB com o Fernando Henrique e, depois, o PT com Lula e Dilma. Um partido é uma decepção maior que o outro.

       Mas não há decepção maior do que a do PT. Porque esse enganou melhor o povo e despertou maiores esperanças de mudanças. Ao contrário de mudanças, tivemos mais corrupção (o escândalo do mensalão), mais favorecimento ao grande capital (privatizações, reformas da previdência, concentração da propriedade da terra, resgate bilionário dos bancos, obras faraônicas como o estado de futebol em Brasília, etc.) e mais desprezo pelas necessidades dos trabalhadores.

       Junte a tudo isso, um Congresso formado por 4 centenas de "picaretas" (Lula), que dia sim dia sim é acusado de bandalheiras de todas as ordens, falcatruas nunca imaginadas, favorecimento de parentes, roubos e corrupções como nunca tivemos em nossa história. E, ainda, um judiciário lento, burocrático, que apenas funciona quando é para defender os privilégios dos ricos e endinheirados.

       Na Democracia, a ética do Congresso, dos Presidentes da República e do Judiciário é uma só: se locupletarem "sem alma, sem dó e sem pejo". Não possuem limites no seu cinismo e na arte de embuste. Enquanto dizem servir ao povo trabalhador, obedecem apenas a um senhor: aqueles 2 cidadãos que ficam com mais da metade de riqueza.

       Para aumentar os lucros dos capitalistas, faça com que quase metade dos trabalhadores do país viva em condições precárias, entre bairros insalubres e favelas. Quanto menos custar a moradia dos trabalhadores, menor o salário que o capitalista terá que pagar a eles. Que vivam na lama e na sujeira, pois!

       Coloque, hoje, milhares de crianças nas ruas, amanhã adolescentes: sem alimentos, sem moradia, sem educação, sem assistência médica ou odontológica e, quase sempre, sem família. Alegue que não tem recurso para tirá-las do abandono, quando seria necessária apenas uma ínfima parcela do que roubam para atender às crianças em situação de rua. Os "ricos" fecham as janelas e travam as portas dos seus carros nas esquinas em que essas crianças passam os dias; para as crianças e adolescentes esse ato significa que eles estão trancados "para fora" da civilização.

       Faça tudo isso e, não se surpreenda caso, um dia em que a polícia não tenha força para reprimir a todos porque as manifestações tomaram as ruas, alguns desses mais explorados vierem a se rebelar com uma guerra aberta à guerra que os 2 cidadãos que ficam com a riqueza lhes move de modo encoberto. Que quebrem as propriedades que lhe são negadas, que saqueiem o que o mercado lhes nega, que desrespeitem o direito à propriedade dos mais ricos. Também não se surpreendam se estes dois cidadãos mais ricos, que nunca vacilaram em organizar a violência cotidiana para se garantir contra os outros, agora assustados e amedrontados, forem à televisão dizer que os protestos são justos, mas dentro da "ordem" deles, dentro dos limites da "paz" deles.

       Ordem? Para quem? Para os 2 cidadãos continuarem com a maior parte da riqueza?

       Paz? A polícia está a se desarmar? Os 2 cidadãos estão desarmando suas seguranças privadas, abrindo mão de seus carros blindados -- ou estão investindo ainda mais em armas e munições, contratando mais soldados, comprando mais bombas?

     Por todos os lados, ordem é apenas outra palavra para defesa dos privilégios da burguesia contra os trabalhadores; a paz apenas é pedida quando a burguesia corre o risco de perder o confronto.

       Quem é, então, o vândalo?